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O MURO DA RAZÃO

  • Carlos A. Buckmann
  • 4 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

O MURO DA RAZÃO

            Vivemos tempos em que a insanidade não mais se esconde atrás de diagnósticos médicos ou celas acolchoadas. Ela desfila pelas ruas, ocupa cargos públicos, administra empresas, dita tendências e até escreve livros de autoajuda. A loucura deixou de ser um desvio individual e passou a ser um fenômeno coletivo  e, paradoxalmente, normatizado.

            Dostoiévski advertia que “em uma sociedade insana, os sãos de espírito são tratados como loucos”. Michel Foucault, em História da Loucura, mostrou que os loucos foram, ao longo do tempo, confinados não por ameaça, mas por incômodo, pois expunham as feridas da razão e questionavam os dogmas da normalidade. Hoje, ironicamente, vivemos o avesso: a normalidade é uma ficção mantida por pactos silenciosos entre ignorância e conveniência.

            A cultura, que outrora deveria iluminar consciências, tornou-se um adereço decorativo, substituída por algoritmos que moldam desejos e opiniões, como denunciava Guy Debord em A Sociedade do Espetáculo. O mundo já não busca sentido, busca entretenimento. O pensamento virou suspeito. E a ignorância, vestida de opinião, exige respeito.

            Foi nesse espírito de análise profunda da patologia coletiva que me lembrei de uma anedota que circula pela internet, daquelas que nascem no fundo do senso comum e carregam uma centelha de genialidade disfarçada de escárnio:

            Os loucos de um hospício resolveram fugir. Após intensa deliberação, combinaram a fuga para o sábado. Na quinta-feira, fizeram ensaios sérios: pularam o muro várias vezes, de dentro para fora, de fora para dentro, como quem treina balé com precisão militar. Na sexta-feira, choveu.

- Suspenderam o ensaio.No sábado, ansiosos, designaram um dos internos para verificar o cenário. Ele foi, olhou, voltou e, cabisbaixo, anunciou:— Não vai dar. A chuva derrubou o muro. Agora não tem mais como pular.

            Rir dessa história é o reflexo do pouco que ainda resta de nossa lucidez. Pois nela se oculta uma metáfora demolidora da vida em sociedade. Treinamos tanto para escapar, para resistir, para agir conforme o plano... que não sabemos o que fazer quando o obstáculo desaparece. A estrutura mental do cárcere é tão sólida quanto o próprio muro.

            Quantos de nós não estamos assim? Condicionados a reclamar da prisão, mas perdidos na liberdade. Ensaiamos revoluções nos discursos, mas travamos diante da porta aberta. Desejamos mudanças, mas apenas dentro do script. A ausência do muro, aquilo que deveria significar alforria, se torna pânico, pois sem ele não sabemos mais pular.

            É exatamente isso que Byung-Chul Han aponta em A Sociedade do Cansaço: somos prisioneiros de nós mesmos, dos nossos hábitos, do nosso excesso de performance. A liberdade assusta porque implica responsabilidade, e estamos todos cansados demais para ser livres de verdade.

            No fim, aquela piada trágica nos revela um espelho. Os muros que enfrentamos talvez já tenham ruído há tempos. Só que ninguém nos avisou,ou, pior, ninguém acreditou. E seguimos ali, com os joelhos flexionados, prontos para o salto… esperando o retorno da muralha, para que tudo volte a fazer sentido.

            Por isso, quando alguém me pergunta se o mundo enlouqueceu, eu respiro fundo, olho ao redor, e respondo com a serenidade de quem já pulou muitos muros imaginários:

            Não, meu caro… O problema é que o mundo acha que é são.

            E como diria aquele sábio interno do hospício, com ares de quem entende mais da vida do que muitos por aí:

            - Liberdade? Só se for com muro!

 Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora

 

 
 
 

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