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O PONTEIO E O DESVIO

  • Carlos A. Buckmann
  • 24 de mai.
  • 4 min de leitura

O PONTEIO E O DESVIO (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Edu Lobo, naquele 1967, subiu ao palco do III Festival da Record junto com Marília Medalha e cantaram “Ponteio”. Ganhou. Mas o prêmio veio com escolta: a censura do regime militar já rondava os bastidores.

            Para driblar os censores, os compositores aprenderam a falar por metáforas. A viola não era apenas a viola. O ponteio não era apenas o dedilhar. Era um gesto de sobrevivência. A MPB, nesse período, tornou-se uma filosofia do disfarce: dizer sem dizer, cantar sem gritar, existir apesar do sufoco.

            “Era um, era dois, era cem / Era o mundo chegando e ninguém / Que soubesse que eu sou violeiro / Que me desse o amor ou dinheiro”

            O mundo chegava, a ditadura, os porões, as delações, mas ninguém reconhecia o violeiro como alguém que merecesse afeto ou sustento. Sartre falaria do intelectual sitiado. O violeiro era um homem sem lugar, porque o lugar do cantor, naquele tempo, era o exílio ou o silêncio. Amor? Dinheiro? A censura havia sequestrado os dois.

            “Parado no meio do mundo / Senti chegar meu momento / Olhei pro mundo e nem via / Nem sombra, nem Sol / Nem vento”

            O momento da criação, para o artista censurado, é um instante de suspensão. Heidegger descreveria como um “clareira” do ser. Mas aqui a clareira é vazia: sem sombra (sem medo?), sem Sol (sem liberdade?), sem vento (sem movimento?). O poeta paralisado sente que o tempo urge, mas o mundo ao redor é uma paisagem apagada. É o que o regime faz: apaga os elementos da natureza para que só reste a ordem militar.

            “Violência, viola / Violeiro / Era morte redor / Mundo inteiro”

            A violência não era metáfora. Era o pau de arara, os assassinatos, os desaparecidos. A viola, nesse contexto, era o único escudo.

            Foucault, mais uma vez em “Vigiar e Punir”, ao analisar o poder disciplinar, mostrou que a violência do Estado não é exceção, mas regra. O violeiro via a morte ao redor e ainda assim tocava. Porque parar seria confirmar a vitória do carrasco.

            “Jogaram a viola no mundo / Mas fui lá no fundo buscar / Se eu tomo a viola / Ponteio! / Meu canto não posso parar”

            Filosofia da resistência. A viola foi jogada, queimada, censurada, confiscada. Mas o violeiro desce ao fundo, como Orfeu no Hades. Busca o instrumento entre as ruínas. E quando o toma, ponteia.

O que é pontear? É fazer a música acontecer, é criar um desvio no caminho da repressão. Gilles Deleuze falaria da “linha de fuga”. O violeiro não enfrenta o regime de frente; ele foge pela arte, e nessa fuga ele inventa um mundo novo. Meu canto não posso parar, porque parar é morrer.

            “Correndo no meio do mundo / Não deixo a viola de lado / Vou ver o tempo mudado / E um novo lugar pra cantar”

            A corrida é a vida do artista perseguido. Não há descanso. Mas há a esperança de que o tempo mude. Theodor Adorno, tão pessimista quanto à indústria cultural, admitiu que a arte pode guardar um promessa de felicidade. “Um novo lugar pra cantar” é a utopia de um Brasil sem censura, sem exílio, sem medo. Edu, ao cantar isso, sabia que o lugar ainda não existia. Por isso ele o prometia.

            “Quem me dera agora / Eu tivesse a viola / Pra cantar”

            A repetição desse verso é o desejo frustrado. “Quem me dera” é o subjuntivo da saudade. A viola está ali, ele a tem? Ou ela foi tirada? A ambiguidade é a marca do tempo: o artista tem a viola, mas não pode tocar publicamente o que quer. Bergson, com sua teoria da duração, diria que o artista vive um tempo estilhaçado: o tempo do relógio do regime e o tempo interno do canto, que insiste em fluir.

            “Encerrar meu cantar / Já convém / Prometendo um novo ponteio”

            O fim da canção é um pacto. O violeiro se cala, porque a censura exige o silêncio, mas promete voltar. “Um novo ponteio” é a resistência que se adia para não ser aniquilada. Gramsci, no cárcere, escreveu que o pessimismo da inteligência deve se aliar ao otimismo da vontade. Edu Lobo, ao prometer o novo ponteio, exercita essa vontade. Não canta hoje o que quer, mas afirma que cantará amanhã.

            Edu Lobo enfrentou os censores não com barricadas, mas com viola. Driblou a interdição pela poesia. Pagou o preço do silêncio forçado, sim, mas deixou na música uma cifra: quem soubesse ler nas entrelinhas, entendia.

            “Ponteio” é um tratado de sobrevivência. O violeiro que corre no meio do mundo, que desce ao fundo buscar o instrumento, que promete um novo canto, esse violeiro é todos nós que, ainda hoje, tentamos dizer o indizível.

            “Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar”.

            Mas eu tenho. Você tem. Está aqui, nestas linhas.

            E enquanto houver um ponteio, por mais baixo que seja, a censura não terá vencido.


 

 

 
 
 

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