O RITMO DOS OPOSTOS
- Carlos A. Buckmann
- 17 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

O RITMO DOS OPOSTOS
Uma Dança na Corda Bamba
Acordo e o café, em sua amargura necessária, pede o contraponto do açúcar.
Olho pela janela e percebo que a luz só se faz notar porque as sombras ainda resistem nos cantos da sala.
É um despertar para a obviedade do mundo: vivemos imersos em um catálogo de contrastes. O doce e o salgado disputam nosso paladar, assim como o quente do sol nos faz ansiar pelo frio da brisa. Nada parece existir por si só; a verticalidade do alto é uma abstração sem o abismo do baixo, e a rigidez do duro só é compreendida no instante em que as mãos tocam a delicadeza do mole.
Até mesmo na biologia, a dança entre o macho e a fêmea desenha a continuidade da vida através da polaridade.
Essa percepção constante me faz recordar as palavras gravadas no “Caibalion”, o tratado que destila a sabedoria hermética: “Tudo é duplo, tudo tem dois polos, tudo tem o seu oposto”. Esta máxima é atribuída a Hermes Trismegisto, o "Três Vezes Grande", figura lendária que funde o deus egípcio Thoth ao grego Hermes, servindo como o pilar da filosofia oculta que atravessou milênios para nos sussurrar que os opostos são, em natureza, a mesma coisa, variando apenas em graus.
Essa unidade subjacente aos extremos, no entanto, frequentemente se torna um campo de batalha para a interpretação humana.
É fascinante observar como a mesma semente hermética floresce em jardins tão distintos. De um lado, vertentes da religião absorvem a dualidade como a luta eterna entre o bem e o mal, a luz divina contra a treva mundana. De outro, a maçonaria utiliza o pavimento mosaico, o xadrez de pedras brancas e pretas, para ensinar que o iniciado deve caminhar com equilíbrio entre as contradições do mundo, buscando a harmonia onde outros veem apenas conflito.
Mantendo-me como um observador neutro nessa encruzilhada, percebo que essa dualidade não é uma escolha teológica, mas uma lei implacável que governa o cotidiano.
Na vida pessoal, oscilamos entre a euforia e a melancolia; na sociedade, a ordem só existe em tensão constante com a liberdade. Mesmo nos negócios, o sucesso de hoje carrega em si o germe do risco futuro, e a inovação mais disruptiva nasce, muitas vezes, da necessidade de resolver uma carência absoluta.
Essa intuição da polaridade não é exclusividade de Hermes.
Filósofos de diferentes eras, bebendo ou não da mesma fonte, chegaram a conclusões análogas. Heráclito de Éfeso, séculos antes de Cristo, já afirmava que a harmonia do mundo é feita de tensões opostas, como as da lira e do arco.
No Oriente, o conceito de Yin e Yang resume essa mesma percepção de que um polo contém o outro. Até mesmo na física moderna, encontramos ecos dessa ideia na dualidade onda-partícula da luz, onde a matéria se comporta de formas contraditórias dependendo de como é observada.
Recentemente, observei essa dinâmica em uma cena comum nas grandes metrópoles. Um executivo, cercado pela mais alta tecnologia e opulência de seu escritório de vidro, sentia-se profundamente esgotado. Ele buscou refúgio em um retiro de silêncio absoluto, onde o luxo era a ausência de posses e a riqueza era a simplicidade do chão batido. Foi preciso tocar o extremo da privação para que ele pudesse revalorizar a abundância. Ele não mudou de vida; ele apenas calibrou sua posição na régua da dualidade para reencontrar o centro.
Ao fim deste percurso reflexivo, resta-nos uma visão crítica sobre nossa insistência em escolher um lado.
A grande ironia da condição humana é que passamos a vida tentando aniquilar um dos polos, o sofrimento, o frio, a derrota, sem perceber que, ao remover um extremo, desintegramos a própria régua.
A sabedoria não reside em apagar a sombra, mas em compreender que ela é a prova irrefutável da existência da luz.
O paradoxo é a nossa única constante.




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