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O SABER E A SELVA DA MENTE

  • Carlos A. Buckmann
  • 30 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

O SABER E A SELVA DA MENTE

            Observo, com um misto de melancolia e fascinação, a arquitetura das nossas ruínas mentais. Refiro-me, é claro, às ditas "bolhas de desinformação”, estas câmaras de eco virtuais que se tornaram o palco central da sociabilidade contemporânea.

            Para o meu olhar, elas não são meras anomalias tecnológicas, mas sim a manifestação mais recente de uma patologia antiga da alma: a aversão ao contraditório, o refúgio na convenção tribal.

            Como se formam? Não por mero acaso, mas pela confluência da comodidade humana com a precisão algorítmica.

            O espírito anseia por engajamento, não por verdade; ele busca a validação ressonante do seu círculo, e não o atrito salutar do dissenso. O engajamento a estas bolhas é, no fundo, um ato de conforto: é o abraço caloroso do preconceito que confirma a própria identidade. O indivíduo adere ao grupo, não pela convicção racional, mas pelo pertencimento afetivo que oferece uma narrativa simplificada do mundo: nós versus eles, o bem contra o mal, sem as incômodas nuances que diluem a certeza.

            Esta recusa em habitar a complexidade é o húmus onde floresce a desinformação.

            A ignorância, aqui, não é apenas a ausência de dados; é a cegueira voluntária, a “ignorantia” que se recusa a inspecionar as premissas sobre as quais se apoia a própria vida. É a pedra fundamental de toda bolha: a incapacidade ou a preguiça de questionar os próprios dogmas, levando à aceitação de qualquer slogan que simplifique o caos e legitime a própria raiva.

            A mente, desguarnecida do rigor do exame, torna-se um campo aberto para as paixões mais brutas. Ora, esta luta não é nova. Ela foi diagnosticada e denunciada nos primórdios da filosofia.

            Foi Platão, em sua Caverna, quem primeiro ilustrou a ignorância como grilhões, e o conhecimento como a dolorosa, mas necessária, ascensão à luz. Foi Diógenes, com sua lanterna, a buscar o homem (o ser racional) no meio da multidão (o ser irracional).

            Séculos mais tarde, no ápice do Iluminismo, Immanuel Kant clamaria por nossa "saída da menoridade", resumindo todo o projeto da Razão na divisa latina: “Sapere Aude”, Ouse Saber!

            A história é um vasto teatro de conflitos entre a Luz e a Sombra, desde as fogueiras da Inquisição (exemplo da ferocidade mental erigida sobre dogmas não examinados) até as polarizações ideológicas modernas que dividem nações, todas elas regidas pelo mesmo motor: o medo e a aversão ao conhecimento que desmantela as certezas tribais.

            No entanto, o cerne de minha crônica repousa no pensamento de um gigante que se posicionou na transição entre o dogmatismo e a ciência.

            Francis Bacon (1561–1626), Lorde Chanceler da Inglaterra e pensador seminal, é um dos pais do método científico moderno. Em sua obra capital, Da Proficiência e o Avanço do Conhecimento Divino e Humano”, publicada em 1605, ele nos legou uma máxima que ecoa com urgência em nossos tempos digitais. É ele quem nos recorda que:

            “O saber afasta a selvageria, o barbarismo e a ferocidade da mente humana...”

            Bacon, ao postular esta frase, descreve a educação não como mero acúmulo de informações, mas como um processo de domesticação do espírito.

            A selvageria é o impulso primário e irrefletido; o barbarismo é a ausência de regras civilizadas de debate; e a ferocidade é a paixão desmedida que destrói o diálogo. O conhecimento, portanto, é a força que impõe método e moderação à nossa natureza passional.

            Para estourar estas bolhas contemporâneas, não precisamos de novas tecnologias, mas sim do retorno à disciplina baconiana.

            A ferocidade que vemos nas redes sociais é a manifestação moderna dos "Ídolos da Mente" que ele tão bem catalogou. Os “Idola Tribus” (erros inerentes à natureza humana) nos fazem ver o que queremos; os “Idola Specus” (ídolos da caverna, ou preconceitos individuais) são a essência da bolha de validação; os “Idola Fori” (ídolos do mercado, ou os erros gerados pela linguagem imprecisa e retórica vazia) preenchem os feeds de ódio; e os “Idola Theatri “(dogmas de autoridades) nos fazem seguir cegamente líderes ou algoritmos.

            A única crítica e contundente resposta a este barbarismo da mente é a ferramenta que Bacon nos entregou: o rigor do inquérito.

            A bolha é estourada quando a mente se recusa a aceitar o conforto da opinião não examinada e se volta para o fato objetivo, para a evidência empírica, para a indução metódica. O saber afasta a ferocidade porque exige humildade: exige que suspendamos o juízo, que reconheçamos a possibilidade do nosso erro e que aceitemos a primazia da razão sobre a paixão.

            É um chamado perene e vital: a civilidade do espírito não é um presente; é uma conquista diária do intelecto.

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora

 
 
 

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