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O TEMPO QUE NOS ESCAPA

  • Carlos A. Buckmann
  • 1 de mai. de 2025
  • 5 min de leitura

O TEMPO QUE NOS ESCAPA

            Debruçar-me sobre a tessitura do tempo e a forma como o entrelaçamos em nossas vidas cotidianas evoca reflexões que transcendem a mera contabilização de horas e minutos. A epígrafe de Henry David Thoreau, perfeita em sua concisão e profundidade – “Não basta ser ocupado. A pergunta é: estamos ocupados com o quê?” –, ressoa como um sino a despertar-nos para a qualidade intrínseca de nossas atividades, e não apenas para a sua quantidade.

            Em minha própria jornada, confesso que outrora me vi engolfado por uma voragem de afazeres, a agenda repleta de compromissos que, em retrospectiva, assemelhavam-se mais a um turbilhão incessante do que a um fluxo direcionado. A sensação de estar constantemente ocupado era inegável, mas o fruto dessa labuta frenética, por vezes, revelava-se parco em significado e em resultados tangíveis. Foi então que a indagação de Thoreau penetrou em minha consciência, a dissipar a névoa da mera ocupação.

            Henry David Thoreau (1817-1862), escritor, poeta, filósofo, abolicionista, naturalista e transcendentalista americano, legou-nos uma obra que celebra a individualidade, a simplicidade e a profunda conexão com a natureza. Sua experiência de viver em uma cabana à beira do lago Walden, narrada em sua obra seminal "Walden; ou A Vida nos Bosques", tornou-se um símbolo da busca por uma existência autêntica e despojada das superficialidades da sociedade. Thoreau defendia a desobediência civil como forma de protesto contra leis injustas e inspirou movimentos pacifistas e ambientalistas ao redor do mundo. Sua vida e obra incitam-nos a questionar os valores convencionais e a priorizar uma vida guiada por princípios e pela busca da verdade interior.

            Aplicar a assertiva de Thoreau à administração de nosso tempo pessoal implica, antes de tudo, um exercício de introspecção. Devemos perscrutar nossas atividades diárias com um olhar crítico, discernindo o que verdadeiramente contribui para nosso crescimento pessoal, bem-estar e a consecução de nossos objetivos mais profundos. Quantas horas despendemos em atividades que nos drenam a energia sem nos agregar valor? Quantos momentos preciosos se esvaem em distrações fugazes e em compromissos que não ressoam com nossos anseios mais genuínos? A verdadeira gestão do tempo pessoal reside não em abarrotar a agenda, mas em preenchê-la com intenção e propósito. Significa dedicar tempo à leitura que nutre o intelecto, aos relacionamentos que aquecem a alma, ao exercício físico que revigora o corpo e à contemplação que aquieta o espírito.

            No âmbito dos negócios e do trabalho, a máxima de Thoreau adquire uma relevância pragmática inegável. Um funcionário eficiente não é aquele que se mantém incessantemente ocupado, mas sim aquele que direciona seus esforços para as tarefas que geram o maior impacto nos resultados da organização. A procrastinação de tarefas cruciais sob o pretexto de estar ocupado com atividades periféricas é uma armadilha comum que mina a produtividade. A administração eficaz do tempo no ambiente profissional exige priorização estratégica, foco nas atividades essenciais e a capacidade de discernir entre o urgente e o importante. Reuniões intermináveis e improdutivas, e-mails que consomem horas sem gerar valor significativo, são exemplos de como a mera ocupação pode mascarar a ineficiência.

            Outros luminares da literatura e do pensamento também se debruçaram sobre a arte de viver com intenção. Sêneca, em suas "Cartas a Lucílio", discorre sobre a brevidade da vida e a importância de aproveitar cada instante com sabedoria, evitando a dissipação do tempo em atividades fúteis. Marco Aurélio, em suas "Meditações", exorta à disciplina e ao foco no presente, lembrando-nos de que o passado já se foi e o futuro é incerto. Mais contemporaneamente, autores como Stephen Covey, em "Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes", e Peter Drucker, com sua vasta obra sobre gestão, enfatizam a importância de definir prioridades claras e de concentrar esforços nas atividades de maior impacto.

