O QUE A VIDA ENSINA AO QUE VIVE
- Carlos A. Buckmann
- 16 de jul. de 2025
- 5 min de leitura

O QUE A VIDA ENSINA AO QUE VIVEDa série Crônicas entre ideias e pólvora
A mente de João Guimarães Rosa, médico, diplomata e escritor mineiro, foi um universo à parte. Nascido em Cordisburgo em 1908, Rosa é um dos pilares da literatura brasileira, conhecido por sua prosa inovadora, que flerta com o regionalismo, o existencialismo e o misticismo. Sua obra mais célebre, Grande Sertão: Veredas, é um labirinto de palavras e significados, onde a linguagem se dobra e se reinventa para expressar a complexidade da alma humana e a vastidão do sertão. Foi nesse contexto de profunda reflexão sobre a existência e o aprendizado que, entre as páginas de sua vasta obra ou em suas anotações pessoais, ele nos legou a pérola:
“O homem nasceu para aprender, apreender tanto quanto a vida lhe permita.”
que foi escrita em uma de suas muitas cartas e entrevistas reflexivas, provavelmente no contexto das conversas sobre o sentido da existência, que ele entrelaçava com imagens do sertão e da alma humana. Não era apenas o sertanejo que buscava entender: era o homem inteiro, seu mistério e sua sede.
Essa frase sempre me provocou. Nascer para aprender, eis aí um propósito que escapa das placas de inauguração, dos discursos de formatura e dos manuais de gestão. Ela me acompanha como uma espécie de bússola moral, um lembrete de que não importa a idade, o cargo, o saldo bancário ou o grau de instrução: se o sujeito ainda respira, tem lição pela frente.
Como cronista, e talvez como mero observador da inesgotável trama da existência, sou compelido a mergulhar na profundidade dessa afirmação. “O homem nasceu para aprender, apreender tanto quanto a vida lhe permita.” Há uma melodia sutil, quase um sussurro cósmico, nessa ideia. Não se trata apenas de adquirir informações, mas de apreender, de assimilar com a alma, de tornar o conhecimento parte intrínseca do nosso ser. É a compreensão que se faz carne, que molda a percepção e redefine o caminhar.
No palco da vida pessoal, essa premissa desdobra-se em infinitas camadas. Desde o primeiro balbucio, somos aprendizes. Apreendemos o calor do afeto materno, a dor da primeira queda, a euforia de uma descoberta trivial. Cada relacionamento, cada perda, cada alegria e cada desilusão são mestres implacáveis, esculpindo nossa resiliência, nossa empatia, nossa própria identidade. Quantas vezes não nos vimos diante de um novo desafio, uma nova habilidade a ser dominada, um novo idioma a ser aprendido, e percebemos a vastidão do que ainda nos aguarda?
A vida não nos oferece pausas nesse processo; a cada amanhecer, uma nova lição se apresenta, disfarçada de trivialidade ou de grande reviravolta.
E as barreiras, ah, as barreiras! Elas se erguem como montanhas, disfarçadas de medo, de preguiça, de aversão ao desconhecido. Mas é na superação dessas montanhas que a apreensão se torna mais profunda, a visão mais clara. Lembro-me de um amigo que, aos cinquenta anos, decidiu aprender a tocar violino. A princípio, a rigidez dos dedos, a desafinação constante eram obstáculos hercúleos. Mas a paixão pela música o impulsionou. Hoje, seus sons, ainda que imperfeitos, contam a história de um espírito que se recusou a aceitar limites impostos pela idade ou pela inexperiência.
No âmbito profissional, a máxima de Rosa ganha contornos ainda mais prementes, especialmente na dinâmica frenética da gestão de empresas. Aqui, aprender e apreender não são meros caprichos, mas imperativos de sobrevivência e prosperidade. É preciso aprender a aprender. O mercado é um organismo em constante mutação, e a estagnação é o primeiro passo para a irrelevância. Gestores que se recusam a aprender sobre novas tecnologias, a apreender as nuances de novos modelos de negócios ou a compreender as mudanças no comportamento do consumidor, estão fadados a ver suas empresas murcharem.
Pensemos na revolução digital. Empresas que, há uma ou duas décadas, se aferravam aos métodos tradicionais de marketing e vendas, foram engolidas por aquelas que abraçaram a internet, as redes sociais, o e-commerce. A Netflix, por exemplo, surgiu da apreensão de que o modelo de locação física de vídeos era insustentável a longo prazo. Ela não apenas aprendeu com as novas tecnologias de streaming, mas apreendeu a necessidade de uma cultura organizacional que priorizasse a inovação contínua e a personalização da experiência do usuário. A barreira ali era o apego ao legado, a dificuldade de desapegar-se de um modelo que já havia sido bem-sucedido. A superação veio com a coragem de reinventar-se, de apostar no futuro, de aprender com os próprios erros e com os acertos dos concorrentes. Outro exemplo claro é a indústria automobilística. Por décadas, a hegemonia dos motores a combustão foi inquestionável. No entanto, empresas como a BYD apreenderam a urgência da sustentabilidade e a viabilidade dos veículos elétricos, superando a inércia e o ceticismo do mercado tradicional.
A ideia de um aprendizado contínuo não é exclusividade de Guimarães Rosa. Ela ecoa em diversas filosofias e pensamentos ao longo da história. Sócrate, já nos instigava a reconhecer a vastidão da ignorância como o ponto de partida para qualquer busca verdadeira de conhecimento. Ele não apenas aprendia, mas apreendia a humildade intelectual, essencial para a filosofia. Jean Piaget, no campo da psicologia, com sua teoria do desenvolvimento cognitivo, demonstrou como a criança constrói seu conhecimento por meio da interação com o ambiente, em um processo contínuo de assimilação e acomodação. Não se trata de uma mera absorção passiva, mas de uma ativa apreensão do mundo.
Mais recentemente, no cenário do desenvolvimento pessoal e profissional, o conceito de "Lifelong learning" – aprendizado ao longo da vida – se tornou um mantra. Autores como Carol Dweck, com sua teoria do mindset de crescimento, argumentam que a crença na capacidade de desenvolver habilidades e inteligência é fundamental para superar desafios e buscar novos aprendizados. Para Dweck, a mentalidade de crescimento é a chave para que o indivíduo não apenas aprenda, mas apreenda a resiliência e a capacidade de se adaptar. É a coragem de estar sempre na vereda do desconhecido, sem medo de tropeçar.
Chegamos ao ponto em que a sabedoria parece nos dar um tapa amigável no rosto. O homem nasceu para aprender, apreender... E, ao final da jornada, talvez perceba que a maior lição de todas é que o certificado de "mestre em tudo" é um mito e a “festa de formatura é muito fúnebre”. A vida, como um professor com um senso de humor peculiar, sempre guarda uma prova surpresa, um tópico inesperado no currículo. E quando pensamos que finalmente entendemos o manual de instruções, a vida, sorrindo de canto de boca, simplesmente o reescreve. Então, seguimos, desvendando mistérios, tropeçando em verdades e, de vez em quando, rindo de nossa própria capacidade de ser eternos calouros no grande curso da existência.




Comentários