top of page

O PESO INVISÍVEL

  • Carlos A. Buckmann
  • 6 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

O PESO INVISÍVEL

            Há um fardo que não se mede em quilos nem se vê nos ombros, mas pesa como ferro fundido na alma: o rancor. Carregar mágoas, ressentimentos e ódios é como andar com pedras nos bolsos em um rio fundo,  afunda o espírito, afoga a lucidez e, muitas vezes, interrompe o fluxo da vida. Já percebi que algumas pessoas não vivem: apenas ruminam ofensas, ensaiam vinganças, cultivam mágoas como se fossem flores negras num jardim sombrio. E o fazem com uma fidelidade quase religiosa, como se perdoar fosse trair a própria dor.

            Eu mesmo, em outros tempos, carreguei as chaves da minha prisão no bolso do coração. Tinha certeza de que alguns desafetos eram imperdoáveis, e, pior, sentia uma estranha satisfação em manter aquele tribunal íntimo sempre em sessão, como se o ato de condenar os outros silenciosamente me absolvesse de minhas próprias fragilidades.

            Mas certo dia, como um trovão no silêncio, li uma frase que desmontou meu cárcere:

“Quando eu saí em direção ao portão que me levaria à liberdade, eu sabia que, se eu não deixasse minha amargura e meu ódio para trás, eu ainda estaria na prisão.”

 

            Disse isso Nelson Mandela, um homem que, diferente de nós que muitas vezes nos prendemos por um olhar atravessado ou uma palavra ríspida, passou 27 anos de sua vida atrás das grades por desafiar o regime racista do apartheid na África do Sul.

            E saiu… livre. Livre de verdade. Não apenas da cela, mas dos grilhões internos. Não pediu vingança. Não exigiu reparações pessoais. Ofereceu algo raríssimo: reconciliação. Construiu a paz com a mesma intensidade com que outros constroem trincheiras. Assumiu a presidência do país que antes o oprimia e, em vez de virar a mesa, sentou-se à mesa com seus antigos algozes.           

            Que força é essa que, ao invés de destruir, decide reconstruir?

            A biografia de Mandela não é apenas uma crônica de resistência política, mas uma epopeia da alma humana. Filho de chefes tribais, formado em Direito, ativista incansável contra a segregação, ele se tornou símbolo universal de dignidade e superação. E talvez mais do que tudo, de sabedoria emocional.

            E ele não está só nesse panteão dos que entenderam que o perdão é um ato revolucionário. Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz, escreveu em “Em Busca de Sentido” que “entre o estímulo e a resposta, existe um espaço. E nesse espaço está o nosso poder de escolher a resposta”. Ele escolheu não odiar. E nos ensinou que, mesmo no inferno, é possível manter acesa uma centelha de humanidade.

            Martin Luther King Jr., também nos advertiu: “O ódio confunde a vida; o amor a harmoniza. O ódio obscurece a vida; o amor a ilumina.”Mahatma Gandhi, outro gigante da não-violência, já dizia que "olho por olho, e o mundo acabará cego".

            Esses homens, que tinham todos os motivos do mundo para odiar, fizeram o contrário. Por isso entraram para a História, não por terem vencido inimigos, mas por terem vencido a si mesmos.

            E nós? Como aplicar essa filosofia no cotidiano?

            No convívio familiar, significa soltar a mágoa do que foi dito num almoço de domingo há dez anos.

            Na sociedade, implica não responder ofensa com mais ofensa, especialmente em tempos digitais, onde a grosseria viraliza em segundos.            Nos negócios, é parar de alimentar intrigas corporativas e aprender que concorrência não é guerra, é jogo, e jogo bonito se faz com ética, não com rasteiras.

            Perdoar não é esquecer. É lembrar sem doer. É limpar a sala interna onde moram nossas memórias e jogar fora os móveis quebrados. E, acredite, viver com menos tralha emocional dá uma leveza danada.

            Aliás, falando em leveza, certa vez tentei explicar tudo isso para um amigo teimoso, que vive carregando ofensas do passado como se fossem medalhas de guerra. Ele me olhou desconfiado, cruzou os braços e retrucou:

— Mas se eu perdoar, e ele não pedir desculpas?

Respondi com um sorriso maroto:

— Aí você faz como o Mandela... dá liberdade a si mesmo e deixa o outro preso na própria ignorância. No mínimo, você dorme melhor!

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora

 

 
 
 

Comentários


CONTATO

Porto Alegre, RS 

​​

Tel: (51) 9 9259-6364

Skype: betobuckmann​

betobuckmann@yahoo.com.br

Nós recebemos a sua mensagem, aguarde contato.

  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

© 2023 por Hugin. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page