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O NÚMERO E A ESTRELA

  • Carlos A. Buckmann
  • 15 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

O NÚMERO E A ESTRELA

            Ainda hoje, ao abrir as janelas do espírito, vislumbro o menino que fui sentado no chão de lajota fria da casa de meu avo

, sob a luz amarelada de um abajur de cúpula verde, absorto nas páginas de O Homem que calculava. Malba Tahan, pseudônimo de um sonhador disfarçado de professor, o brasileiro Júlio César de Mello e Souza, me conduziu, com elegância narrativa, ao mundo dos mil e um cálculos, mas também dos mil e um segredos do Oriente. Não sei ao certo se foi a matemática que me encantou primeiro ou a poesia com que ela foi contada. Talvez tenha sido a alquimia entre ambas: números que dançavam como versos, equações que se desdobravam como contos de gênios e tapetes mágicos. Pela primeira vez, entendi que o islamismo, longe de ser apenas uma geografia de fé, era também um território de razão e imaginação, onde o cálculo não desdenhava o sonho, e o sonho não temia o rigor.

            Naquele tempo, não compreendia plenamente que a matemática não é apenas a linguagem do universo, mas também uma forma de narrativa. Ela conta histórias: de proporções, de ciclos, de infinitos. Assim como o romance humano se constrói com gestos, paixões e desencontros, a vida numérica se tece com padrões, simetrias e, sobretudo, com hipóteses, isto é, com sonhos quantificados. A ciência, em sua essência mais pura, é um ato de coragem poética: ousar prever o invisível, modelar o impalpável, dar forma ao caos. Mas, como bem ensinou Malba Tahan em sua frase que guardo até hoje: “Sem o sonho e a fantasia a ciência se abastarda”, a racionalidade desprovida de imaginação é como um corpo sem alma: funcional, talvez, mas incapaz de transcender.

            Lembro-me, então, de um homem que conheci em tempos recentes, dono de uma pequena padaria em um bairro populoso da cidade, cuja história poderia ter saído de um conto de Tahan. Chamava-se Elias (nome fictício para evitar constrangimentos), e sua loja, "Pão e Sonho” (também fictício pelo mesmo motivo), começou como um modesto forno de tijolos, onde ele mesmo amassava pães com uma receita herdada do avô, temperada com canela, paciência e um toque de poesia. O segredo, dizia, não estava apenas na fermentação natural, mas no silêncio da madrugada, quando sozinho ao lado do forno, ele conversava com a massa como se fosse um ser vivo. “O pão sente o que o padeiro sente”, afirmava, com olhos que brilhavam como os de um alquimista.

            Com o tempo, a fama do “Pão e Sonho” chegou. Clientes vinham de bairros distantes. Elias, mesmo sem o capital necessário, resolveu que precisava crescer. Fez um empréstimo bancário. Alugou um prédio próximo a sua antiga casa. Comprou uma máquina de fazer a massa. O forno artesanal deu lugar a fornos elétricos. Contratou outro padeiro para trabalhar em seu lugar. A canela foi substituída por aroma sintético, mais barato, mais constante, mais científico.

            Um dia, o impensável: a “Pão e Sonho” faliu, por excesso de eficiência. Os números até que estavam certos, mas o sabor, morto. Os clientes foram rareando; diziam que o pão "não aquecia o coração". Uma grande rede de panificação, mais ágil e ainda mais desumanizada, ocupou o espaço com promoções e algoritmos de entrega em dez minutos. Elias, sentado em um banco em frente de sua casa, que um dia foi sua primeira loja, me disse, com voz rouca: “Eu esqueci que o pão não alimenta só o corpo. Alimenta a memória, o afeto, o tempo.” E concluiu, quase em sussurro: “Perdi o sonho. E sem sonho, o negócio morre.”

            É nesse ponto que a frase de Malba Tahan se revela profética. A ciência, e, por extensão, toda forma de conhecimento humano, precisa do sal da imaginação para não se tornar um cadáver dissecado em laboratório. O sonho não é o inimigo da razão; é seu complemento necessário. Sem ele, o cálculo vira burocracia, a gestão vira moinho, e a vida, um fluxograma sem graça.

            Hoje, quando vejo executivos falando em “pensamento ágil” enquanto repetem planilhas como mantras, penso no Beremiz Samir, o calculista de Tahan, dividindo melões com sabedoria e justiça, resolvendo disputas com frações e metáforas. Ele não usava a matemática para anestesiar o mundo, mas para entendê-lo com ternura e precisão.

            E se, ao final desta crônica, alguém me perguntar como conciliar sonho e balanço patrimonial, responderei com um sorriso: 

            - Basta lembrar que até o número pi tem infinitas casas decimais… e ainda assim insiste em ser arredondado por gente que tem medo do infinito. 

            Agora, se me der licença, vou sonhar com uma equação que prove que o amor é diretamente proporcional à quantidade de estrelas vistas da minha janela, mesmo que, matematicamente, isso não faça o menor sentido. 

            E exatamente por isso, faz todo o sentido do mundo.

 
 
 

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