O TEMPO COMO MESTRE E LABIRINTO
- Carlos A. Buckmann
- 30 de mai. de 2025
- 4 min de leitura

O TEMPO COMO MESTRE E LABIRINTO
Debruço-me sobre a sentença do pensador dinamarquês Søren Kierkegaard: "A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente." Em sua concisão eloquente, reside uma profunda dialética que ecoa através dos corredores da existência humana, um paradoxo que nos convida à reflexão sobre a natureza do tempo, da memória e da ação. Compreender o passado, com suas intrincadas teias de causa e efeito, seus triunfos e suas máculas, é condição “sine qua non” para tecer algum sentido no presente. Contudo, a própria tessitura da vida, sua pulsação e seu devir, só se manifestam na prospecção do futuro, no lançar-se adiante com ímpeto e esperança.
Ao contemplar a máxima de Søren Kierkegaard, repito, sou tomado por uma sensação paradoxal. A existência se desenha como um manuscrito cujas páginas se revelam apenas após serem escritas, permitindo-nos interpretar os acontecimentos como um observador que, distante do fervor do instante vivido, encontra sentido naquilo que antes parecia um caos imperscrutável.
Søren Aabye Kierkegaard (1813-1855), figura ímpar no panteão da filosofia, emerge como um crítico contundente do hegelianismo dominante em sua época. Imerso em uma atmosfera intelectual que buscava a totalidade e a sistematização do saber, Kierkegaard insurgiu-se em defesa da singularidade do indivíduo, da subjetividade pungente e da importância da escolha e do engajamento existencial. Sua obra, permeada por pseudônimos que exploravam diversas perspectivas da existência, como O Conceito de Angústia, Temor e Tremor e O Desespero Humano, desvela as profundezas da fé, do desespero e da busca por autenticidade em um mundo cada vez mais massificado e alienado. Sua filosofia, precursora do existencialismo, ressoa ainda hoje com aqueles que se confrontam com a liberdade radical e a responsabilidade inerente à condição humana.
Profundamente influenciado pelo cristianismo e pelas questões que envolvem a liberdade, Kierkegaard acreditava que a verdade se encontrava não na objetividade absoluta, mas na subjetividade daquele que a busca. Para ele, a vida não se tratava de um enigma a ser resolvido de imediato, mas de um percurso que só adquiria profundidade à medida que se desenrolava.
Essa reflexão se interliga à noção do Eterno Retorno, conceito fundamental de Friedrich Nietzsche. Se, para Kierkegaard, a vida se compreende olhando para trás e se vive olhando para frente, Nietzsche propõe uma provocação ainda mais radical: e se cada instante da existência fosse condenado a se repetir eternamente, exatamente como aconteceu? Essa ideia, presente em sua obra "Assim Falou Zaratustra", desafia o indivíduo a encarar sua própria vida com responsabilidade absoluta, como se cada escolha fosse definitiva e irrevogável. O Eterno Retorno nos força a viver de maneira autêntica, pois a mera hipótese de reviver infinitamente os mesmos momentos impõe um exame brutal sobre nossas decisões.
A mesma reflexão atravessa os escritos de Eduardo Galeano, que, por meio de suas crônicas e narrativas históricas, iluminava o passado como alicerce para compreender o presente. Galeano nos recorda que a história é um espelho retrovisor necessário, pois nela jazem os erros e os acertos que moldam o que somos e o que poderemos ser. Outros pensadores, como Walter Benjamin, reforçaram essa percepção ao falar do conceito de "Angelus Novus", onde o anjo da história olha para o passado vendo seus escombros, enquanto é impulsionado inapelavelmente para o futuro.
Individualmente, a profundidade dessa reflexão se manifesta na constante dança entre a nostalgia e a esperança. Relembramos os caminhos percorridos, as decisões tomadas, os amores vividos e as perdas sofridas, extraindo lições que, idealmente, nos guiam nas encruzilhadas do presente. Contudo, permanecer cativo das reminiscências, seja em um idílio melancólico ou em um ressentimento paralisante, impede o fluxo da vida, a ousadia de novos passos. A verdadeira sabedoria reside em integrar o aprendizado pretérito com a coragem de se lançar ao desconhecido, conscientes de que cada ação presente moldará a narrativa que, no futuro, será objeto de nossa contemplação retrospectiva.
Essa dualidade se manifesta de maneira inescapável em todas as facetas da vida humana. No âmago das decisões individuais, frequentemente apenas depois do sofrimento, da perda ou do êxito tardio percebemos os contornos de nosso percurso e o sentido oculto das bifurcações trilhadas. Na esfera social, a compreensão do passado coletivo é fundamental para a construção de um futuro mais equitativo e consciente. As sociedades que ignoram suas mazelas históricas, que negligenciam a memória de seus conflitos e injustiças, tendem a repetir padrões destrutivos. A análise crítica do passado, longe de ser um exercício de vitimização, é um imperativo ético para a construção de um presente mais justo e de um futuro promissor. No mundo dos negócios, essa dialética também se faz presente. A análise de erros e acertos passados fornece insights valiosos para a tomada de decisões estratégicas, mas a inovação e o crescimento dependem da visão prospectiva, da capacidade de antecipar tendências e de ousar em novos mercados. Uma empresa excessivamente apegada ao sucesso pode sucumbir à obsolescência, enquanto uma que ignora as lições da história corre o risco de repetir equívocos dispendiosos.
Há, portanto, uma beleza singular na consciência de que somos eternos aprendizes do ontem e eternos navegantes do amanhã. E, enquanto seguimos no fluxo do tempo, resta-nos um único consolo: mesmo sem total compreensão, podemos sorrir diante da ironia de tudo. Afinal, se a vida realmente fosse óbvia, não precisaríamos de filósofos. Bastaria um manual de instruções.




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