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O QUE FALOU E O QUE OUVIU – UM ABISMO ENTRE OS DOIS

  • Carlos A. Buckmann
  • 18 de mai. de 2025
  • 3 min de leitura

O QUE FALOU E O QUE OUVIU – UM ABISMO ENTRE OS DOIS.

            Jacques Lacan, psicanalista francês nascido em 1901, figura incontornável da psicanálise pós-freudiana, costumava navegar com desenvoltura por mares revoltos de linguagem, desejo e inconsciente. Com formação médica e filosófica, ele renovou profundamente o pensamento psicanalítico ao introduzir a linguagem como elemento estruturante do inconsciente. Em seu Seminário III – As Psicoses (1955-56), Lacan formula uma máxima que carrega o peso de um continente inteiro de mal-entendidos: “Você pode saber o que disse, mas nunca o que o outro escutou.”

            Essa frase — quase um axioma do drama humano — ecoa em mim como um alerta existencial. Refleti sobre ela muitas vezes, especialmente após discussões que começaram por uma simples frase mal interpretada e terminaram com olhares cortantes e silêncios eternos. Dizer é um ato. Ouvir é outro universo.

            Ao lançar luz sobre a fenda entre a emissão e a recepção da fala, Lacan nos obriga a encarar a linguagem não como ponte, mas como abismo. É na palavra que o sujeito se forma, mas também se perde. Falar é sempre insuficiente. Digo “te amo”, e o outro escuta “ele quer me controlar”. Digo “precisamos conversar”, e o outro escuta o sino da catedral anunciando o fim.

            Na filosofia lacaniana, o “Outro” (com O maiúsculo) não é apenas a pessoa à minha frente, mas o lugar simbólico da linguagem, da cultura, das regras que nos atravessam. O que escutamos vem tanto da boca alheia quanto do nosso repertório inconsciente, moldado por experiências, traumas e fantasias. O Outro é, portanto, espelho e filtro, presença e distorção.

            É crucial entender essa fenda entre o dito e o escutado para viver com um mínimo de lucidez. Na vida pessoal, casamentos desabam porque um “tudo bem” pode significar “estou implodindo por dentro”. Pais e filhos se estranham porque um “vá estudar” pode ressoar como “não te aceito como você é”.

            No mundo do trabalho, esse ruído se torna ainda mais dissonante. Quantas vezes um gestor comunica “precisamos de mais eficiência”, e os funcionários escutam “vocês são incompetentes”? Ou então um cliente pede “um atendimento mais ágil” e o atendente entende “seja grosseiro e apresse-se”? A gestão de pessoas, sobretudo em ambientes empresariais, exige sensibilidade linguística. Não basta falar. É preciso interpretar o que se faz escutar. A escuta ativa, o feedback, a comunicação não-violenta — todos esses termos modernos são tentativas de construir pontes sobre o abismo que Lacan apontou.

            Lembro-me de uma vez em que, numa reunião, elogiei um colaborador com a frase: “Você tem se mostrado bastante ousado nas decisões.” Dias depois, soube que ele interpretou aquilo como um aviso velado de que estava ultrapassando os limites hierárquicos. O resultado? Recusou-se a propor novas ideias por semanas. A culpa foi minha? Em parte. Talvez se eu tivesse dito “ousado no bom sentido, criativo e propositivo”, o ruído não teria virado tempestade.

            O que nos resta, então? Cautela. Escuta. A consciência de que o que dizemos carrega sempre o risco da tradução infiel. Que o outro não é um gravador passivo, mas um sujeito com filtros próprios. Devemos, portanto, dobrar a atenção e desdobrar as palavras. Perguntar: “Ficou claro?” ou “Como você entendeu o que eu disse?” pode ser mais eficaz do que mil discursos.

            No fim das contas, comunicar-se bem talvez seja menos sobre falar com precisão e mais sobre ouvir com empatia. No mundo em que vivemos — abarrotado de ruídos, pressa e notificações — essa é uma arte em vias de extinção.

            E se tudo isso ainda parecer complicado, lembre-se: se até Lacan sabia que o outro pode entender tudo ao contrário, quem somos nós para esperar compreensão plena? Como diz meu tio, que nunca leu Lacan, mas é sábio: “Fale pouco, ouça muito — e torça pra não dar ruim.”

            Porque no fim das contas, minha amiga disse que me entendeu perfeitamente... e nunca mais me ligou.

 

 
 
 

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