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O SORRISO COMO RESISTÊNCIA

  • Carlos A. Buckmann
  • 5 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

O SORRISO COMO RESISTÊNCIA

            Sou um apaixonado pela música “SMILE” (Sorria), cujo autor é o universal Charles Chaplin.  Não só pela poesia de sua letra, como também pela musicalidade de uma simplicidade melódica, quase como uma canção de ninar.  Mas hoje resolvi estudá-la com mais vagar:

            Há, no rosto humano, um movimento aparentemente simples, quase banal, que carrega em si o peso de uma cosmologia inteira: o sorriso. Não me refiro ao riso efusivo, à gargalhada que irrompe como um trovão em tempestade, não, falo do sorriso contido, da curva sutil dos lábios que se ergue como um arco sobre o abismo. É nesse gesto que o homem, em sua condição frágil e efêmera, tenta afirmar um domínio sobre o caos. O sorriso, nesse sentido, não é apenas expressão; é um ato de resistência metafísica. Uma negação silenciosa da dor, um pacto tácito com a esperança, ainda que fundado na ilusão. Sorri-se, muitas vezes, não porque se está feliz, mas porque se recusa a sucumbir. É um ato de coragem, sim, mas também, e isso é o que me inquieta, um ato de dissimulação.

            É nesse território ambíguo que Charles Chaplin, com sua rara intuição filosófica disfarçada de canção, nos convoca em Sorri. A melodia é suave, quase ingênua, mas a letra é densa como um tratado existencial. Ela não pede alegria, mas exige um gesto: sorria. Mesmo quando o coração está partido. Mesmo quando o mundo desaba. É uma ética do afeto, uma moral do semblante. E é precisamente nesse imperativo que reside seu poder e seu perigo.

            "Sorria, embora seu coração esteja doendo / Sorria, mesmo que ele esteja partido"

            Este é o primeiro paradoxo: a exigência de uma expressão contrária ao estado interno. Filosoficamente, estamos diante de uma inversão platônica: em vez de buscar a harmonia entre alma e corpo, propõe-se uma dissonância estratégica. O sorriso aqui é uma máscara, mas uma máscara que, segundo os estoicos, pode moldar a realidade interior. Se repetimos o gesto, talvez a emoção siga. É o princípio da práxis emocional: agir como se se fosse feliz até que a felicidade, por força da repetição, se torne real. Mas que preço pagamos por essa encenação? Negar a dor é negar uma parte essencial da experiência humana. Concordar com este verso é abraçar uma disciplina do sofrimento; negá-lo é assumir o risco do desespero, mas também a autenticidade do luto.

            "Quando há nuvens no céu, / Você conseguirá”

            Aqui, a natureza entra como metáfora cósmica. As nuvens são passageiras, assim como a dor, essa é a promessa. Mas é uma promessa baseada na crença em um tempo redentor, em um futuro que cura. O pensamento estoico e o budismo convergem aqui: tudo é impermanente. Porém, o verso não diz "as nuvens passarão", mas "você conseguirá". A ênfase recai sobre o sujeito, sobre sua capacidade de resistir. Isso é tanto empoderamento quanto pressão. Concordar com essa linha é assumir a responsabilidade pelo próprio sofrimento, e pela sua superação. Negá-la é reconhecer limites, fraquezas, a possibilidade de derrota. Mas talvez seja mais honesto reconhecer que nem todos conseguem, e que "conseguir" não é mérito, mas sorte.

            "Se você sorrir / Com seu medo e tristeza / Sorria e talvez amanhã / Você verá o sol brilhando, para você"

            O condicional "talvez" revela a fragilidade do otimismo. Não há garantia, apenas possibilidade. O sol pode brilhar, ou não. A filosofia aqui é “kierkegaardiana”: a esperança como salto no escuro, fé sem evidência. Sorrir com o medo e a tristeza é o ato do herói absurdo, como Sísifo sorrindo enquanto empurra a pedra. É um ato de revolta poética contra o absurdo. Concordar é viver na tensão entre desespero e esperança. Negar é cair no niilismo, ou, quem sabe, na lucidez mais cruel.

            "Ilumine seu rosto com alegria / Esconda qualquer traço de tristeza"

            Aqui, a ordem é clara: dissimule. A sociedade moderna exige isso, o bom humor como obrigação. É a tirania do positivo, a opressão do otimismo forçado. Nietzsche diria que é uma moralidade de escravos: ocultar a dor para não perturbar o outro. Mas também pode ser uma forma de dignidade: não entregar ao mundo o espetáculo da própria ruína. Concordar é participar de uma estética da resistência. Negar é exigir o direito à tristeza, à melancolia, ao desalento como formas legítimas de existência.

            "Embora uma lágrima possa estar tão próxima / Esse é o tempo que você tem que continuar tentando"

            A lágrima iminente é a prova da humanidade. O valor não está em não chorar, mas em tentar, mesmo assim. É uma ética do esforço, não do resultado. É a ética do caminhante que sabe que a jornada pode ser em vão, mas segue. Concordar é abraçar o existencialismo de Camus: criar sentido mesmo sem garantias. Negar é exigir que o esforço tenha sentido, e, ao não encontrá-lo, desistir.

            "Sorria, o que adianta chorar? / Você descobrirá que a vida ainda continua / Se você apenas sorrir"

            Aqui, o círculo se fecha. O choro é inútil, diz a canção. A vida continua, independentemente do sorriso. Mas o sorriso é a condição para perceber que a vida continua. É uma ilusão necessária. Concordar é aceitar que a felicidade pode ser uma escolha, uma performance que se torna real. Negar é lembrar que a vida continua apesar do sorriso, muitas vezes apesar de nós.

            No fim, Chaplin nos oferece uma filosofia do semblante: sorria, porque o mundo exige que você pareça forte. E talvez, nesse gesto, você encontre um fragmento de luz. Mas não me iludo: o sorriso que esconde a dor não a cura, apenas a adia. E é nesse adiamento que reside tanto a grandeza quanto a miséria da condição humana.

            Sorria, diz a canção. E se o mundo é uma farsa, é melhor que o palhaço ao menos saiba que está fingindo.

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora.

 
 
 

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