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O POÇO SEM FUNDO DA RIQUEZA.

  • Carlos A. Buckmann
  • 30 de jun. de 2025
  • 2 min de leitura

O POÇO SEM FUNDO DA RIQUEZA.

            A usura não é apenas uma prática econômica; é uma enfermidade da alma. A ganância, esse apetite desmedido que devora o homem por dentro, opera como uma névoa espessa que turva os olhos e cega o espírito. Vejo, cada vez mais, o quanto os homens se assemelham a náufragos em alto-mar, que ao avistarem água por todos os lados, bebem o sal pensando matar a sede, e quanto mais bebem, mais sede sentem, até que sucumbem à própria ilusão de abundância.

            Foi Arthur Schopenhauer quem formulou essa imagem com a precisão de um bisturi filosófico: “A riqueza é como a água do mar: quanto mais se bebe, mais sede se tem.” Schopenhauer, o velho misantropo de Frankfurt, tinha o olhar azedo de quem esperava pouco da humanidade e, ainda assim, se dedicava ao esforço de iluminá-la. Seu estilo cortante, quase niilista, recusava as esperanças fáceis. Em sua obra “Aforismos para a Sabedoria de Vida”, ele não escreve para consolar, mas para alertar, como quem toca um sino em meio ao incêndio de vaidades e desejos desordenados.

            Não foi o único, claro. Sêneca, no estoicismo romano, já nos advertia: “É pobre não o que tem pouco, mas o que deseja mais.” Epicuro, mais suave em sua busca pela ataraxia, também ensinava que o prazer verdadeiro está na ausência da dor e da perturbação, não na ostentação de moedas ou mansões. Platão via na riqueza desmedida um obstáculo à alma justa; Aristóteles, embora reconhecesse certa utilidade do dinheiro, via a aquisição como subalterna à virtude.

            Mas o tempo passou, e o ouro mudou de forma, de moedas pesadas para códigos digitais em cofres invisíveis. Os megamilionários da era moderna, Bezos, Musk, Zuckerberg e outros senhores das novas rotas comerciais, são navegadores de um oceano virtual, mas o desejo que os move é antigo. Constroem foguetes para escapar da Terra, mas não constroem pontes sobre os abismos sociais que ajudaram a alargar. Suas fundações filantrópicas, embora barulhentas, mais se parecem com pequenos panos molhados em incêndios provocados por seus próprios algoritmos de lucro.

            É irônico, para não dizer trágico: quanto mais acumulam, mais insaciáveis se tornam. Riqueza, neste século, tornou-se um vício elegante, com direito a conselhos de investimento e gurus financeiros que prometem “liberdade” ao preço da servidão ao consumo.

            E nós, os observadores, ou cúmplices, dessa corrida insana, esquecemos que há um tipo de riqueza que não se guarda em cofres: a sabedoria, o tempo, o silêncio, a serenidade, a contemplação de um céu limpo sem pensar em vendê-lo por satélites.

            Schopenhauer talvez resmungasse em seu tom habitual que a humanidade é irremediavelmente estúpida. Eu, mais esperançoso, ou talvez apenas cansado, diria que a estupidez é opcional, mas muito bem financiada.

            No fundo, talvez sejamos todos, vítimas de uma sede mal interpretada. Sede de sentido, de pertencimento, de beleza, mas confundida com sede de posses, como se o espírito humano se saciasse com cifras.

            No final das contas, a água do mar continua lá, reluzente e ilusória, e há quem ainda beba dela com sofreguidão, jurando estar se salvando.

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora

 

 
 
 

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