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O MOVIMENTO QUE NOS DEFINE

  • Carlos A. Buckmann
  • 14 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

O MOVIMENTO QUE NOS DEFINE

            Aqui jaz, em vida, o cronista que vos fala. E se ainda respiro, é porque o ar se move em meus pulmões, o sangue pulsa em minhas veias e as ideias borbulham em minha mente. Porventura, haveria prova mais cabal de que a vida, em sua essência mais pura, é movimento?

            Tudo o que vive, se move. Desde o fluxo incessante do sangue em nossas veias até o rodopio das galáxias no cosmos, a existência é um perpétuo vaivém. O mar não aceita a estagnação; as árvores, mesmo enraizadas, movem-se no crescimento e na dança sutil das folhas ao vento. O próprio tempo, senhor de todas as transformações, não conhece descanso.

            Blaise Pascal, matemático, filósofo e pensador do século XVII, captou essa verdade em uma frase certeira: “A nossa natureza consiste em movimento; o repouso completo é a morte.” Filho da era do racionalismo, Pascal transitou entre números e reflexões metafísicas, construindo pontes entre ciência e espiritualidade. Seu olhar perspicaz sobre a condição humana revelou um mundo onde o ato de existir é, por si só, um caminhar contínuo.

            Esse pensamento, porém, já povoava as mentes dos pré-socráticos. Heráclito afirmava que “ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois a água já não será a mesma e ele próprio já terá mudado.” Para ele, a realidade é fluxo constante, e tudo se transforma a cada instante. Aristóteles também via no movimento a essência da vida, atribuindo-lhe um papel central na própria definição do ser.

            O conceito de movimento é interpretado de maneiras diversas ao redor do mundo, refletindo valores culturais, filosóficos e sociais únicos.

            Na tradição oriental, especialmente no taoísmo chinês, o movimento é essencial para a harmonia do universo. O yin-yang representa a constante transformação e equilíbrio entre forças opostas. Já no budismo, a impermanência é um princípio fundamental: tudo está em fluxo, e aceitar essa realidade é parte do caminho para a iluminação.

            Os povos indígenas das Américas veem o movimento como um ciclo natural. Muitas culturas nativas acreditam que a vida segue padrões circulares, como as estações do ano e os ciclos da lua. O deslocamento físico, seja por migração ou rituais de peregrinação, é frequentemente associado à renovação espiritual e conexão com a terra.

            Os filósofos ocidentais contemporâneos interpretam o movimento de diversas formas, dependendo de suas correntes filosóficas e áreas de estudo.

            Na filosofia fenomenológica, Mauricio Hardie Beuchot propõe uma abordagem interpretativa, onde o movimento do pensamento é essencial para a compreensão da realidade. Já Roberto Esposito, dentro da filosofia política, questiona como a dinâmica da vida e da política pode, paradoxalmente, levar à morte.

            Correntes filosóficas contemporâneas também exploram o movimento em relação à tecnologia e à sociedade. Pensadores analisam como a aceleração do mundo digital impacta nossa percepção do tempo e da mudança. Além disso, há debates sobre o movimento como força de transformação social, especialmente em questões como mudanças climáticas e desigualdade econômica.

            No mundo contemporâneo, o movimento é valorizado de diferentes formas. No universo corporativo, a inovação e a adaptação são vistas como essenciais para o sucesso. Na cultura digital, a velocidade da informação redefine a maneira como interagimos e aprendemos.

            Na esfera individual, o movimento é renovação. O aprendizado, a mudança de hábitos, o simples levantar-se para um novo dia, tudo nos empurra para frente. A sociedade, por sua vez, só evolui quando abandona a imobilidade, reinventando-se em ciclos de progresso e crise. E o mundo dos negócios? Este é regido pelo princípio da adaptação: empresas que resistem à inovação, que se recusam a movimentar-se em sintonia com seu tempo, acabam fossilizadas no esquecimento.

            O repouso absoluto, como nos alerta Pascal, não é vida, mas sim sua interrupção. Que nunca nos tornemos estátuas da própria existência. Afinal, até a rocha, em sua aparente quietude, sofre a ação do vento e da água, esculpindo formas novas ao longo dos séculos.

            E se a ideia de estar sempre em movimento lhe parece cansativa, lembre-se: até o sofá onde você se joga para descansar foi criado por alguém que não parou de inovar.

            Independentemente da abordagem, o consenso parece ser que o movimento não é apenas físico, mas também intelectual, social e político. Afinal, até a filosofia precisa se mover para continuar relevante!

 

 

 
 
 

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