O PARADOXO DAS CIDADES
- Carlos A. Buckmann
- 24 de abr. de 2025
- 4 min de leitura

O PARADOXO DAS CIDADES
"Desde o início, as cidades têm sido lugares em que estranhos convivem em estreita proximidade, embora permaneçam estranhos." Assim nos legou Zygmunt Bauman (1925-2017), sociólogo e filósofo polonês, cujas reflexões perspicazes sobre a modernidade líquida e suas intrincadas teias sociais ecoam com uma ressonância inquietante em nossos tempos. Sua vasta obra, permeada por uma análise arguta das transformações culturais e das relações humanas na contemporaneidade, nos convida a um exame profundo das contradições que moldam nossa existência urbana.
Debruço-me sobre essa assertiva “baumaniana” e, confesso, um paradoxo me assalta a mente. Se, por um lado, a urbe se configura como um mosaico de individualidades justapostas, onde o anonimato tece uma capa protetora sobre o transeunte, por outro, é precisamente nessa densidade humana que germinam laços, ainda que efêmeros, e se manifesta uma interdependência inegável. Caminho pelas ruas de Porto Alegre, outrora um palco de efervescência e agora impregnada de uma melancolia palpável, e observo o ballet cotidiano: o padeiro que sorri ao entregar o pão matinal, o motorista de aplicativo que compartilha um breve comentário sobre o trânsito, o vizinho que oferece um chimarrão em sinal de solidariedade. Seriam estes meros autômatos em sua estranheza, ou vislumbro neles lampejos de uma humanidade compartilhada?
Ao refletir sobre a frase de Bauman, permito-me questionar: será mesmo que os estranhos das cidades permanecem estranhos? Caminho pelas ruas de Porto Alegre, minha cidade, e observo o paradoxo que Bauman tão bem descreveu. Aqui, os rostos se cruzam, os corpos se esbarram, mas os olhares raramente se encontram. A cidade, com sua pulsação frenética, parece desumanizar seus habitantes, transformando-os em peças de uma engrenagem que nunca para.
No dia a dia, esse contrassenso se manifesta de forma quase cruel. No transporte público, dividimos o espaço físico, mas não o emocional. No trabalho, colaboramos com colegas sem nunca conhecer suas histórias. Nas redes sociais, conectamo-nos com milhares, mas sentimos a solidão de quem não tem ninguém para ouvir. A cidade, com sua promessa de proximidade, entrega distância.
É inegável que a metrópole, em sua vastidão e complexidade, pode engendrar um processo de desumanização sutil, porém insidioso. A pressa frenética, a competição acirrada, a avalanche de informações e estímulos sensoriais podem nos ensurdecer para o sofrimento alheio e nos encerrar em bolhas de isolamento virtual ou físico. O estranho ao nosso lado, esmagado no transporte público ou apressado na calçada, torna-se uma figura indistinta no mar de rostos, um mero obstáculo em nossa trajetória individual. A empatia, essa virtude essencial para a coesão social, parece esmaecer sob o peso da indiferença urbana.
Contudo, essa mesma proximidade forçada, esse caldeirão de diversidade, paradoxalmente, pode ser um catalisador para a inovação, a criatividade e a solidariedade. É no encontro com o diferente, no confronto de ideias e perspectivas, que a sociedade se reinventa e progride. As redes de apoio mútuo que florescem em bairros, as iniciativas comunitárias que visam mitigar as desigualdades, os movimentos sociais que clamam por justiça demonstram que, mesmo em meio à vastidão impessoal da cidade, a capacidade humana de se conectar e de se importar com o outro persiste. A tragédia recente que assolou nosso estado escancarou essa dualidade: a indiferença de alguns contrastou fortemente com a onda avassaladora de solidariedade que uniu estranhos em prol de um bem comum.
Bauman, em sua análise lúcida, não se limitava a diagnosticar o mal-estar da vida líquida. Ele apontava para a necessidade urgente de reconstruir os laços sociais, de cultivar a empatia e a responsabilidade mútua. A "solução", se é que podemos usar um termo tão definitivo, reside na criação de espaços de encontro genuíno, na valorização do diálogo e da escuta atenta, na construção de comunidades que transcendam a mera coexistência física. É no reconhecimento da vulnerabilidade compartilhada e na celebração da nossa humanidade comum que podemos atenuar a estranheza e transformar a proximidade em verdadeira conexão.
Bauman, em sua sabedoria, sugere que a solução reside na construção de uma ética da responsabilidade e do cuidado. Ele nos convida a olhar para o outro não como um estranho, mas como um ser humano digno de atenção e respeito. Essa ética, embora difícil de alcançar, é o antídoto para a liquidez que ameaça dissolver nossas conexões.
Assim, enquanto percorro as ruas que foram outrora alagadas e ainda feridas da minha cidade, reflito sobre a pertinência das palavras de Bauman. A metrópole é, de fato, um palco de estranhos em proximidade. Mas a história que se desenrola a cada instante é a da nossa luta constante para transcender essa estranheza, para construir pontes de entendimento e solidariedade em meio ao fluxo incessante da vida urbana. A desumanização não é um destino inexorável, mas sim um desafio constante que nos convida a reafirmar, a cada encontro, a nossa intrínseca humanidade.
Às vezes, no aperto do ônibus, sinto uma vontade quase irresistível de gritar um "Bom dia!" efusivo para testar a reação da massa amorfa ao meu redor. Quem sabe, no susto, a estranheza se esvaísse por um instante, dando lugar a um sorriso amarelo ou a um olhar de puro pavor. Mas, por via das dúvidas, sigo o conselho implícito do nosso sociólogo polonês e, mantendo uma distância respeitosa (e segura). Ao descer do ônibus, aceno discretamente para o padeiro amigo. Afinal, mesmo entre estranhos, um pão quentinho e um "bom dia" sincero ainda valem ouro. E evitam reações inesperadas no transporte público.




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