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O SONHO IMPOSSÍVEL

  • Carlos A. Buckmann
  • 9 de ago. de 2025
  • 5 min de leitura

O SONHO IMPOSSÍVEL

            Alguns leitores do meu blog comentaram, com gentileza, mas também com certa franqueza, que minha última crônica, “O Direito à Vulgaridade”, soou um pouco ácida, quase desencantada. Um ou outro até me acusou de pessimismo, como se eu tivesse trocado a lente da esperança pela do cinismo. Confesso: talvez tenha. A verdade é que, às vezes, a realidade nos pressiona com tanta força que o olhar se turva, e o coração, por instinto, se retrai.

            Hoje, ao ouvir novamente Sonho Impossível, aquela versão magistral de Chico Buarque e Ruy Guerra para o clássico The Impossible Dream, senti um impulso diferente. Um convite. Um chamado. Não ao otimismo ingênuo, mas à esperança lúcida. À coragem de sonhar, mesmo quando o mundo parece conspirar contra os sonhadores. Então, decidi escrever esta crônica como um antídoto, não para o mundo, talvez, mas para mim mesmo. E, quem sabe, para quem ainda acredita que o futuro pode ser diferente.

            A música, com sua estrutura quase litúrgica, é um manifesto existencial. Cada verso é um passo em direção ao que parece inalcançável, um convite a habitar o paradoxo: viver com intensidade num mundo que nos ensina a sobreviver com indiferença.

Sonhar mais um sonho impossível

            Começar por um sonho impossível é, em si, um ato de revolução. A filosofia grega já nos dizia que o homem é o único animal que olha para as estrelas. Mas hoje, muitos de nós só olhamos para as telas. Sonhar o impossível é recusar a tirania do real, é afirmar que o mundo não é um dado fixo, mas um projeto em construção. É lembrar que antes de existir, tudo era impossível. O avião, a cura de doenças, a liberdade de povos oprimidos. O sonho impossível não é uma fuga da realidade, mas um convite a transformá-la.

Lutar quando é fácil ceder

            A facilidade do ceder é uma armadilha moderna. Vivemos em tempos de rendição coletiva: rendemo-nos ao desinteresse, à indiferença política, ao consumo como religião. Lutar, aqui, não é apenas o combate físico, mas a resistência diária, a recusa em calar diante da injustiça, a decisão de não se conformar com o que está dado. É o existencialismo em ação: somos responsáveis por nossos atos, mesmo quando o mundo parece não dar retorno. Lutar é, antes de tudo, um ato de dignidade.

“Vencer o inimigo invencível”

            Quem é esse inimigo? Pode ser a morte, o tempo, a desigualdade, o ódio. Mas talvez o verdadeiro inimigo invencível seja a apatia. A crença de que nada pode mudar. Vencê-lo não significa destruí-lo, talvez ele nunca seja derrotado de vez, mas enfrentá-lo com coragem. É como Sísifo, que, mesmo condenado a empurrar a pedra montanha acima, continua. Não pela vitória, mas pelo sentido. Vencer o invencível é, paradoxalmente, continuar em movimento, mesmo quando a vitória parece fora de alcance.

“Negar quando a regra é vender” 

            Este verso é um soco no estômago da contemporaneidade. Vivemos numa sociedade onde tudo é mercadoria: tempo, afeto, atenção, até a dor. Vender-se é a norma. Negar, então, é um ato quase sagrado. É dizer não ao lucro fácil, à traição de valores, à corrupção da alma. Negar é afirmar que há coisas que não têm preço, a integridade, a verdade, o amor. É escolher a pobreza com dignidade em vez da riqueza com vergonha.

“Sofrer a tortura implacável / Romper a incabível prisão” 

            O sofrimento faz parte da condição humana. Mas a música não romantiza a dor, ela a reconhece como parte do caminho. A “prisão incabível” pode ser o sistema opressor, a mente aprisionada pelo medo, a repetição de ciclos de violência. Rompê-la exige mais do que força: exige consciência. É o que os filósofos chamam de despertar. Quando percebemos que estamos presos, já demos o primeiro passo para a liberdade. Sofrer, então, não é em vão, é o preço da lucidez.

“Voar num limite improvável / Tocar o inacessível chão”

            Voar é transcendência. É elevar-se acima do imediato, do mesquinho, do efêmero. Mas o paradoxo está no final: tocar o chão. O verdadeiro sonho não é escapar da terra, mas reinventá-la. O místico não foge do mundo, ele o ama profundamente. Tocar o “inacessível chão” é, então, um ato de amor radical: é desejar um mundo justo, fraterno, vivo. Um chão onde todos possam pisar com dignidade.

“É minha lei, é minha questão / Virar esse mundo, cravar esse chão”

            O sonho deixa de ser individual e se torna ético. Não é apenas meu sonho, é minha lei. Uma escolha de vida. “Virar esse mundo” não é uma metáfora de revolução violenta, mas de transformação profunda. Cravar o chão é plantar raízes num futuro que ainda não existe. É acreditar que, mesmo que eu não veja, algo vai brotar.

“Quantas guerras terei que vencer por um pouco de paz”

            A paz não é o fim da guerra, mas uma conquista diária. E ela exige luta. Quantas vezes nos sentimos cansados de lutar por coisas que deveriam ser naturais: respeito, empatia, justiça? Mas a pergunta não é retórica: é um reconhecimento de que o preço da paz é alto. E mesmo assim, vale a pena pagá-lo. Porque a paz não é ausência de conflito, mas presença de sentido.

“E amanhã, se esse chão que eu beijei / For meu leito e perdão” 

            Há beleza na aceitação da finitude. Se um dia esse chão, esta terra que amei, por que lutei, se tornar meu leito de morte, que seja também meu perdão. Perdão por minhas falhas, por meus limites. Mas também perdão do mundo por ter ousado amá-lo, mesmo ferido. Morrer de paixão não é morrer em vão, é morrer tendo vivido plenamente.

“E assim, seja lá como for / Vai ter fim a infinita aflição / E o mundo vai ver uma flor / Brotar, do impossível chão.” 

            Este é o verso que me traz lágrimas. Porque, no fim, não se trata de vencer, mas de semear. A flor que brota do impossível chão é a metáfora mais pura da esperança. É a vida insistindo onde tudo parece morto. É a criança que nasce em meio à guerra, o artista que canta na prisão, o cientista que descobre um remédio contra o desespero. É a crença de que, mesmo no abismo, algo pode renascer.

            Talvez o fim catastrófico esteja escrito. O colapso ecológico, a indiferença social, a barbárie institucionalizada. Mas enquanto houver alguém disposto a sonhar o impossível, o mundo não estará perdido. Porque o sonho é o primeiro ato da criação.

            E se tudo terminar, que termine com uma flor no chão. 

            E que alguém, em algum lugar, a veja, e sonhe também.

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora.

 
 
 

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