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O TEMPO QUE O CORPO GUARDA

  • Carlos A. Buckmann
  • 15 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

O TEMPO QUE O CORPO GUARDA

            Meu corpo é feito de átomos que já foram estrelas, de água que já correu em rios antigos, de carbono que respirou em florestas esquecidas.

            Ele se renova a cada sete anos, dizem os cientistas, mas não é o mesmo. Cada célula carrega memória: da fome, do abraço, do susto, do riso.

            Minhas articulações rangem não só pela idade, mas pelo peso das escolhas não ditas. Meus olhos, embora ainda vejam, já carregam o cansaço de tantas imagens consumidas sem pausa. O corpo, assim, não é apenas matéria organizada, é tempo encarnado. E é ele, mais do que o relógio na parede, quem me ensina a viver o tempo de outra forma: não como linha reta a ser percorrida, mas como círculo a ser habitado.

            Vivemos sob a tirania do tempo cronológico, o tempo do relógio, do prazo, da produtividade, do “deveria já ter”. Esse tempo é externo, impessoal, implacável. Mas o corpo conhece outro tempo: o “kairós”, o tempo oportuno, o tempo da maturação. Ele sabe que uma ferida não cicatriza por decreto, que uma semente não vira árvore porque foi pressionada, que o luto não termina em trinta dias.

            O corpo vive o tempo da presença, aquele em que cada instante é denso, porque é sentido. Nele, um minuto de dor pode durar uma eternidade; um abraço sincero, conter uma vida inteira.

            A psicologia contemporânea tem redescoberto essa sabedoria corporal.

            Bessel van der Kolk, em seus estudos sobre trauma, mostra que o corpo registra o tempo de forma não linear: um cheiro, um som, um toque podem transportar alguém décadas atrás, como se o passado estivesse vivo no presente.

            Já a psicologia do envelhecimento, com figuras como Erik Erikson, entende que o tempo humano não é medido em anos, mas em estágios de integração, e que cada fase exige seu próprio ritmo.

            Do lado da psiquiatria, a atenção plena (mindfulness), inspirada em tradições contemplativas e validada clinicamente, propõe justamente uma ruptura com o tempo ansioso: voltar ao corpo, à respiração, ao agora, como forma de cura.

            A filosofia moderna, por sua vez, desconfia profundamente do tempo mecanizado.

            Henri Bergson distinguiu o “tempo espacializado”, o tempo do relógio, do “tempo vivido”, ou duração: uma experiência contínua, qualitativa, inseparável da consciência. Para ele, só o corpo, com sua sensibilidade, pode nos devolver à duração autêntica.

            Merleau-Ponty, por sua vez, afirmou que “o corpo é o lugar do tempo”. Não somos seres que têm um corpo no tempo, somos corpos que fazem o tempo.

            Foucault, ao estudar as práticas de si na Antiguidade, mostrou que os antigos não buscavam “ganhar tempo”, mas viver bem o tempo que tinham, com atenção, moderação, presença.

            É nesse encontro entre clínica sensível e filosofia encarnada que a psicofilosofia encontra seu caminho. Ela não ensina a gerenciar o tempo, ensina a habitá-lo. Usa o corpo como bússola: quando a respiração acelera, pergunta-se: “estou fugindo do presente?” Quando os ombros tensionam, indaga-se: “que peso estou carregando que não é meu?” 

            A psicofilosofia propõe exercícios simples, mas profundos: caminhar sentindo os pés no chão, comer em silêncio, observar o nascer do sol sem fotografar. São gestos que nos devolvem ao tempo da maturação, aquele que não se apressa, mas se aprofunda.

            Nessa sociedade obcecada por velocidade, onde tudo deve ser rápido, eficiente, imediato, essa reaprendizagem do tempo é urgente. Porque a ansiedade coletiva não nasce apenas da incerteza do futuro, mas da perda do presente. E o corpo, fiel guardião da verdade, nos lembra: a vida não acontece amanhã. Acontece agora, na pulsação, na saliva, no calor da pele, no silêncio entre duas respirações.

            Então, pare!

            Sinta seu corpo.

            Não para corrigi-lo, melhorá-lo ou exibi-lo, mas para habitá-lo.

            Deixe que ele lhe ensine o tempo da flor que desabrocha, da maré que sobe e desce, da noite que respeita a escuridão.

            Porque só quando voltamos ao tempo do corpo é que paramos de correr atrás da vida, e começamos, enfim, a vivê-la.

            O relógio marca horas.

            O corpo, sabedoria.

            E a sabedoria nunca tem pressa.

 
 
 

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