O MÉTODO CARTESIANO
- Carlos A. Buckmann
- 4 de out. de 2025
- 5 min de leitura

O MÉTODO CARTESIANO.
Pedro entrou na minha sala com o olhar de quem carrega um cadáver nas costas. Sua farmácia, sob minha consultoria, sempre fora um modelo de gestão: estoque enxuto, equipe engajada, clientes fiéis. Mas naquela manhã, ele desabou na cadeira, as mãos trêmulas segurando um café esquecido, e disse:
- Preciso demitir a Dona Lúcia.
Olhei para ele, surpreso.
- Ela está com você há 22 anos.
- Exatamente.
- E?
- E ela não produz o suficiente para cobrir seu próprio salário.
Fez uma pausa, como se confessasse um crime:
- É um monstro que criei.
Contou-me então o problema que lhe parecia insolúvel: Dona Lúcia, desde os 25 anos, trabalhava na farmácia. Fora treinada por ele próprio, tornara-se uma espécie de matriarca do balcão, conhecida por todos no bairro. Mas, nos últimos anos, seu desempenho caíra vertiginosamente. - Erros no caixa, lentidão no atendimento, resistência a aprender o novo sistema de gestão.
Pedro calculou: seu custo mensal (salário + encargos) era R$ 2.850,00. Sua produtividade gerava, em média, R$ 2.100,00 em vendas diretas. Deficitária.
Mas demiti-la? Era impensável. Ela era parte da história da loja. Da família. Do próprio Pedro. - “Criei um dilema que agora me assombra”, repetiu, a voz embargada.
- Não é um dilema - respondi. É uma dificuldade que você não dividiu.
Foi então que citei Descartes: “Divide as dificuldades que tenhas de examinar em tantas partes quantas for possível para uma melhor solução.” -René Descartes (1596–1650), francês de La Haye en Touraine, não foi apenas o pai do “Cogito ergo sum”, foi o engenheiro do pensamento moderno. Em seu “Discurso do Método”, que foi meu livro de cabeceira durante muitos anos, propôs quatro regras para a verdade:
1. Evidência: nunca aceitar algo como verdadeiro sem clara comprovação;
2. Análise: dividir cada dificuldade em partes menores;
3. Síntese: organizar ideias do simples ao complexo;
4. Enumeração: revisar tudo para não omitir nada. Sua genialidade não estava na dúvida, estava na ferramenta para superá-la.
Para Descartes, o caos não existe: existe apenas complexidade mal decomposta. E foi exatamente isso que faltava a Pedro: não uma solução mágica, mas a coragem de desmontar o monstro.
Vamos lá, disse a Pedro. Sua dificuldade não é Dona Lúcia. São quatro problemas entrelaçados: 1. O Problema Financeiro: Ela não produz o suficiente. Mas produzir significa só vender? Na farmácia, produtividade não é apenas caixa: - Ela treina novos funcionários com a paciência de uma mestra; - Mantém relações com idosos do bairro, que confiam nela como se fosse parente; - Resolve conflitos com clientes antes que cheguem a você.
Seu valor não está no relatório do ERP, está na cultura da loja. - Como Peter Drucker escreveu: “Nem tudo que conta pode ser contado”
O monstro financeiro desmoronou quando Pedro viu que Dona Lúcia não era um custo, era um ativo intangível.
- Não posso demiti-la, seria trair minha história.
Aqui, a raiz não era Lúcia, mas o medo de Pedro de perder controle. Como Carl Jung observou: “Até você tornar o inconsciente consciente, ele dirigirá sua vida.” - Pedro projetava em Lúcia sua própria ansiedade com o envelhecimento, com a transição para a aposentadoria, com a culpa de não ter planejado sucessão. O monstro emocional sumiu quando ele admitiu: “Não é sobre ela. É sobre mim.”
E como fica a terceira regra: Ela não aprende o sistema novo. Mas por quê? - Falta de treinamento adaptado à sua idade? - Resistência por medo de ser substituída? - Falta de clareza sobre seu novo papel? Como W. Edwards Deming ensinou, “94% dos problemas são do sistema, não das pessoas”.
O monstro operacional revelou-se um erro de gestão: - Pedro nunca redefinira o cargo de Lúcia para a era digital.
É justo mantê-la se ela não contribui? Aqui, a armadilha era falsa. Contribuição não é só financeira. Como Aristóteles já dissera no ÉTICA PARA NICÔMACO: “A justiça é dar a cada um o que lhe é devido.” E o que Lúcia merecia? Não demissão, mas reinvenção.
- Uma citação do nosso velho e conhecido Heráclito: “O bom navegante precisa do mau tempo.” A dificuldade, quando fragmentada, vira oportunidade. - Gilles Deleuze & Félix Guattari afirmaram com toda razão: “Na lógica do agenciamento, resolver um problema é desmontar o “assemblage” (mistura) e reconectar seus componentes.
Dona Lúcia não era inútil, era um agente em contexto errado.
Todos concordam: o todo é mais que a soma das partes, mas só se você souber quais são as partes.
Com Pedro, construímos um plano em quatro etapas, uma para cada parte do monstro:
1. Reavaliação do Papel: Transformamos Lúcia em Gestora de Relacionamento: - Treinamento em escuta ativa para identificar necessidades não ditas; - Responsável pelo programa de fidelidade com idosos; - Mediação de conflitos (sua maior força). 2. Redesenho da Métrica: Criamos KPIs não financeiros: - Taxa de retenção de clientes idosos; - Número de recomendações geradas; - Redução de reclamações. 3. Plano de Transição: - Curso de gestão básica para que ela se tornasse mentora de novos funcionários; - Gradual redução de tarefas operacionais, com foco em seu novo papel. 4. Cerimônia de Reconhecimento: - Uma reunião com toda a equipe, onde Pedro agradeceu publicamente seus 22 anos, não só como funcionária, mas como guardiã da alma da farmácia.
O resultado? - Em 6 meses, a retenção de clientes acima de 60 anos subiu 28%; - O NPS (Índice de Satisfação) saltou de 52 para 79; - E Lúcia, pela primeira vez em anos, disse: “Voltei a sentir que importo.”
O monstro não foi morto. Foi transformado. - Quantos gestores enfrentam “problemas insolúveis” que, na verdade, são monstros mal divididos? Quantos culpam a crise, os funcionários, o mercado, enquanto repetem o erro de Descartes: tentar resolver o todo sem entender as partes?
Essa lição vai além de um problema corporativo, serve de bússola para o pensar humano: um método que combate a ansiedade da negação, a impressão avassaladora de “tudo junto e misturado” que paralisa o espírito. A mente precisa desse exercício, dividida em partes, para reencontrar sua lucidez.
Descartes não nos ensinou a fugir da complexidade. Nos ensinou a dominá-la. Porque, como ele sabia, não há dificuldade que resista à faca da análise.
Mas há um perigo maior que a dificuldade: a preguiça intelectual de achar que tudo é um só problema. Quando você diz “não tenho solução”, na verdade está dizendo: não tive coragem de dividir.
Então na próxima vez que um monstro bater à sua porta, não pegue a espada. Pegue o bisturi. Divida. Analise. Reconstrua. Porque, no fim, a gestão não é arte de resolver problemas. É ciência de não deixar que eles existam.
Porque, afinal, o que chamamos de impossível é apenas uma equação que ninguém teve paciência de resolver.




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