O RIO, O OLHAR E A CONDIÇÃO DE SER
- Carlos A. Buckmann
- 4 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

O RIO, O OLHAR E A CONDIÇÃO DE SER
Um dia, à beira do Tapajós, rio que serpenteia pela floresta amazônica, encontrei um caboclo de olhar sereno e sabedoria enraizada nas águas.
Ele conhecia cada peixe, suas histórias, seus comportamentos, sem jamais ter consultado um livro ou feito uma anamnese científica. Para ele, o rio era um livro aberto, e eu, um estrangeiro ansioso para aprender seus parágrafos escritos na língua da natureza.
No entanto, um colega, que caminhava comigo naquele passeio pela natureza viva, via tudo muito diferente. Para ele, o caboclo era um ser à margem do conhecimento; ignorante, acerbo, desprovido de cultura, palavras que soavam como um veredicto injusto e superficial. Aliás, ele manifestava essa visão pelas lentes do seu próprio modo de ser: urbano, onde todo saber verdadeiramente válido precisava ser documentado, fechado em manuscritos ou bases de dados.
Lembrei dessa história ao reler uma frase do psicanalista Carl Jung:
“Nosso modo de ser condiciona nosso modo de ver”.
A percepção do meu colega estava inevitavelmente filtrada por sua subjetividade, suas crenças e preconceitos. Esse mesmo processo permeia nossa existência, o que vemos do mundo reflete o que somos.
Como disse Arthur Schopenhauer, "cada um toma os limites de seu próprio campo de visão como os limites do mundo".
E Nietzsche, com sua perspicácia radical, ensinou-nos que não há fatos eternos, apenas interpretações. A realidade não é um dado bruto, mas uma construção mediada pela nossa condição interna.
Esse entendimento reverbera para além do encontro com o caboclo, alcançando a esfera pessoal, social e empresarial.
Na vida pessoal, reconhecer que o outro vê diferente porque é diferente permite o exercício da empatia, da escuta verdadeira.
Na sociedade, o desafio é construir pontes entre modos diversos de ser, para que o pluralismo contemple todas as formas de conhecimento e existência.
E nos negócios, onde resultados são a métrica soberana, ignorar essas diferenças de percepção pode colocar projetos à deriva, pois decisões fundadas num único modo de ver limitam a inovação e a compreensão real do mercado, que é feito de gente heterogênea.
Pense na Kodak. Seu modo de ser estava intrinsecamente ligado à película, ao químico, ao físico. Quando a revolução digital emergiu, eles a viram (modo de ver) como uma ameaça marginal, um brinquedo. Seu modo de ser tradicionalista e autocentrado impediu-os de ver a digitalização como o futuro inevitável, o que culminou no colapso de um império.
Pense no empreendedor que não percebe nuances culturais e acaba falhando ao lançar um produto numa comunidade local; ou no gestor que desconsidera os talentos e visões de colaboradores distintos e perde a chance de transformar negócios. A ignorância do próprio filtro perceptivo é o maior risco para quem pretende navegar as complexidades atuais.
Quantos “caboclos” do conhecimento somos capazes de reconhecer na roda da vida?
Quantas vezes fechamos os olhos para saberes que não coincidem com nosso modo de ser?
A obstinação de uma única visão não apenas empobrece nossos diálogos, mas adia o avanço, pessoal e coletivo.
Que possamos, então, desconstruir as lentes estreitas e abrir espaço para a multiplicidade de olhares, porque só assim o mundo se revela em toda a sua profundidade.
Ou então, estamos, todos nós, condenados a ver o mundo não como ele é, mas como nós somos.
É justamente nessa condenação que reside a nossa maior liberdade: a de, a cada instante, decidir quem seremos para ver o que jamais vimos.
A verdadeira revolução começa quando ousamos questionar o observador, em vez do observado.
Beto Buckmann
Crônicas entre ideias e pólvora




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