O RIZOMA DA VIDA: UMA CRÔNICA INSPIRADA EM DELEUZE
- Carlos A. Buckmann
- 20 de mar. de 2025
- 3 min de leitura

O RIZOMA DA VIDA: UMA CRÔNICA INSPIRADA EM DELEUZE
Gilles Deleuze, filósofo francês nascido em 1925, era daqueles que desafiavam o pensamento linear. Com obras que desconstruíram a metafísica tradicional, ele dançava pelas ideias, recusando-se a marchar em linha reta. Autor de clássicos como “Mil Platôs”, em parceria com Félix Guattari, Deleuze trouxe ao mundo um novo jeito de pensar: rizomático, caótico e deliciosamente conectado e multifacetado.
Na vida pessoal e em sociedade, Deleuze nos convida a pensar de forma expansiva, ou adaptando para uma linguagem atualizada, “fora da caixa”. Seus conceitos nos ensinam a abandonar hierarquias rígidas, encontrando conexões inesperadas entre ideias e experiências. A filosofia dele pode ser vista como uma ode à diversidade. Na prática, isso se reflete no modo como lidamos com nossas relações interpessoais e com a forma como construímos comunidades: descentralizadas, adaptáveis e nutridas pela troca.
No mundo corporativo, o conceito de rizoma floresce com um impacto fascinante. Diferente de uma árvore com uma única raiz e tronco, um rizoma se expande em todas as direções, sem hierarquia definida. Empresas que cultivam estruturas flexíveis e colaborativas, como startups tecnológicas, - mesmo que inconscientemente, sem nunca terem lido ou estudado Deleuze, - praticam esse modelo rizomático. Pense na Netflix: começou como um serviço de entrega de DVDs e, ao explorar ramificações, conquistou o streaming. Ou o Google, que constantemente amplia suas conexões, desde motores de busca até carros autônomos.
Se uma pequena empresa quer se desenvolver rizomaticamente, o segredo é explorar múltiplas direções. Cultivar parcerias, adaptar-se rapidamente às mudanças do mercado e nunca temer a experimentação. Seja uma padaria que amplia suas ofertas com cursos de panificação online ou um ateliê que abraça colaborações artísticas, ou uma pequena farmácia de bairro, que promove “Dias da Saúde”, (eventos de medição de glicose ou aferição de pressão arterial gratuitamente para seus clientes), os rizomas estão em todos os cantos, esperando para se espalhar.
Os conceitos de “desterritorialização” e “devir”, pilares no pensamento de Deleuze e Guattari, têm implicações fascinantes quando aplicados ao mundo empresarial. Vamos explorar cada um deles e suas ramificações no ambiente dos negócios.
A ideia de desterritorialização envolve a ruptura com estruturas e territórios pré-estabelecidos. No mundo corporativo, isso se traduz em abandonar modelos tradicionais e explorar novos mercados, tecnologias ou maneiras de pensar. Um exemplo clássico é o mercado de música: a desterritorialização ocorreu quando as gravadoras precisaram abandonar os CDs físicos e migrar para o streaming, como vimos com o crescimento do Spotify. Outro exemplo é o trabalho remoto, que desterritorializou o escritório, transformando a casa ou qualquer lugar com internet em ambiente produtivo.
Pequenas empresas também podem abraçar a desterritorialização ao romperem com seus próprios “territórios” limitados. Um restaurante local pode, por exemplo, criar conteúdo online sobre gastronomia, lançar cursos de culinária ou oferecer kits de refeições pré-preparadas, conquistando mercados além da sua localização física.
O conceito de “devir” (vir a ser) aponta para transformações e processos constantes de mudança, em vez de estados fixos. No contexto corporativo, isso pode ser visto em empresas que estão em evolução contínua. Pense na Amazon, que começou como uma livraria online, mas, ao abraçar o devir, se transformou em um gigante do comércio eletrônico, tecnologia de cloud e até mesmo produção de conteúdo.
Para as pequenas empresas, o devir pode significar adotar uma mentalidade ágil e adaptativa. Um exemplo seria uma loja de roupas que aproveita tendências emergentes rapidamente, colaborando com designers locais ou integrando sustentabilidade ao seu modelo de negócios. O importante é nunca parar de “vir-a-ser”, sempre explorando novas possibilidades.
Quando combinados, esses conceitos desafiam as empresas a saírem de suas zonas de conforto e a abraçarem a mudança como parte fundamental de sua identidade. Elas se tornam mais resilientes e abertas à inovação. Essa abordagem permite que elas naveguem em crises – como vimos durante a pandemia, quando muitas empresas foram obrigadas a se desterritorializar e evoluir rapidamente.
Se Deleuze fosse um cliente em potencial, certamente estaria mais interessado em comprar conexões do que produtos. Ele adoraria um supermercado onde a fruta em promoção sugerisse uma receita que, por acaso, levasse ao site de um pequeno produtor de queijo – e, claro, terminasse com um bom café para refletir sobre tudo isso. E quem sabe, esse café poderia inspirar o surgimento de uma nova ramificação no seu negócio. Afinal, como dizia Deleuze (ou deveria ter dito): “Não tema se perder; é na confusão que encontramos as melhores ideias.”
Estamos na era de pensar e agir rizomaticamente. O tempo da árvore estática já passou.




Comentários