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O SILÊNCIO QUE NOS ENSINA A NÃO PERGUNTAR

  • Carlos A. Buckmann
  • 7 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

O SILÊNCIO QUE NOS ENSINA A NÃO PERGUNTAR

            Há um silêncio peculiar que paira sobre as salas de aula de certos países, um silêncio que não é ausência de ruído, mas ausência de sentido. Caminho por escolas onde o chão é de cimento rachado, os livros têm páginas rasgadas e o professor, muitas vezes, trabalha com salário atrasado, mas com um olhar que ainda resiste. Este é o cenário de milhões de crianças em países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, onde a educação é tratada como privilégio, não como direito. Aqui, o acesso à cultura é desigual, fragmentado, muitas vezes reduzido a meros fragmentos de informação descontextualizados, como se o conhecimento fosse um luxo que se distribui em gotas, para que a sede não se torne revolta.

            Nos últimos dez anos, segundo dados da UNESCO, cerca de 250 milhões de crianças em países em desenvolvimento não conseguem ler uma frase simples aos dez anos de idade. No Brasil, apesar de avanços pontuais, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) ainda oscila entre 4,0 e 5,5, muito aquém do ideal. A cultura, nesse contexto, é frequentemente reduzida a entretenimento superficial, consumido em doses rápidas de redes sociais, enquanto o pensamento crítico é sistematicamente desestimulado. A pergunta não é incentivada; a dúvida é vista como desobediência.

            Enquanto isso, nos países considerados mais desenvolvidos, Dinamarca, Noruega, Suíça, Finlândia, a educação é um pilar estrutural do Estado. Lá, o investimento médio por aluno é mais do que o dobro do que gastamos aqui. Lá, professores são altamente qualificados, remunerados com dignidade, e o currículo valoriza o pensamento lógico, a ética, a cidadania. O resultado? Índices de alfabetização funcional superiores a 99%, populações com alto nível de compreensão científica, política e histórica, e sociedades onde o debate é parte da rotina, não da exceção.

            Mas o que há por trás dessa discrepância? Não é apenas falta de recursos. É, sobretudo, falta de vontade política. Os poderes constituídos, sejam eles governos, elites econômicas ou conglomerados midiáticos, têm interesse direto em manter o status quo. Um povo informado é um povo difícil de manipular. Um cidadão que pensa é um risco ao controle. Assim, a ignorância não é um acidente; é um projeto. E o mais perverso: ela é construída de forma que aqueles que a carregam nem sequer percebem seu peso.

            Foi Noam Chomsky, linguista, filósofo e um dos maiores intelectuais críticos do século XX, quem lançou essa frase como um bisturi na carne da realidade:

             “A população geral não sabe o que está acontecendo, e eles nem sequer sabem que não sabem.” 

            Chomsky, nascido em 1928 na Filadélfia, revolucionou a linguística com a teoria da gramática gerativa, mas seu legado mais duradouro talvez esteja em sua feroz crítica ao poder. Em obras como Mídia e Propaganda e O que é isso, a liberdade? , ele desmonta com precisão cirúrgica o modo como os sistemas de informação são usados para moldar percepções, ocultar verdades e fabricar consentimento.

            Sua frase, não é apenas uma constatação, é um diagnóstico existencial. Vivemos, no Brasil e em muitas partes do mundo, em um estado de inconsciência programada. Não sabemos, por exemplo, como são formados os preços da gasolina, nem por que o imposto que pagamos ultrapassa os 70% em alguns produtos. Não sabemos como os bancos criam dinheiro, nem como os grandes meios de comunicação são controlados por meia dúzia de famílias. Não sabemos por que a reforma da previdência foi feita com tanta pressa, nem porque tantas universidades públicas são atacadas enquanto se defende o financiamento de escolas confessionais com verba pública.

            Mas o pior não é a ignorância. É a ilusão de conhecimento. O cidadão médio acredita que está informado por que vê o jornal da noite, segue políticos no Instagram, compartilha notícias no WhatsApp. Ele acha que entende o mundo. Ele nem imagina que está mergulhado em um oceano de narrativas fabricadas, de dados truncados, de prioridades invertidas. Ele não sabe que não sabe.

            Outros pensadores ecoam Chomsky em coro silencioso. Boaventura de Sousa Santos fala da “epistemologia do sul”, denunciando como o conhecimento hegemônico apaga outras formas de saber. Michel Foucault nos alerta sobre o poder que se exerce através do controle do discurso. Ivan Illich critica a “sociedade educadora” que, na verdade, domesticou a curiosidade humana. Todos eles, à sua maneira, desvendam o mesmo mecanismo: o poder não precisa nos prender com grades; basta nos encarcerar na ignorância consentida.

            Se traçarmos uma curva logarítmica do conhecimento crítico em relação ao poder de decisão nas sociedades contemporâneas, veremos uma assíntota trágica: quanto mais o sistema se complexifica, mais o cidadão se distancia da capacidade de compreendê-lo. A tecnologia avança exponencialmente, mas a consciência coletiva cresce em progressão aritmética, quando cresce. O resultado? Um abismo entre quem decide e quem sofre as consequências.

            No Brasil, esse abismo é um buraco negro. Ele engole gerações. Ele transforma jovens em estatísticas de violência, idosos em reféns da inflação, trabalhadores em fantasmas da precarização. E enquanto isso, aplaudimos debates eleitorais onde ninguém fala de estrutura, ninguém questiona o modelo, ninguém ousa dizer que o sistema está podre desde a raiz.

            É mordaz, sim, dizer isso. Mas a verdade não precisa pedir licença para ser ácida. O que temos não é falta de educação, é educação para a submissão. O que temos não é falta de informação, é desinformação estrutural. E o que temos, sobretudo, é uma elite que se alimenta da ignorância alheia como vampiro se alimenta de sangue.

            Enquanto o povo discute se o apresentador do reality show vai ou não se casar, os verdadeiros donos do país assinam acordos que definirão nosso futuro por décadas. Enquanto brigamos por migalhas ideológicas nas redes, o bolo todo está sendo dividido nos bastidores, entre eles, os  de sempre.

            E assim seguimos, envoltos nesse silêncio que não grita, mas cala. Um silêncio que não é paz, mas anestesia. Ele habita as salas de aula, os noticiários, os discursos oficiais, e até os sorrisos conformados. É o silêncio que nos ensina a não perguntar, a não duvidar, a não sonhar. Mas talvez, um dia, esse silêncio seja rompido não por gritos, mas por perguntas. E quando a primeira criança perguntar “por quê?”, com olhos que não aceitam respostas prontas, talvez ali comece a revolução

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora

 
 
 

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