O PRINCÍPIO DA INCERTEZA
- Carlos A. Buckmann
- 11 de set. de 2025
- 4 min de leitura

O PRINCÍPIO DA INCERTEZA.
Não sei quem falou ou escreveu essa frase primeiro: “O CONHECIMENTO É UM INVESTIMENTO COM LUCROS INESGOTÁVEIS”, mas, com certeza ela é verdadeira desde os primórdios da humanidade e continua cada vez mais importante, ainda mais nesse nosso tempo, onde a ignorância e a idiotice se alastram como um vírus pandêmico.
Um fato que me chamou a atenção, foi ver uma pessoa usando um óculo de realidade virtual, esses que mostram figuras tridimensionais, para fazer divulgação do seu trabalho de marcenaria e comentar que esse era um avanço da física quântica. Talvez ele tivesse razão, pois pouco sei de física e de mecânica, mas com certeza ele também não, pois quando perguntei como funcionava essa “física”, não sabia nada a esse respeito. Usou a frase porque achou bonita ou porque lhe haviam vendido essa ideia. Até hoje ele fala coisas que não entende, mas acha bonito.
Desde aquele encontro, que já vai lá uns bons cinco anos, sempre que me sobra um tempinho, vou pesquisar sobre o assunto. Mas não se preocupem, não vou fazer um tratado sobre física quântica. Fiz essa introdução apenas porque lembrei de um de seus principais estudiosos, que foi Werner Heisenberg, lá em meados da década de 1920, ou seja, cem anos atrás, que baseava seus estudos no “Princípio da Incerteza”.
Formulado por Werner Heisenberg em 1927, é um dos conceitos mais fundamentais e intrigantes da mecânica quântica. Em poucas palavras, ele estabelece um limite fundamental para a precisão com que podemos conhecer certas propriedades de uma partícula subatômica ao mesmo tempo. De forma mais específica, o princípio afirma que é impossível conhecer com precisão absoluta, simultaneamente, dois pares de propriedades de uma partícula.
Heisenberg nos ensinou: quanto mais precisamente tentamos medir a posição de um elétron, menos sabemos sobre sua velocidade, e vice-versa. Não por falha de instrumento, mas por lei cósmica. A natureza impõe limites ao conhecimento. Mas, e aqui está o cerne da tragédia humana, nós, os humanos do século XXI, não estamos diante de limites impostos pela física, e sim diante de limites autoimpostos pela preguiça mental, pela arrogância da ignorância, pela idolatria da opinião rasa.
Vivemos numa era em que a incerteza quântica foi substituída pela certeza estúpida. Enquanto Heisenberg demonstrava que o universo é intrinsecamente ambíguo, nossos contemporâneos proclamam verdades absolutas com a convicção de quem nunca leu um livro, nunca duvidou de si mesmo, nunca hesitou antes de julgar. A incerteza, que deveria ser o berço da humildade intelectual, tornou-se o esconderijo da burrice organizada.
Na mecânica quântica, a incerteza não é fracasso, é condição de existência. Na vida cotidiana, porém, a incerteza virou desculpa para não pensar. “Não sei, mas tenho certeza”, eis o novo mantra. Redes sociais viraram aceleradores de partículas da estupidez, onde opiniões colidem sem nunca gerar conhecimento, apenas calor e ruído. E o pior: acham que estão medindo o mundo com precisão, quando mal conseguem localizar a própria ignorância.
Lembro-me de Sócrates, que dizia saber apenas que nada sabia, e por isso era o mais sábio. Hoje, o mais sábio é o que mais grita, o que mais repete, o que mais compartilha sem ler. O conhecimento, que deveria ser nosso maior investimento, como bem disse Carl Sagan, “somos feitos de matéria estelar tentando se entender”, foi substituído pela especulação de likes, pela inflação de egos, pela moeda depreciada da certeza barata.
Heisenberg nos alerta: há limites físicos ao que podemos saber. Mas não há limites éticos ou morais à nossa obrigação de tentar saber mais. A incerteza quântica não nos autoriza à preguiça epistemológica. Pelo contrário: ela nos convoca à vigilância, ao cuidado, à modéstia diante do real. Se não podemos saber tudo ao mesmo tempo, que ao menos saibamos o essencial, e que o busquemos com rigor, com método, com paixão.
O risco? É simples e terrível: uma humanidade que confunde opinião com verdade, que despreza a ciência porque ela exige esforço, que abandona a filosofia porque ela exige silêncio, que ridiculariza a arte porque ela exige sensibilidade. Uma humanidade que acredita que o mundo cabe num tweet, que a verdade cabe num meme, que a complexidade cabe num slogan.
E então, quando o colapso vier, climático, social, ético, não será por causa de um princípio da física, mas por causa de um princípio da estupidez: o de que basta acreditar para que algo seja verdade. Mas a realidade, como Heisenberg bem sabia, não se curva à nossa vontade. Ela se curva às leis, e às consequências.
Investir em conhecimento não é luxo. É sobrevivência. É lucro inesgotável, sim, porque o saber não se gasta ao ser compartilhado; multiplica-se. Enquanto isso, a ignorância se reproduz como vírus: silenciosa, rápida, letal. E seus hospedeiros? Somos nós, que clicamos sem pensar, que repetimos sem questionar, que calamos quando deveríamos gritar.
Parabéns, humanidade. Enquanto Heisenberg provava que não podemos medir tudo ao mesmo tempo, vocês conseguiram algo ainda mais impressionante: medir nada, e mesmo assim terem certeza do que estão dizendo. Eis o verdadeiro milagre moderno: a criação da certeza a partir do vácuo da ignorância. Que o universo tenha piedade de nós, porque, claramente, nós não temos piedade de nós mesmos.
E se um dia alguém perguntar por que o mundo ruiu, digam-lhes: não foi por falta de dados, mas por excesso de certezas. Não por incerteza quântica, mas por certeza quântica de idiotas.
Beto Buckmann
“Crônicas entre ideias e pólvora”




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