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O Naufrágio Inevitável: Reflexões à Beira do Abismo

  • Carlos A. Buckmann
  • 11 de abr. de 2025
  • 5 min de leitura

O Naufrágio Inevitável: Reflexões à Beira do Abismo

Amin Maalouf, escritor libanês radicado na França, teceu ao longo de sua obra uma tapeçaria rica em culturas, identidades e os intrincados laços que moldam a história humana. Nascido em Beirute em 1949, Maalouf vivenciou de perto as fraturas do Oriente Médio, um tema recorrente em seus romances históricos e ensaios. Jornalista premiado antes de se dedicar à literatura, sua escrita elegante e perspicaz explora as complexidades do mundo contemporâneo com a profundidade de quem carrega em si a marca de múltiplas pertenças.

Em “O Naufrágio das Civilizações”, publicado originalmente em 2019, Maalouf nos oferece um diagnóstico sombrio, porém instigante, do estado atual do mundo. Longe de ser um tratado acadêmico frio, o livro se apresenta como um ensaio pungente, carregado de reflexões pessoais e observações agudas sobre a trajetória das grandes civilizações e o que ele percebe como um declínio alarmante. Maalouf argumenta que, nas últimas décadas, testemunhamos um enfraquecimento progressivo das estruturas internacionais, um recrudescimento de nacionalismos exacerbados e uma perda de bússola moral que nos conduz perigosamente a um naufrágio coletivo.

O autor revisita momentos cruciais da história recente, desde a queda do Muro de Berlim e a promessa de uma nova ordem mundial até a ascensão do terrorismo, a crise financeira de 2008 e a crescente polarização política. Ele critica a miopia de líderes e a incapacidade das instituições globais de lidarem eficazmente com os desafios transnacionais, como as mudanças climáticas e as desigualdades sociais. Maalouf lamenta o esgarçamento do tecido social, a proliferação de narrativas simplistas e a erosão do diálogo construtivo, elementos que outrora permitiram a ascensão e a coexistência de diferentes culturas e civilizações.

            Isso nos leva, inevitavelmente, a pensar no que vem ocorrendo com a política tarifária, com seu método de “bate e assopra”, que Donald Trump vem divulgando.

A atual política tarifária proposta por Donald Trump se encaixa de maneira preocupante no cenário delineado por Amin Maalouf. Como mencionamos, o livro adverte sobre o perigo do recrudescimento de nacionalismos e da erosão das estruturas de cooperação internacional como fatores que podem levar a um "naufrágio" da ordem global. As tarifas propostas por Trump representam uma manifestação clara de um unilateralismo econômico e de uma priorização de interesses nacionais a curto prazo em detrimento da estabilidade e da interdependência do sistema comercial internacional.

Assim como Maalouf critica a miopia de líderes que não conseguem enxergar os benefícios da colaboração e a ameaça da fragmentação, a imposição de tarifas elevadas pode ser vista como uma ação que mina a confiança entre nações e fomenta a retaliação. Historicamente, guerras comerciais desencadeadas por políticas protecionistas levaram a recessões econômicas e a um aumento das tensões geopolíticas, corroendo o tecido da civilização de maneira análoga ao naufrágio descrito no livro.

No paralelo com o mundo empresarial, as tarifas de Trump representam um choque exógeno que pode levar ao "naufrágio" de empresas e ao desaparecimento de mercados. Empresas com cadeias de suprimentos globais podem enfrentar custos mais altos, perda de competitividade e até mesmo a inviabilidade de seus modelos de negócio. Mercados que dependem de um fluxo livre de bens e serviços podem se contrair ou desaparecer devido às barreiras tarifárias, afetando não apenas as empresas diretamente envolvidas no comércio internacional, mas também setores domésticos que dependem de insumos importados ou que sofrem com a retaliação de outros países.

A proposta de Trump, ao priorizar uma visão isolacionista e transacional das relações econômicas internacionais, ignora a complexa teia de interdependências que sustentam a economia global. Essa abordagem pode levar a um enfraquecimento das instituições multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), que Maalouf implicitamente valoriza como mecanismos de coordenação e prevenção de conflitos. A erosão dessas estruturas de governança global aumenta o risco de um "naufrágio" da ordem econômica internacional, com consequências negativas para a prosperidade e a estabilidade em escala global.

Para resumir, a política tarifária de Donald Trump, ao promover o protecionismo e o unilateralismo, reflete os perigos advertidos em "O Naufrágio das Civilizações". Assim como a falta de cooperação e a exacerbação de identidades podem levar ao colapso de civilizações, a imposição de barreiras comerciais pode levar ao naufrágio de empresas e ao desaparecimento de mercados, em um cenário de crescente instabilidade e desconfiança internacional.

Mas voltemos ao nosso pequeno mundo de pequenas e médias empresas. A metáfora do naufrágio é central. Maalouf não prevê um colapso repentino, mas sim um afundamento lento e gradual, impulsionado pela negligência, pelo egoísmo e pela falta de visão de longo prazo. As ondas que castigam o casco dessa embarcação global são representadas pelas crises econômicas, pelos conflitos regionais, pelo aumento das tensões geopolíticas e pela incapacidade de construir um futuro compartilhado.

Ao transpor essa análise para o universo empresarial, o paralelo com o naufrágio de empresas e o desaparecimento de mercados se torna inevitável. Assim como civilizações podem ruir sob o peso de suas próprias contradições e da incapacidade de se adaptarem a novas realidades, empresas também sucumbem à inércia, à falta de inovação, à má gestão e à cegueira diante das mudanças do mercado.

Uma empresa que se apega a modelos de negócio obsoletos, que ignora as demandas de seus consumidores, que não investe em pesquisa e desenvolvimento ou que se fecha para a colaboração e para as novas tecnologias, está, metaforicamente, navegando em águas turbulentas com um casco furado. A rigidez e a falta de adaptabilidade, assim como o nacionalismo exacerbado e a recusa ao diálogo entre nações, podem levar uma organização à falência, ao desaparecimento de sua relevância e, por fim, ao seu naufrágio no competitivo oceano do mercado.

O desaparecimento de um mercado inteiro ecoa o alerta de Maalouf sobre o enfraquecimento das estruturas globais. Um mercado que não se autorregula de forma ética, que não se adapta às novas necessidades da sociedade ou que se torna refém de práticas predatórias está fadado ao colapso. A falta de confiança, a instabilidade e a ausência de um horizonte de longo prazo minam as bases desse mercado, levando ao seu definhamento e, em última instância, ao seu desaparecimento, assim como a falta de cooperação e visão compartilhada podem levar ao naufrágio das civilizações.

“O Naufrágio das Civilizações” é um chamado à reflexão urgente. Ao nos alertar para os perigos da fragmentação, do isolamento e da perda de valores universais no cenário global, o autor nos convida a um exame de consciência sobre as escolhas que fazemos como sociedade. Da mesma forma, no mundo empresarial, a obra serve como um lembrete de que a inovação constante, a adaptabilidade, a ética nos negócios e a capacidade de construir relações sólidas e colaborativas são os pilares para evitar o naufrágio em um mercado em constante transformação. A leitura de Maalouf, portanto, transcende a análise geopolítica e nos oferece uma perspectiva valiosa para compreendermos os desafios e as responsabilidades que moldam o destino tanto das nações quanto das empresas.

 

 
 
 

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