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O POETA DO ASFALTO

  • Carlos A. Buckmann
  • 17 de mai.
  • 3 min de leitura

O POETA DO ASFALTO (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Adoniran Barbosa não escrevia canções. Ele colhia dramas. Colhia-os nas esquinas da São João, nos bares da Bela Vista, nos olhos de quem perdia o bonde ou o amor.

            Era o cronista do cotidiano, um filósofo de tamancos que entendia a cidade como palco de pequenas tragédias, aquelas que não viram manchete, mas que abrem crateras na alma de quem as vive.

            Ao ouvir "Iracema", percebo que sua canção é uma aula sobre a fragilidade do existir. E resolvi, com a devida licença poética, desfiar sua filosofia.

            "Iracema, eu nunca mais eu te vi / Iracema, meu grande amor foi embora"

            O nunca mais é o corte mais seco da língua. Ali não há retorno, nem esperança. O poeta chora não só a amada, mas a irrecuperabilidade do tempo.

             Bergson diria que a duração real não se repete; e é por isso que cada ausência é definitiva. A cidade, enquanto isso, segue seu fluxo indiferente. Os carros passam. Os sinais abrem e fecham. Mas para o eu lírico, o relógio parou naquele instante em que ela se foi.

            "Cuidado ao travessar essas ruas / Eu falava, mas você não me escutava, não"

            Antecipação do infortúnio. O sábio, e todo amante é um sábio quando prevê o perigo, avisa. Mas a pressa, a distração, a teimosia do destino falam mais alto.

            Sêneca já advertia: não é que não sabemos o que nos faz mal; é que agimos como se a fatalidade fosse com o vizinho.

            Iracema atravessou a contramão. Quantas Iracemas atravessam, agora mesmo, a contramão em todas as cidades do mundo? A filosofia da repetição nos diz: o mesmo drama, com rostos diferentes, se encena toda noite.

            "E hoje ela vive lá no céu / bem juntinho de nosso senhor"

            A transcendência como consolo. A teologia popular transforma a morte súbita em morada celeste. Mas não há aqui triunfo religioso; há, isto sim, a tentativa desesperada de dar sentido ao absurdo.

            Kierkegaard entenderia: a fé é um salto no escuro. O pobre noivo não tem outro lugar para colocar Iracema senão ao lado de Deus. A cidade não lhe oferece mausoléu, oferece-lhe, no máximo, uma cruz de madeira no acostamento.

            "De lembranças guardo somente suas meias / e seus sapatos"

            Os objetos. Restos materiais de um amor que se fez corpo e agora é só ausência. As meias, os sapatos, nada mais íntimo, nada mais caminhável.

            Walter Benjamin via nos objetos descartados a alegoria do tempo perdido. Aqui, as meias de Iracema são relíquias sem liturgia. O retrato se perdeu (outra fatalidade). Sobrou o que pisou o chão. O que tocou o asfalto que a matou.

            Cruel poesia.

            "Fartavam 20 dias pra o nosso casamento"

            O calendário interrompido. Vinte dias. O tempo não apenas é roubado, é roubado na véspera.

            Agostinho falava do presente que não nos pertence; mas que dizer do futuro que nos foi prometido e esmagado por um para-choque?

             A cidade é mestre em cerimônias canceladas. Quantas alianças compradas, quantas listas de convidados, quantos bolos encomendados para o dia seguinte ao atropelamento?

            A filosofia chama isso de contingência. A vida chama de "deu a hora".

            "O chofer não teve curpa, Iracema / Paciência"

            O fundo do poço filosófico. Ninguém tem culpa. O acaso reina. O motorista é apenas um elo na corrente cega dos acontecimentos.

            Camus, ao escrever O Estrangeiro, já mostrara como o sol, o cansaço, um segundo de distração podem decidir uma morte.

            A paciência pedida é a estoica: aceitar o que não se pode mudar. Mas que paciência é essa que cabe dentro de vinte dias perdidos? Chama-se resiliência do pobre, que não pode parar o mundo para chorar porque amanhã o patrão desconta a falta.

            A cidade continua. Os carros passam na São João. Moças apressadas atravessam a contramão. Namorados dão avisos que não serão ouvidos.

            A eterna repetição dos fatos, e Adoniran, o poeta do cotidiano, já sabia disso antes de qualquer manual de sociologia. Ele apenas juntou as sílabas certas, colocou um samba triste por cima, e nos entregou o retrato de todos os nossos amores que se perderam na travessia.

            Não há filosofia mais alta do que a que nasce do drama do homem comum. Pois enquanto os sábios escrevem tratados sobre a morte, Adoniran apenas diz: "Iracema, eu nunca mais eu te vi".

            Nessa simplicidade, ele revela o abismo.

            Que possamos, ao menos, guardar as meias e os sapatos.

            E, quem sabe, aprender a olhar para os dois lados antes de atravessar, não só a rua, mas a vida.

(*) Veja o clip no YouTube

 
 
 

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