O QUE É MEU E O QUE NÃO É
- Carlos A. Buckmann
- 13 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

O QUE É MEU E O QUE NÃO É
Há algo profundamente humano, e profundamente doloroso, na ilusão de controle.
Passamos boa parte da vida tentando segurar o vento: queremos que os outros nos amem como desejamos, que o futuro se curve aos nossos planos, que o corpo não envelheça, que a justiça prevaleça sempre, que a dor tenha um prazo de validade.
Mas a verdade, nua e crua, é esta: há coisas que estão sob nosso domínio, e há coisas que não estão. E a maior fonte de sofrimento não é a ausência de controle, mas a recusa em reconhecer seus limites.
Foi Epicteto, o escravo que se tornou um dos mais lúcidos mestres do estoicismo, quem nos legou essa bússola existencial com uma clareza quase incômoda: “Há coisas que dependem de nós e coisas que não dependem de nós.” Tudo o que é externo, o corpo alheio, a opinião dos outros, a fortuna, a morte, o passado, escapa ao nosso poder. Mas o que é interno, nossos julgamentos, nossos desejos, nossas escolhas, nossa atitude diante dos fatos, é inteiramente nosso. E é aí, somente aí, que reside a liberdade. Não na mudança do mundo, mas na transformação do olhar que o habita.
Essa dicotomia, tão antiga, ressoa com força surpreendente na psicologia contemporânea.
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), uma das abordagens mais eficazes no tratamento da ansiedade e da depressão, repousa sobre o mesmo princípio: não são os eventos que nos perturbam, mas a interpretação que fazemos deles.
Albert Ellis, fundador da Terapia Racional-Emotiva, dizia que sofremos não por causa do que acontece, mas por causa do que acreditamos sobre o que acontece.
Já Viktor Frankl, em meio ao horror dos campos de concentração, descobriu que, mesmo quando tudo é tirado de um homem, resta-lhe “a última das liberdades humanas: escolher a própria atitude”. É a mesma lição de Epicteto, escrita com as cinzas da história.
A filosofia moderna, por sua vez, não abandonou essa fronteira entre o interno e o externo.
Hannah Arendt, ao refletir sobre a condição humana, distingue o “labor” (o que é imposto pela necessidade), o “trabalho” (o que produzimos) e a “ação” (o que escolhemos em liberdade). É na esfera da ação, isto é, no domínio das decisões éticas e existenciais, que somos verdadeiramente agentes.
Foucault, em seus estudos sobre as práticas de si, mostra que a liberdade não é ausência de limites, mas capacidade de governar a si mesmo dentro deles.
E até mesmo Nietzsche, tão crítico do estoicismo, concordaria com Epicteto neste ponto: o grande homem não é aquele que muda o mundo, mas aquele que “transvalora” sua própria dor.
É nesse encontro entre antiga sabedoria e sensibilidade clínica que a psicofilosofia encontra seu lugar.
Ela não ensina a dominar o mundo, ensina a discernir o que é nosso e o que não é. Usa a dicotomia de Epicteto não como fórmula, mas como “exercício diário”: diante de uma frustração, pergunta-se: “Isso depende de mim?” Se sim, age com coragem. Se não, aceita com serenidade, não por resignação, mas por sabedoria.
A psicofilosofia transforma essa distinção em prática viva: em rodas de diálogo, em diários de reflexão, em momentos de silêncio antes de reagir. Ela nos ajuda a gastar energia onde ela frutifica, na ética, na atenção, na escolha, e a poupar o coração do desgaste inútil de querer controlar o incontrolável.
Na sociedade marcada pela ansiedade generalizada, pelo culto à produtividade e pela ilusão de que tudo pode ser otimizado, a psicofilosofia oferece um antídoto radical: a aceitação. Não como passividade, mas como lucidez. Porque só quando paramos de lutar contra o que não podemos mudar é que encontramos força para transformar o que está em nossas mãos e, muitas vezes, o que está em nossas mãos é mais do que imaginamos: nossa atenção, nossa compaixão, nossa postura diante do caos.
Hoje, diante de qualquer turbulência, um atraso, uma ofensa, uma perda, faça a pergunta de Epicteto.
Pergunte: Isso depende de mim? Se a resposta for não, respire. Deixe ir. Não como derrota, mas como libertação. E se a resposta for sim, então aja, não com fúria, mas com virtude.
Porque a verdadeira liberdade não está em mover montanhas, mas em saber, com clareza serena, quais montanhas são suas para mover.
E, acima de tudo, em entender que a paz começa não quando o mundo se cala, mas quando paramos de exigir que ele nos obedeça.




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