O TEMPO E O SOFRIMENTO PSÍQUICO
- Carlos A. Buckmann
- 27 de out. de 2025
- 3 min de leitura

O TEMPO E O SOFRIMENTO PSÍQUICO
Dizem que o tempo cura todas as feridas. Mas quem já sofreu sabe: o tempo não cura, ele transforma. Às vezes alivia, outras vezes aprofunda. Há dores que, com os anos, se cristalizam em sabedoria; outras, que se petrificam em cicatrizes invisíveis, repetindo-se como ecos em cada novo amanhecer.
O tempo, longe de ser um senhor benevolente, é um juiz implacável e ambíguo: concede a espera, mas também a angústia da espera; oferece a duração, mas também a tortura da repetição.
Na relação entre tempo e sofrimento psíquico, não há cronologia neutra, há uma temporalidade carregada de sentido, ou da ausência dele.
A psicologia contemporânea reconhece que o sofrimento psíquico não se mede em dias, mas em modos de habitar o tempo.
Freud já observava que o trauma escapa à linearidade: o passado retorna no presente como se nunca tivesse passado.
Jung via no tempo psíquico um movimento cíclico, onde os arquétipos emergem em momentos de crise, exigindo integração.
Já a psiquiatria, com seu olhar mais estruturado, identifica como transtornos como a depressão distorcem a percepção temporal, o futuro some, o passado pesa, e o presente se esvazia. O tempo do depressivo não flui; estagna. O do ansioso não chega; ameaça.
E o do psicótico? Pode desintegrar-se por completo, dissolvendo passado, presente e futuro numa eternidade fragmentada. Para ambos os campos, o sofrimento psíquico é, em essência, uma patologia do tempo.
A filosofia, por sua vez, mergulha na raiz ontológica dessa relação.
Agostinho, em suas “Confissões”, já se perguntava: “Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, sei; se quero explicá-lo a quem me pergunta, não sei.” Ele via o tempo como distensão da alma, “distentio animi”, e o sofrimento como uma contração dessa mesma alma.
Heidegger, séculos depois, afirmaria que o ser humano é “temporalidade”: não vivemos no tempo, mas como tempo. O sofrimento, então, não é um acidente na linha do tempo, mas uma maneira de estar lançado no mundo, marcado pela finitude e pela angústia diante do nada.
Bergson, por sua vez, distinguia o tempo cronológico, mecânico, quantificável, do tempo vivido, a duração pura, onde a dor se intensifica ou se dissolve segundo a qualidade da consciência.
E Nietzsche? Ele nos desafiava a viver de modo que quiséssemos que cada instante se repetisse eternamente, uma prova suprema de aceitação, inclusive do sofrimento.
É nesse entrelaçamento entre a clínica do tempo e a metafísica da existência que a psicofilosofia encontra seu lugar. Ela não se limita a cronometrar o sofrimento nem a espiritualizá-lo. A psicofilosofia escuta o tempo do sujeito como narrativa íntima: não pergunta apenas “há quanto tempo você sofre?”, mas “como o tempo se dobra em torno da sua dor?”. Trata-se de ajudar o indivíduo a retemporalizar sua existência, não para apagar o passado, mas para reabrir o futuro. Em vez de impor a cura como um ponto final na linha do tempo, a psicofilosofia convida à “reconfiguração simbólica” do sofrimento: transformar o que foi paralisante em matéria de crescimento, o que foi repetitivo em lição, o que foi caótico em caminho.
Numa sociedade que idolatra a velocidade, a produtividade e a imediatidade, o sofrimento psíquico é frequentemente tratado como falha de desempenho, algo a ser corrigido o mais rápido possível.
Mas a psicofilosofia resiste a essa lógica. Ela sabe que algumas dores exigem lentidão; que certas curas só florescem na espera; que o tempo, quando habitado com consciência, pode ser o mais sutil dos terapeutas.
Em tempos de ansiedade coletiva e esvaziamento existencial, essa ciência híbrida oferece algo raro: um espaço onde o tempo não é inimigo, mas aliado na busca por sentido.
Por isso, digo a você que lê estas linhas com o coração apertado: - Não tema o tempo que sua dor exige. Não se culpe por não “superar” rápido o que ainda precisa ser compreendido.
O sofrimento não é sinal de fraqueza, mas de profundidade. E a profundidade exige tempo.
Que você possa, um dia, não apenas suportar seu tempo, mas dançar com ele, mesmo quando a música for feita de silêncios e lágrimas.
É na paciência com a própria dor que o ser humano redescobre sua dignidade temporal.
E nisso, reside sua cura, não como fim, mas como movimento.




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