O QUE FAZ PULSAR O TEMPO
- Carlos A. Buckmann
- 6 de ago. de 2025
- 3 min de leitura

O QUE FAZ PULSAR O TEMPO
Sentado à janela do meu apartamento, enquanto o crepúsculo apaga seus últimos fios dourados sobre os telhados da cidade, permito-me um raro momento de intimidade comigo mesmo, não com o eu que fala, mas com o eu que escuta. É nesse silêncio, quase sagrado, que me pergunto: por que continuo a respirar? Por que insisto em acordar, em caminhar, em escrever, em amar, em sofrer? A vida, em sua manifestação mais crua, é um dado biológico, o coração bate, os pulmões se enchem, os dias se sucedem. Mas o que dá sentido a esse bater, a esse encher, a esse suceder?
Então surge, como um raio em noite de verão, a frase de Fiódor Dostoiévski: “O segredo da existência humana reside não só em viver, mas também em saber para que se vive.” Uma sentença aparentemente simples, mas de profundidade abissal. Dostoiévski, o escritor russo do século XIX, não foi apenas um mestre da literatura, mas um filósofo da alma. Torturado pela epilepsia, pelo exílio siberiano, pela fé e pela dúvida, ele mergulhou nos abismos do espírito humano. Em obras como “Crime e Castigo”, “O Idiota”, “O Jogador” e “Os Irmãos Karamázov”, não narra apenas histórias, desenha mapas do sofrimento, da redenção, da loucura e da graça. Sua frase não é um aforismo decorativo; é um grito existencial, um chamado à consciência.
Ao meditar sobre ela, percebo que Dostoiévski não inventou nada, apenas nomeou o que já lateja desde os primórdios do pensamento humano. Platão, em sua alegoria da caverna, já falava de homens acorrentados, vendo sombras, incapazes de enxergar a luz da verdade. Para ele, viver sem saber para que viver é permanecer nas correntes. Aristóteles, ao falar da eudaimonia, da felicidade como realização do propósito, já afirmava que o homem só é pleno quando age conforme sua telos, seu fim último. E nos estoicos, como Sêneca e Marco Aurélio, encontramos a mesma exigência: viver com intenção, com direção moral, com lucidez sobre o que é essencial.
Essa filosofia, portanto, não é privilégio dos eruditos ou dos místicos. É um imperativo ético que deve habitar cada escolha, cada gesto, cada respiração. Individualmente, saber para que se vive é o que distingue a existência da mera sobrevivência. É o que transforma o trabalho em vocação, o amor em entrega, a dor em experiência significativa. Socialmente, é o que sustenta comunidades, culturas, civilizações. Quando um povo perde o sentido, entra em decadência, não por falta de recursos, mas por falta de razão para usá-los.
E por que não levar essa reflexão ao mundo dos negócios, esse reino aparentemente frio, calculista, governado apenas pela eficiência e pelo lucro? Porque, mesmo ali, a alma humana insiste em existir. Lembro-me de uma pequena farmácia no bairro de Santa Teresa, administrada por dona Marta, uma senhora de olhos vivos e voz serena. Sua farmácia não é a maior, nem a mais moderna. Mas é a única que ainda tem um caderno de anotações onde registra, à mão, as alergias dos clientes, os horários em que tomam remédios, as datas de aniversário dos idosos da vizinhança. Quando lhe perguntei o segredo do seu sucesso, respondeu: “Eu não vendo remédios. Eu cuido de gente. E isso me dá sentido.”
Eis aí o diferencial: uma farmácia que sabe para que existe. Enquanto outras se perdem em metas de produtividade, em algoritmos de vendas, em estratégias de mercado, dona Marta mantém viva a chama do propósito. Seu negócio não é uma máquina, é um organismo vivo, alimentado por empatia, responsabilidade e consciência. E por isso prospera, não apenas em números, mas em dignidade. (Automatizei todos os recursos da loja de Dona Marta).
Mas, ai de nós, quantos vivem, e morrem, sem jamais terem feito essa pergunta fundamental! Vivem como autômatos, movidos por impulsos, convenções, pressões sociais. Trabalham por dinheiro, amam por conveniência, consomem por vazio. São prisioneiros da vida sem porquê e, nesse cárcere, a existência se torna um simulacro. O mundo corporativo está cheio deles: executivos que sobem na hierarquia, mas descem na humanidade; empresas que crescem em faturamento mas encolhem em ética; marcas que vendem tudo, menos significado.
É nesse cenário que a frase de Dostoiévski se torna um ato de resistência. Recusar-se a viver sem saber para que é um gesto revolucionário. É dizer não ao automatismo, ao consumismo, ao cinismo. É exigir da vida mais do que mera duração, exigir profundidade, intenção, verdade.
Por isso, enquanto o crepúsculo se apaga e as luzes da cidade acendem, decido: não quero apenas viver. Quero saber para que vivo. E, nesse saber, talvez encontre, enfim, o segredo que Dostoiévski intuiu, os filósofos buscaram e os sábios guardaram em silêncio: que a vida só é digna de ser vivida quando é vivida com propósito, e que, sem ele, tudo é pó, vento, e tempo desperdiçado.
Beto Buckmann
Crônicas entre ideias e pólvora.




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