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O SILÊNCIO QUE FALA

  • Carlos A. Buckmann
  • 11 de jun.
  • 3 min de leitura

O SILÊNCIO QUE FALA (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Sou um paradoxo ambulante. Fui criado por um Deus que não vejo, mas, cansado de sua ausência, criei outros deuses, à minha imagem e semelhança.

            Assim, a fé que me eleva é a mesma que me aprisiona: pois todo deus feito por mãos humanas traz o cheiro da argila, e toda criatura que se pretende divina esquece que o barro ainda está úmido.

            Acreditar e negar coexistem como a respiração; não se pode inspirar sem expirar. A fé verdadeira não teme a dúvida; ao contrário, alimenta-se dela. Pois negar é também um modo de buscar. Como ensinou Kierkegaard, o salto da fé só se faz sobre o abismo da incerteza. Quem nunca duvidou jamais escolheu crer.

            Volto a falar com Deus. Não o Deus das catedrais, dos tratados, dos dogmas. Mas aquele que só habita no intervalo entre uma palavra e o silêncio.

            E a música de Gilberto Gil, essa filosofia andarilha, me ensina que o encontro exige esvaziamento.

            A MPB sempre foi cátedra de pensamento. De Vinicius a Chico, de Caetano a Gil, a canção brasileira filosofa com a alma. Não com conceitos secos, mas com a carne da vida.

            É a razão encostada no peito. Gil, em especial, mergulha no mistério com a leveza de quem sabe que o sagrado não se explica: se experimenta.

            “Se eu quiser falar com Deus / Tenho que ficar a sós / Tenho que apagar a luz / Tenho que calar a voz”

            Falar com Deus, aprendo, é calar. A sabedoria começa no reconhecimento da ignorância. Mas Gil vai além: apagar a luz é desativar os ídolos interiores. Calar a voz é suspender a vontade de nomear. Só no escuro e no mudo o encontro pode acontecer, ou não. E essa incerteza é a própria prece.

            “Tenho que aceitar a dor / Tenho que comer o pão / Que o diabo amassou”

            A dor não é castigo, é pedagogia. A alegria spinozana é o aumento da potência de agir, mas potência nenhuma se forja sem atrito. Comer o pão do diabo é engolir o absurdo, a injustiça, a fragilidade. É aceitar que o mal não é um erro a ser corrigido, mas um ingrediente da receita cósmica.

            “Tenho que me aventurar / Tenho que subir aos céus / Sem cordas pra segurar”

            A fé não é um edifício, é uma corda bamba sem rede. Pascal tremia diante do infinito, mas Gil dá um passo: sem cordas, sem dogma, sem garantia. Subir aos céus é aceitar a queda como possibilidade. E todo místico sabe que o êxtase e o abismo compartilham a mesma altitude.

            “Dar as costas, caminhar / Decidido, pela estrada / Que, ao findar, vai dar em nada / Nada, nada, nada, nada / Do que eu pensava encontrar”

            O ser é um nada que se revela no caminhar, segundo Heidegger. Gil canta a mesma intuição: a estrada da fé não leva a lugar nenhum dos que planejamos. O “nada” final não é vazio, mas plenitude despida de expectativas.

            É quando Deus, afinal, se mostra como o silêncio que sempre esteve ali, esperando que eu parasse de falar.

            Sou o homem que criou Deus e o Deus que cria o homem. Nesse círculo, a fé e a negação dançam.

            E no centro da dança, descalço, desamarrado, com as mãos vazias e o coração alegre apesar de tudo, descubro que falar com Deus é, afinal, aprender a me ouvir em meio ao nada.

            E nesse nada, enfim, caber o infinito.

(*) Assista o clipe no YouTube:

 
 
 

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