O SANGUE NAS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA
- Carlos A. Buckmann
- 13 de set. de 2025
- 5 min de leitura

O SANGUE NAS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA
Os encontros que testemunho neste balcão são tecidos por fios invisíveis. Aqui, o tempo não flui em linha reta, mas se dobra, se enrosca, se encontra consigo mesmo. O CAFÉ ENTRE FLUXOS é um paradoxo arquitetado para que o acaso se torne destino. A brisa que sopra lá fora, carregando o aroma da chuva que não cai, se mistura ao cheiro amargo e ancestral dos grãos moídos. A luz, filtrada pelas vidraças antigas, dança um balé lento sobre as mesas de madeira escura, fazendo as partículas de poeira parecerem estrelas em uma galáxia de quietude. Ao fundo, o bandolim de Jacob do Bandolim chora uma melodia que parece lamentar o fim de tudo e celebrar o início do infinito. É nesse silêncio melódico que as almas se reconhecem.
Foi sob essa atmosfera que vi o imprevisível se manifestar. Três homens, cada um carregando o peso e a leveza de universos inteiros, entraram como se fossem apenas figuras em um quadro. Um, com a urgência serena do cronista que busca a história na pele do tempo. Outro, com a melancolia imponente do poeta que sabe que a vida é um verso e o amor, uma paisagem. E o terceiro, com o olhar de quem vê o mágico no cotidiano, o irreal no real. Galeano, Neruda, García Márquez. Três rios de sangue que, sem saber por que, encontraram o mesmo estuário nas veias abertas da América Latina.
Eles se viram, não por reconhecimento de face, mas por uma ressonância de alma. Não houve palavras, apenas um aceno mudo que selou um pacto. Caminharam até a mesa mais ao canto, sob a sombra protetora de uma samambaia, onde a luz criava um nicho de intimidade. Servindo três cafés negros, puros, sem açúcar, o que seria uma ofensa para a maioria, mas era a única verdade possível para eles, me aproximei. O silêncio entre eles não era vazio, mas o prenúncio de uma sinfonia.
Galeano, loquaz na fala quanto na escrita, quebrou o feitiço:
"Estamos aqui", disse, a voz como o eco de um segredo bem guardado. "Como se o destino, esse caprichoso artista, tivesse nos pintado na mesma tela. Sinto que este lugar é o avesso do esquecimento."
Neruda sorriu, um gesto de profunda tristeza e imensa alegria.:
"Ou talvez o esquecimento seja a única morada para o que não pôde ser. Meus versos, de Vinte poemas de amor, nasceram da terra molhada pela ausência. Eu buscava, na palavra, o corpo que se esvai. Acreditei que a poesia era uma arma para lutar contra a solidão. E por um tempo, ela foi. Mas o que foi, Gabriel? O que foi o seu mundo, tão vasto e tão pequeno?"
García Márquez, com seu olhar de quem desvendou os mistérios da linha do Equador, respondeu:
"A solidão é o fundamento de tudo, Pablo. Em Macondo, ela é um rio que corre sob as casas, uma maldição que se perpetua de pai para filho. O que fiz foi dar a ela o nome de uma epopeia, a história de uma família condenada a viver sem o amor que a salvação exigia. Os Buendía, em Cem Anos de Solidão, são o reflexo de nossa América, um continente que carrega em seu sangue a memória do que foi, do que se perdeu, e a utopia do que jamais será. A repercussão não foi sobre uma história, mas sobre o espelho que lhes dei."
Galeano, que ouvia com a intensidade de quem catalogava verdades, interveio, a voz agora carregada de uma urgência que vinha do fundo dos séculos:
"E o que é essa utopia, se não a matéria-prima da história? Eu, em As Veias Abertas da América Latina, não inventei nada. Eu apenas juntei os cacos de uma memória estilhaçada. Reconstruí o mapa da dor e da pilhagem para que não nos esqueçamos do que fomos. A mim, negaram o reconhecimento do 'ofício' literário. Eu me vi como o guardião das vozes silenciadas, o arquivista dos vencidos. Eles disseram que meu livro era um panfleto. E talvez o fosse, mas um panfleto que falava mais de vida do que qualquer romance. A verdade, meus caros, não é um conto, é um grito."
Neruda concordou, mas com um adendo que era todo seu:
"O grito também é um poema. Quando escrevi sobre a altura de Machu Picchu, eu não vi apenas pedras. Eu vi o sangue dos construtores, as mãos que ergueram a dignidade de um povo. A poesia não é o ornamento da vida; é o seu alicerce. Ela denuncia a injustiça e constrói a beleza que nos salva do desespero. Meu livro, Canto Geral, foi o meu alicerce. Nele, a pedra e o homem são um só. Não podemos separar a beleza da luta, ou a utopia da realidade."
García Márquez, com a placidez de quem via a vida como um realismo mágico, ofereceu uma síntese:
"A beleza pode ser a única verdade. Quando a realidade é tão dura, é a fantasia que nos permite suportá-la. Não foi à toa que me dediquei ao jornalismo, para saber o que era o fato, e à ficção, para saber o que era a alma. A realidade do jornal, com sua precisão fria, não capta a totalidade da existência. É na ficção, com suas margens vastas, que a vida respira, que os mortos conversam com os vivos e que as borboletas amarelas voam sobre nós."
A conversa seguiu, um fluxo contínuo de pensamento e sentimento. Galeano defendia a história como a única filosofia, Neruda o verso como a mais alta forma de verdade, e García Márquez a ficção como a única maneira de se contar a verdade completa. Discordavam em suas formas, mas concordavam no fundo: a palavra era o único instrumento capaz de dar voz aos que não a tinham, de salvar do esquecimento o que merecia viver, de dar um sentido a um mundo que parecia ter perdido o seu.
Ao final, vi-os se despedir com um silêncio que, desta vez, era de reconhecimento pleno. Saíram do Café, cada um seguindo seu caminho, mas deixando para trás um eco de suas vozes, um aroma de suas ideias. E enquanto guardava os copos, entendi que este lugar não é apenas uma cafeteria, mas um porto onde as narrativas naufragadas encontram abrigo.
Na borda de um guardanapo, sob a luz discreta do Café Entre Fluxos, escrevo com a caneta-tinteiro, preenchida de tinta invisível:
“O fluxo da vida não é feito de grandes eventos, mas das pausas sagradas em que as almas se encontram para tomar um café e se reconhecerem no silêncio entre as palavras.”




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