top of page

O SOFRIMENTO COMPARTILHADO

  • Carlos A. Buckmann
  • 21 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

O SOFRIMENTO COMPARTILHADO

*Por um cronista psicofilosófico que pensa com o coração e sente com a razão.

            Há dias em que o sofrimento não cabe apenas nos ombros de um corpo. Ele transborda, escorre pelas ruas, ecoa nos silêncios das casas vazias, se entranha nas leis que excluem, nas memórias que apagam, nas estruturas que oprimem.

            O sofrimento, longe de ser um drama meramente individual, é também social, tecido nas relações desiguais, nas heranças coloniais, nas violências institucionais. E é histórico, carregado nas costas de gerações que não escolheram suas cicatrizes, mas as herdaram como bagagem obrigatória.

            Como diria Frantz Fanon, o sofrimento do colonizado não é só psíquico; é político, é epistêmico, é ontológico. É um sofrimento que nasce da negação do ser.

            A psicologia, em sua vertente clássica, tenderia a olhar esse sofrimento como um sintoma a ser diagnosticado, catalogado, tratado com protocolos.

            A psiquiatria, por sua vez, talvez o reduzisse a um desequilíbrio neuroquímico, um transtorno a ser medicado.

            Ambas, em suas boas intenções, correm o risco de medicalizar o que é, antes de tudo, uma ferida coletiva. Não que os remédios não tenham seu lugar, têm. Mas não curam a raiz. Como bem alertou Michel Foucault, a loucura foi historicamente confinada, silenciada, patologizada, e com ela, o sofrimento que a sociedade não quis encarar como espelho.

            Já a filosofia, desde os estoicos até os existencialistas, sempre soube que o sofrimento é constitutivo da condição humana. Mas não se contentou em apenas aceitá-lo.

            Nietzsche via no sofrimento uma força criadora, um fogo que forja o espírito. Simone de Beauvoir, por sua vez, insistia que o sofrimento feminino não era destino, mas produto de uma estrutura patriarcal. Para ambos, compreender o sofrimento exigia agir: transformar o mundo para que ele não fosse em vão. A filosofia, então, não se limita a interpretar o sofrimento, ela o interroga, o desafia, e chama à responsabilidade ética.

            É nesse entrelaçamento entre o íntimo e o coletivo, entre o sintoma e a estrutura, que surge a psicofilosofia, essa ciência híbrida que ousamos cultivar.

            Não é nem psicologia nem filosofia pura, mas um diálogo entre elas, uma escuta atenta ao que a alma diz e ao que a história cala. A psicofilosofia não pergunta apenas “o que você sente?”, mas “em que mundo você sente isso?”. Ela sabe que um luto pode ser pessoal, mas também pode ser o luto de um povo pela terra roubada, pela língua proibida, pelo futuro interrompido.

            Por isso, sua prática não se dá apenas no consultório, mas nas praças, nas escolas, nas mesas de um café (meu consultório preferido) nas redes comunitárias. Ela constrói redes de cuidado, não como assistencialismo, mas como reciprocidade ética. Inspirada em pensadores como Paulo Freire e Judith Butler, entende que cuidar é também politizar, é reconhecer o outro como sujeito de direito e de dor.

            No mundo atual, marcado pela solidão digital, pela ansiedade sistêmica e pela crise de sentido, a psicofilosofia se impõe como urgência.

            Não oferece respostas prontas, mas perguntas que libertam. Não promete cura mágica, mas caminhos compartilhados.

            Ela nos lembra que ninguém cura sozinho, nem o indivíduo, nem a sociedade. Precisamos uns dos outros, não como pacientes, mas como companheiros de travessia.

            Que não nos cansemos de sofrer juntos e, sobretudo, de cuidar juntos.

            Porque o sofrimento, quando acolhido em rede, deixa de ser prisão e se torna ponte. E é nessa ponte que construiremos não só alívio, mas justiça.

            Não só cura, mas futuro.

 
 
 

Comentários


CONTATO

Porto Alegre, RS 

​​

Tel: (51) 9 9259-6364

Skype: betobuckmann​

betobuckmann@yahoo.com.br

Nós recebemos a sua mensagem, aguarde contato.

  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

© 2023 por Hugin. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page