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O POEMA QUE ANDAVA

  • Carlos A. Buckmann
  • 26 de mai.
  • 4 min de leitura

O POEMA QUE ANDAVA (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Houve um encontro, que o destino escreveu com tinta de bossa nova. Tom Jobim, o pianista das nuvens, e Vinicius de Moraes, o poeta que transformava o cotidiano em oração.

            Em 1962, num bar em Ipanema, viram passar uma moça, Heloísa Pinheiro, dezoito anos, caminhando para o mar. E nasceu “Garota de Ipanema”.

            A canção atravessou o Atlântico, ganhou o mundo, foi regravada mil vezes. Frank Sinatra, em 1967, cantou com Tom: “The girl from Ipanema”. Mas o que o mundo aplaudiu não foi apenas uma melodia; foi uma filosofia da beleza que caminha descalça sobre a areia.

            “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça / É ela, menina, que vem e que passa”

            O “olha” é um convite fenomenológico. Merleau-Ponty diria que o olhar não é passivo: ele instaura o mundo. A menina que vem e que passa é o ser que se mostra e se retira. Ela não para; ela é movimento puro. E nesse movimento, ela carrega uma graça que não pode ser explicada, apenas contemplada.

            “Num doce balanço a caminho do mar / Moça do corpo dourado, do Sol de Ipanema”   

            O balanço é o ritmo da própria existência. O mar, ali, é o horizonte, não como destino, mas como promessa. O corpo dourado não é apenas cor de pele; é a luz que o sol empresta.

            Platão, no “Banquete”, fala da escala do amor: começa-se pela beleza de um corpo, depois de todos os corpos, depois da beleza das almas, até a beleza em si. A garota é o primeiro degrau. Mas que degrau!

            Hoje, talvez, não fosse politicamente correto (Que chatice).

            “O seu balançado é mais que um poema / É a coisa mais linda que eu já vi passar”

            “Mais que um poema”: o poema é artifício, o balançado é vida.

            O poeta, Vinicius, que passava os dias escrevendo versos, se curva diante de algo que a escrita não alcança. A filosofia de Wittgenstein ecoa: sobre o que não se pode falar, deve-se calar. Mas Tom e Vinicius não calam, cantam. E ao cantar, mostram o limite da linguagem e ao mesmo tempo a transcendem.

            “Ah, por que estou tão sozinho? / Ah, por que tudo é tão triste?”

            Agora a virada. A beleza que passa provoca no observador a consciência da falta. Sartre, em “O Ser e o Nada”, descreve o desejo como uma falta que constitui o sujeito. O eu-lírico está sozinho porque a garota não o vê. A tristeza não vem da feiura do mundo, mas da beleza alheia que não lhe pertence. É a angústia do espectador.

            Uma amiga minha, politicamente correta, diria: “Dois tarados” – Outros tempos, menina, outros tempos, onde a paquera não era pecado.

            “Ah, a beleza que existe / A beleza que não é só minha”

            Heidegger falaria do ser-aí como abertura para o mundo. Aqui, a beleza existe independentemente do ego. Não é minha, e isso dói, mas também salva. Porque se fosse só minha, seria prisão. O fato de ser de todos, ou de ninguém, a torna maior que qualquer posse.

            Espinosa, ao definir a alegria como o aumento da potência de agir, diria que contemplar a beleza alheia pode aumentar nossa potência, se não formos tomados pela inveja. O poeta, em vez de inveja, canta.

            “Que também passa sozinha”

            A beleza é solitária. Ela não pede licença, não explica seu trajeto. A garota passa sozinha porque sua beleza não carece de testemunha.

            Kant, na “Crítica da Faculdade do Juízo”, define o belo como aquilo que agrada sem conceito e sem interesse. A garota não dança para ninguém; seu balanço é gratuito. E é justamente essa gratuidade que a torna sublime.

            “Ah, se ela soubesse que quando ela passa / O mundo inteirinho se enche de graça / E fica mais lindo por causa do amor”

            O grande paradoxo: ela não sabe.

            A inconsciência da musa é o que a mantém musa. Se soubesse, talvez perdesse a graça.

            O amor aqui não é o sentimento romântico vulgar; é o que os gregos chamavam de eros, a força que move o mundo. Platão, no “Fedro”, diz que o amor é uma loucura divina, uma reminiscência da beleza perfeita. A garota, ao passar, faz o mundo inteiro lembrar dessa beleza. E por isso ele se enche de graça.

            Tom e Vinicius, no bar da rua Montenegro, viram passar uma garota. E sem saber, fizeram mais do que uma canção: fizeram uma prece à beleza que não pode ser possuída.

            O sucesso internacional veio, mas ele não explica o mistério. O mistério é que, até hoje, quando ouço “Olha que coisa mais linda”, eu olho.

            Eu vejo a menina que vem e que passa. E por um instante, o mundo inteirinho se enche de graça.

            A solidão continua, a tristeza também.

            Mas o balanço, ah, o balanço, é mais que um poema.

            É a filosofia andando de sandálias, a caminho do mar.

(*) Veja o clip no YouTube

 
 
 

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