            A “Matriz de Eisenhower” se encaixa nesse contexto de maneira deveras elegante e pragmática, oferecendo um método estruturado para operacionalizar a reflexão proposta por Thoreau. Ela nos fornece um arcabouço para responder à crucial pergunta: "Estamos ocupados com o quê?".

            Concebida com base nos hábitos de gestão de tempo do ex-presidente dos Estados Unidos Dwight D. Eisenhower, essa matriz divide as tarefas em quatro quadrantes distintos, com base em dois critérios fundamentais: urgência e importância.

- Quadrante 1: Urgente e Importante (Fazer imediatamente). Estas são as tarefas que exigem atenção imediata e contribuem significativamente para nossos objetivos. Crises, prazos iminentes e problemas inesperados se enquadram aqui. Este quadrante clama por nossa ação prioritária.

- Quadrante 2: Importante, mas Não Urgente (Agendar). Aqui residem as atividades que, embora cruciais para nossos objetivos de longo prazo, não demandam execução imediata. Planejamento estratégico, desenvolvimento de habilidades, construção de relacionamentos e atividades preventivas são exemplos. Este quadrante exige planejamento e agendamento proativo.

- Quadrante 3: Urgente, mas Não Importante (Delegar). Este quadrante abriga tarefas que nos demandam atenção imediata, muitas vezes impostas por outros, mas que não contribuem significativamente para nossos próprios objetivos. Interrupções, algumas reuniões e certas demandas de terceiros podem se enquadrar aqui. A chave para este quadrante é a delegação, sempre que possível.

- Quadrante 4: Não Urgente e Não Importante (Eliminar). Este é o domínio das atividades que não agregam valor nem exigem atenção imediata. Distrações, atividades triviais e hábitos improdutivos encontram seu lugar aqui. A recomendação para este quadrante é a eliminação consciente dessas atividades, liberando tempo e energia para o que realmente importa.

            Ao aplicarmos a Matriz de Eisenhower à luz da indagação de Thoreau, percebemos que a mera ocupação, frequentemente, nos aprisiona nos quadrantes 1 e 3 – apagando incêndios e atendendo a demandas alheias – em detrimento do quadrante 2, onde reside o verdadeiro crescimento e a consecução de nossos objetivos mais profundos. A armadilha reside em confundir urgência com importância, dedicando nosso tempo a tarefas que gritam por atenção imediata, mas que nos desviam do caminho de nossos propósitos.

            A Matriz de Eisenhower se revela uma ferramenta valiosa para traduzir a filosofia de Thoreau em ação prática. Ela nos oferece um método tangível para avaliar a qualidade de nossa ocupação, incentivando-nos a direcionar nosso tempo e energia para as atividades que são verdadeiramente importantes, em vez de nos perdermos na mera urgência do cotidiano. Ao adotarmos essa perspectiva, podemos aspirar a uma vida e a um trabalho não apenas ocupados, mas significativamente produtivos e alinhados com nossos valores e objetivos mais profundos.

            Tanto em empresas quanto na vida de indivíduos, a aplicação consciente do princípio de Thoreau revela resultados transformadores. Empresas que implementam metodologias de gestão do tempo focadas em priorização estratégica e eliminação de desperdícios observam um aumento significativo na produtividade e na satisfação de seus colaboradores. Indivíduos que aprendem a discernir entre a ocupação vazia e a atividade significativa experimentam uma sensação maior de propósito, bem-estar e realização em suas vidas. O tempo, afinal, é o nosso recurso mais precioso e finito. A sabedoria reside em não apenas enchê-lo, mas em preenchê-lo com aquilo que verdadeiramente importa.

            Ah! Não esqueça de criar sua Matriz, ou seu tempo nunca será suficiente, ... nem para o cafezinho.

 

 

 

 

 
 
 

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