O PARADIGMA DAS OPORTUNIDADES
- Carlos A. Buckmann
- 28 de set. de 2025
- 4 min de leitura

O PARADIGMA DAS OPORTUNIDADES
Há dias em que minha rotina parece um ritual repetido: entro na farmácia, cumprimento o dono com um aperto de mão cansado, abro o laptop sobre o balcão manchado de álcool, e começo a desmontar, peça por peça, o que ele chama de “problema do mercado”.
Primeiro, o levantamento da situação atual: estoque parado há meses, clientes saindo sem falar com ninguém, equipe com olhar vazio de quem repete gestos há anos.
Depois, o diagnóstico: capital imobilizado em produtos obsoletos, ausência de gestão de dados, comunicação interna quebrada.
Por fim, as orientações: implantar um sistema de rotatividade ABC, treinar a equipe em escuta ativa, criar um programa de fidelidade com acompanhamento farmacêutico.
O dono ouve, concorda com a cabeça, diz: “Faz sentido.” Mas, na semana seguinte, nada muda. O estoque continua acumulando poeira. A equipe continua calada. E ele reclama: “A consultoria não funcionou.”
Então me lembrei de uma frase de Max Weber:
“As pessoas raramente reconhecem as oportunidades da vida, porque muitas vezes elas estão disfarçadas de trabalho.”
Max Weber (1864–1920), alemão de Erfurt, não foi apenas um dos fundadores da sociologia moderna, foi um arqueólogo da alma capitalista. Sua obra-prima, “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, revelou como a ideia de “trabalho como vocação” moldou a mentalidade ocidental.
Para Weber, o protestantismo calvinista transformou o esforço profissional em missão divina: trabalhar não era apenas sobreviver, era “provar a graça”.
Mas, ironicamente, esse mesmo espírito criou uma armadilha: o trabalho deixou de ser caminho para se tornar prisão invisível, como escreveu em “Economia e Sociedade”: "O capitalismo moderno prende o homem em sua teia de deveres, como uma carapaça de aço”.
Weber entendia que, quando o trabalho é visto apenas como obrigação, e não como possibilidade, a oportunidade se esconde atrás da rotina. E é exatamente isso que vejo nas pequenas farmácias: o dono enxerga o estoque inteligente como “mais burocracia”, o treinamento da equipe como “perda de tempo”, o CRM como “coisa de rico”.
Tudo isso são oportunidades disfarçadas de trabalho, e ele as rejeita, achando que está protegendo o negócio.
O problema não é a falta de informação. É a resistência psicológica à mudança.
Segundo Daniel Kahneman, vencedor do Nobel de Economia, nosso cérebro opera em dois sistemas: - Sistema 1: rápido, intuitivo, avesso ao esforço. - Sistema 2: lento, analítico, preguiçoso.
Quando apresentamos uma solução nova, como um ERP integrado, o Sistema 1 do gestor grita: “Isso vai dar trabalho!” - E o Sistema 2, exausto, não contesta. Resultado: a oportunidade é rejeitada antes mesmo de ser compreendida.
Já Carol Dweck, psicóloga da Stanford, explica isso pelo “mindset fixo”: gestores que acreditam que “já sabem tudo” veem qualquer sugestão externa como ameaça à sua competência. Em vez de enxergar o treinamento como chance de crescimento, veem como confirmação de incompetência.
E a sociologia completa o quadro.
Zygmunt Bauman, ao falar da “modernidade líquida”, mostrou que vivemos em tempos de insegurança crônica. O dono da farmácia, pressionado por redes gigantes e laboratórios verticalizados, prefere agarrar-se ao conhecido, mesmo que esteja afundando.
Como disse Peter Drucker: "Nada é tão caro quanto o sucesso do passado." Mas o sucesso do passado é confortável. E o conforto, mesmo que ilusório, é resistente.
Na farmácia do Seu Roberto, fizemos um diagnóstico claro: o estoque girava 2,8 vezes ao ano (o mínimo saudável é 5,5). Propus uma reposição dinâmica, com alertas automáticos de estoque mínimo. Ele respondeu: “Isso parece complicado. Eu já tenho muito o que fazer.”
Mas o que ele não viu, e Weber previu, é que a oportunidade não chega com um sino. Chega com uma planilha. Com um treinamento. Com uma reunião chata sobre metas. E, para reconhecê-la, é preciso redefinir o conceito de trabalho.
Carl Jung observou: “O que você resiste, persiste.” Quando o gestor resiste ao “trabalho” de mudar, está, na verdade, persistindo no fracasso.
Herbert Simon, pioneiro da tomada de decisão, provou que “a complexidade não está no problema, está na percepção do problema”.
O Seu Roberto via o ERP como complicação. Na verdade, era a ferramenta para simplificar sua vida, liberando 12 horas semanais que ele gastava com inventário manual.
A mudança não começa com tecnologia. Começa com “reinterpretação simbólica”.
A cada pequeno sucesso, a equipe ganha confiança para o próximo passo. Então o gestor vai entender: o trabalho não é o problema, é a solução disfarçada.
Como Viktor Frankl escreveu: “Quando não podemos mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos.”
E, nesse caso, mudar a visão do trabalho é mudar o destino do negócio.
Quantos donos de farmácia fecham as portas sem entender por quê? Quantos culpam a crise, os laboratórios, as redes, enquanto ignoram as oportunidades que estavam na frente deles, disfarçadas de “trabalho chato”?
O problema não é a consultoria. É a ilusão de que crescimento é fácil.
Crescimento é esforço. É coragem de encarar a planilha, de treinar a equipe, de aprender um sistema novo.
Você acha que contratou um consultor para que ele resolvesse seus problemas? Engano. Você o contratou para mostrar o caminho. O trabalho é seu. E é nesse trabalho que está a oportunidade.
Porque, como Weber sabia, o capitalismo não morre de crise, morre de inércia. E inércia é o que acontece quando você confunde oportunidade com sobrecarga.
Então, pare de esperar milagres. Comece a trabalhar a sério. Não como obrigação, mas como escolha. Como investimento. Como libertação. Porque, no fim, não é o consultor que salvará sua farmácia. É você.
Mas só se entender que o trabalho não é o inimigo. É o portal.
Como diria o próprio Weber: “Não há sentido em reclamar da carapaça de aço. O que importa é saber se você tem coragem de moldá-la.”
Descubra, enfim, que a oportunidade nunca foi disfarce. Era você que estava vestido de medo.




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