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O PARAÍSO NÃO É UM LUGAR

  • Carlos A. Buckmann
  • 17 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

O PARAÍSO NÃO É UM LUGAR

            Sonhamos com o paraíso desde que aprendemos a nomear o cansaço.

            Um lugar onde tudo funciona: onde o trabalho é vocação pura, os colegas são irmãos, os chefes, mestres sábios; onde não há erros, nem conflitos, nem segundas-feiras.

            Um mundo sem falhas, sem fricções, sem finais tristes. Mas, como disse Groucho Marx com sua ironia genial: “O paraíso é um lugar onde nada nunca dá errado... e ninguém mora lá.”

            E é justamente aí que reside a tragédia moderna: não na ausência do paraíso, mas na insistência em acreditar que ele deveria existir, e que, se não existe, é porque falhamos.

            Essa ilusão nos leva a encarar a realidade cotidiana, com suas imperfeições, contradições, burocracias e desencontros, como uma espécie de exílio. O trabalho, que poderia ser espaço de criação e pertencimento, torna-se campo de frustração constante. A vida, que é feita de ciclos, rupturas e recomeços, é julgada como “insuficiente” porque não se assemelha à imagem idealizada que carregamos na mente.

            O resultado? Um desencanto profundo. Não apenas com o emprego, mas com a própria existência.

            Quando a realidade não corresponde à fantasia de perfeição, não questionamos a fantasia, questionamos a vida. E, pior: questionamos a nós mesmos. “Por que não consigo ser feliz no meu trabalho?” “Por que tudo é tão difícil?” “Será que estou no lugar errado?” Essas perguntas, por si sós legítimas, tornam-se venenosas quando alimentadas pela crença de que deveria haver um lugar onde nada dá errado.

            Daí nascem os distúrbios contemporâneos: a ansiedade generalizada, que vive na antecipação de falhas futuras; a depressão existencial, que se instala quando o sentido parece ausente; o esgotamento profissional, ou “burnout”, descrito pela Organização Mundial da Saúde como síndrome resultante de estresse crônico no trabalho, marcado por exaustão, cinismo e redução da eficácia.

            Psicólogos como Viktor Frankl já alertavam: “o sofrimento não é o maior inimigo do ser humano, o vazio é”. E quando se espera um paraíso que não existe, o que resta é o vazio disfarçado de fracasso.

            A psicologia contemporânea, em suas abordagens mais humanas, busca resgatar o real.

            A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), por exemplo, ensina que a dor é parte inevitável da vida, e que a saúde mental não está em eliminá-la, mas em viver com ela, orientado por valores.

            Já a psiquiatria, em vozes como a de Irvin Yalom, reconhece que muitos transtornos nascem da recusa em aceitar os “dados brutos da existência”: a morte, a liberdade, o isolamento e, sim, a imperfeição.

            Carl Rogers, por sua vez, insistia que a cura começa quando aceitamos a nós mesmos como somos, não como deveríamos ser.

            A filosofia, por sua vez, desmonta a ideia de paraíso com lucidez implacável.

            Nietzsche via na busca por mundos perfeitos uma fuga da vida terrena, e chamava isso de “niilismo invertido”.

            Hannah Arendt mostrou que a política (e, por extensão, a vida em comum) só é possível justamente porque somos imperfeitos, diversos, falíveis.

            E Byung-Chul Han, em sua análise da sociedade do desempenho, denuncia que a exigência de perfeição, em nós, no trabalho, nas relações, é uma das principais fontes de sofrimento psíquico contemporâneo. O paraíso, nessa lógica, não é um ideal, é uma armadilha.

            É nesse ponto que a psicofilosofia entra como prática libertadora. Ela não promete um mundo sem erros, ensina a dançar com eles. Usa a ironia de Groucho Marx não como cinismo, mas como sabedoria: se ninguém mora no paraíso, então a vida acontece aqui, no meio da bagunça, do conflito, da imperfeição.

            A psicofilosofia propõe uma ética da finitude: reconhecer que errar é humano, que o trabalho é também lugar de limites, que a beleza está na resistência, não na ausência de atrito. Em rodas de diálogo, em diários reflexivos, em encontros comunitários, ela ajuda as pessoas a reencantar o real, não como era imaginado, mas como é.

            Em nossa sociedade que vende ilusões de perfeição em cada tela, a psicofilosofia é um antídoto necessário. Ela nos devolve à terra, não como castigo, mas como lar. Porque só quando desistimos do paraíso é que começamos a construir algo verdadeiro: relações reais, trabalhos significativos, vidas autênticas.

            Abandone o paraíso.

            Não por desespero, mas por coragem.

            Aceite que o mundo é imperfeito e que é justamente nessa imperfeição que reside a possibilidade do encontro, da criação, do amor. 

            Ninguém mora no paraíso. Mas todos podemos habitar a vida, com seus tropeços, seus risos tortos, seus dias comuns que, vistos com olhos livres da ilusão, revelam-se extraordinários. 

            Afinal, o paraíso não é um lugar onde nada dá errado. 

            É um lugar onde aprendemos que o erro também pode ser caminho.

 
 
 

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