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O PARADOXO DA RIQUEZA DAS NAÇÕES.

  • Carlos A. Buckmann
  • 28 de abr. de 2025
  • 4 min de leitura

            O PARADOXO DA RIQUEZA DAS NAÇÕES.

            Debruçar-me sobre a “Magnum opus” de Adam Smith, "Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações", é sempre um exercício intelectual fascinante. Permitam-me, então, compartilhar algumas reflexões sobre essa obra seminal que permanece viva através dos séculos.

            Adam Smith, nascido em Kirkcaldy, na Escócia, em 1723, foi um “luminary” do Iluminismo, um filósofo moral antes de se consagrar como o pai da economia política. Sua obra de 1776 não surgiu do vácuo; foi fruto de anos de observação da nascente sociedade comercial e industrial. A teoria central que Smith desenvolveu reside na ideia de que a riqueza de uma nação não emana de reservas de ouro ou prata acumuladas pelo Estado, como pregava o mercantilismo, mas sim da capacidade produtiva de seu povo, impulsionada pela divisão do trabalho e pela busca individual do auto interesse em um mercado livre.

            Essa proposição revolucionária foi a pedra fundamental sobre a qual se ergueu o edifício do capitalismo moderno. Ao argumentar que indivíduos, buscando seus próprios ganhos, eram guiados por uma "mão invisível" para promover o bem-estar coletivo, Smith libertou as forças do mercado das amarras do controle estatal excessivo. A livre concorrência, a especialização e a acumulação de capital tornaram-se os motores do crescimento econômico.

            A assertiva de que "o que vai gerar a riqueza das nações é o fato de cada indivíduo procurar o seu desenvolvimento e crescimento econômico pessoal" encontra eco em inúmeras instâncias. Consideremos um artesão que aprimora suas habilidades na fabricação de sapatos para aumentar seus lucros. Ao fazê-lo, ele não apenas beneficia a si mesmo, mas também oferece à sociedade sapatos de melhor qualidade ou a preços mais acessíveis, contribuindo para a riqueza geral. Da mesma forma, um agricultor que busca aumentar a produtividade de sua terra, visando maiores rendimentos, acaba por fornecer mais alimentos para a comunidade.

            Essa dinâmica não se restringe às grandes corporações; permeia também o universo das pequenas empresas. Tomemos como exemplo uma pequena farmácia de bairro. O proprietário, ao buscar o sucesso de seu negócio, esforça-se para oferecer um atendimento de qualidade, manter um estoque variado de medicamentos e, possivelmente, oferecer serviços diferenciados. Essa busca pelo lucro individual o leva a investir em seu estabelecimento, gerar empregos locais e atender às necessidades de saúde da comunidade, contribuindo, em última análise, para a vitalidade econômica da região.

            Contudo, o pensamento de Smith não era isento de paradoxos. Sua famosa frase, "A riqueza de uma nação se mede pela riqueza do povo e não pela riqueza dos príncipes", revela uma tensão intrínseca. Embora defendesse um sistema onde a busca individual pela riqueza impulsionasse a prosperidade coletiva, ele reconhecia que a concentração excessiva de riqueza nas mãos de poucos poderia ser prejudicial ao bem-estar geral. Essa preocupação antecipa, em certa medida, as críticas de Marx à exploração inerente ao sistema capitalista.

            Outros pontos paradoxais podem ser observados na obra de Smith. Por um lado, ele exaltava os benefícios da divisão do trabalho para aumentar a produtividade; por outro, reconhecia o potencial alienante dessa especialização excessiva, que poderia reduzir o trabalhador a uma engrenagem monótona na máquina industrial. Similarmente, embora defendesse a liberdade de mercado, ele também alertava para os riscos de monopólios e conluios entre empresários, que poderiam distorcer a concorrência e prejudicar o consumidor.

            É nesse ponto que podemos vislumbrar um tênue alinhamento com o pensamento de Karl Marx em "O Capital". Embora com perspectivas ideológicas diametralmente opostas, ambos os pensadores reconheciam as contradições e os potenciais problemas inerentes ao sistema capitalista. Enquanto Smith depositava sua fé na capacidade de autorregulação do mercado e na ação da "mão invisível", Marx via nessas contradições as sementes da inevitável derrocada do sistema.

            Talvez um Smith do futuro se desse conta desse paradoxo e então escreveria:

- “Como conciliar essa crença com a engrenagem capitalista, que inevitavelmente cria desigualdades? Esse pensamento ecoa em Karl Marx, que no futuro apontará as contradições do capitalismo em "O Capital." Ambos enxergamos, cada um à sua maneira, as tensões entre o progresso econômico e o bem-estar social”.

            Quando ouço discussões sobre a equidade e a concentração de renda, percebo que as ideias de Smith continuam relevantes. Se, por um lado, a "mão invisível" guia o mercado, por outro, ela nos lembra de que um sistema econômico só é verdadeiramente justo quando beneficia o conjunto da sociedade.

            "A Riqueza das Nações" permanece um farol intelectual, iluminando os intrincados mecanismos da produção e da distribuição de riqueza. Seus insights moldaram o mundo moderno, impulsionando o desenvolvimento do capitalismo, mas suas advertências e paradoxos nos convidam a uma reflexão contínua sobre os desafios e as desigualdades que persistem nesse sistema. A busca individual pela prosperidade, como Smith bem observou, é uma força poderosa, mas sua canalização para o bem comum requer vigilância e um debate constante sobre os limites e a ética do mercado.

            É curioso notar que, para realmente entender a riqueza das nações, talvez devamos nos debruçar sobre a peculiaridade de que quanto mais cada uma busca avidamente o seu quinhão, mais o bolo parece crescer para todos. Uma lógica um tanto... ilógica, não acham? Quase como se a mais egoísta das buscas fosse, paradoxalmente, a mais generosa das contribuições. Vai entender essa tal de "mão invisível"; às vezes, parece que ela age pelas sombras, com uma ironia quase britânica, enriquecendo a todos... individualmente!

Será?

 

 

 
 
 

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