O RECÔNCAVO DA ALMA
- Carlos A. Buckmann
- 12 de jun.
- 3 min de leitura

O RECÔNCAVO DA ALMA (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Caetano Veloso nasceu em Santo Amaro da Purificação, Bahia, em 1942. Filho de Dona Canô, aprendeu cedo que o mundo não se divide em certo e errado, mas em intensidades.
Tropicalista, exilado, poeta de ouvido absoluto, ele fez da canção um território sem fronteiras, onde o samba encontra o rock, a bossa encontra a psicodelia, e o sagrado encontra o profano sem pedir licença.
“Reconvexo” é uma de suas letras mais densas. À primeira escuta, parece um turbilhão de referências soltas: Saara, Roma, Iara, Olodum, Andy Warhol, Dona Canô. Mas não há nada gratuito. Caetano filosofa com a montagem. Ele nos diz que o sujeito contemporâneo não é uno, mas múltiplo; um mosaico de afetos, geografias e tempos. Ser é ser com.
A filosofia na MPB nunca foi decorativa. De Noel Rosa a Chico Buarque, de Cartola a Gil, a canção brasileira pensa com a mesma seriedade que o ensaio, porém com a leveza que só a melodia permite.
Caetano, em especial, herdou de Oswald de Andrade a antropofagia: digerir o estranho para fortalecer o próprio. E em “Reconvexo”, ele nos oferece um cardápio do mundo.
“Eu sou a chuva que lança a areia do Saara / Sobre os automóveis de Roma”
O eu lírico se apresenta como fenômeno geológico e histórico. O Saara (África ancestral) invade Roma (símbolo do Ocidente). É a desertificação do império, a vingança suave do deserto sobre o asfalto. Deleuze e Guattari falariam em desterritorialização: nenhuma identidade é fixa, tudo flui. A chuva que carrega areia é a própria história errante, imprevisível, nômade.
“Eu sou a sereia que dança / A destemida Iara / Água e folha da Amazônia”
Iara, a mãe-d’água indígena, não é a sereia grega que seduz para matar. Ela dança destemida. Caetano reivindica a natureza brasileira como potência viva, não como cartão-postal. Lévi-Strauss, em Tristes Trópicos, viu a Amazônia como um pensamento selvagem que resiste à razão ocidental. O pensamento é corpo: água e folha que se movem.
“Eu sou um preto norte-americano forte / Com um brinco de ouro na orelha”
Identidade diaspórica. Ser preto norte-americano forte é assumir a luta civilizatória contra o racismo estrutural. Mas o brinco de ouro na orelha, detalhe estético, afetivo, quase frívolo, humaniza a força. É a necessidade de o negro se reinventar além do olhar colonizador, com resistência e elegância.
“Sou o cheiro dos livros desesperados”
Que livros são esses? Kafka, Dostoiévski, Clarice? Talvez todos os que nascem da angústia de não caber no mundo. Sartre diria que o desespero é a condição da liberdade. O cheiro dos livros desesperados não é de mofo; é de tinta fresca, de páginas ainda abertas. É a cultura como ferida que não cicatriza, e por isso mesmo respira.
“Quem não rezou a novena de Dona Canô / Quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor / Quem não amou a elegância sutil de Bobô”
Caetano lista seus santos leigos. Dona Canô é a mãe, a fé católica-popular. Joãozinho Beija-Flor, mendigo místico de Santo Amaro. Bobô, jogador de futebol, figura de uma elegância discreta que só o recôncavo baiano conhece.
É uma liturgia do cotidiano. Wittgenstein afirmou que o mistério não está no sobrenatural, mas no simples fato de o mundo existir. Caetano concorda: a graça está nos detalhes que os caretas não enxergam.
“Quem não é recôncavo e nem pode ser reconvexo”
Recôncavo: a região baiana que abraça a baía de Todos os Santos. Reconvexo: palavra inventada, o que se curva novamente, o que retorna ao útero geográfico, o que se dobra sobre si para se expandir. Ser reconvexo é aceitar que toda identidade é um movimento de vai-e-vem. O “eterno retorno como amor fati”. Caetano canta: volte a se curvar diante do chão que te fez, e só assim você será maior que ele.
O menino de Santo Amaro atravessou o Saara e chegou a Roma sem sair do lugar.
Ele me ensina que falar de si é sempre falar do outro. Pois eu sou a areia e o automóvel, a sereia e o asfalto, o livro desesperado e a novena rezada às pressas.
Nessa curva chamada reconvexo, descubro que a única maneira de não ser careta é aceitar que não tenho escolha, senão a de ser muitos.
E, sendo muitos, ser enfim um.
(*) Assista o clipe no YouTube:




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