top of page

O MONSTRO QUE NOS HABITA

  • Carlos A. Buckmann
  • 18 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

O MONSTRO QUE NOS HABITA

            Permito-me a heresia de começar pelo fim: o respeitável Doutor Henry Jekyll é, na verdade, o perverso Edward Hyde. A poção que o transforma é apenas um catalisador químico para a cisão psíquica que todos carregamos.

            Eis a tragédia, que a maioria de vocês, imersos na fugacidade das notificações e na tirania dos "likes", talvez jamais venha a ler.

            Vivemos numa era em que o espelho não reflete mais o rosto, mas o número de seguidores. E, assim, ignoramos que, dentro de cada um de nós, já existe, sem necessidade de poção mágica, o Dr. Jekyll e o Mr. Hyde.

            O clássico de Robert Louis Stevenson, "O Médico e o Monstro", jaz empoeirado em prateleiras, substituído pelo scroll infinito que premia a superficialidade. Vivemos na era da imagem polida, da persona digital cuidadosamente curada, onde o reconhecimento instantâneo vale mais que a introspecção demorada. A profundidade de um conflito existencial como o de Jekyll, que exige silêncio e reflexão, é incompatível com o barulho incessante das redes.

            Stevenson, de forma genial, usou o artifício da droga para dar corpo à dualidade humana. Mas a verdadeira poção, o autêntico catalisador, reside não em um frasco, mas na própria estrutura da consciência. Em cada um de nós, pulsa um gatilho moral e emocional, esperando a pressão certa para disparar o "monstro".

            Não precisamos de laboratório para testemunhar essa metamorfose. A História é um museu de horrores perpetrados por aqueles que, até então, eram considerados "normais".

            Pensemos em casos como o de Adolf Eichmann, o burocrata nazista responsável pela logística do Holocausto. Ele não era o maníaco estereotipado, mas o “homo normalis” que se permitiu a "banalidade do mal", um conceito tão agudamente cunhado pela filósofa Hannah Arendt. Eichmann demonstrou como a abdicação do pensamento crítico em favor da obediência cega e da adesão ao sistema pode desativar o humano e acionar o monstro da indiferença.

            Outro exemplo é o vizinho, o colega, o empresário que, sob a pressão de uma crise ou a tentação do lucro fácil, comete fraudes, destrói ecossistemas ou precariza vidas, apenas para manter a fachada de sucesso, o Hyde social, disfarçado de sucesso financeiro.

            Cientistas e filósofos têm tentado nomear e mapear essa sombra interna desde sempre. Sigmund Freud descreveu a psique dividida entre o Id (a fonte dos impulsos e desejos primitivos, o nosso Hyde puro), o Superego (a consciência moral, a voz da sociedade e o Dr. Jekyll) e o Ego (o mediador, a instância que tenta manter a fachada de normalidade). A monstruosidade emerge quando o Ego falha em sua mediação e o Id ganha controle irrestrito.

            O psiquiatra suíço Carl Jung aprofundou essa ideia com o conceito de “Sombra” (Shadow): a parte de nossa personalidade que rejeitamos e reprimimos, composta por características que consideramos negativas. Quanto mais negamos a “Sombra”, mais forte e incontrolável ela se torna, ameaçando irromper no inconsciente e manifestar-se em atos destrutivos. A negação é o combustível do monstro, onde o filósofo Friedrich Nietzsche já alertava que "Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você".

            No mercado de trabalho, o Hyde se veste de egoísmo corporativo: a ambição desmedida que destrói a ética, o assédio moral disfarçado de "alta performance", ou a trapaça na competição.

            Na vida pessoal, ele aparece na crueldade não dita, na palavra lançada para ferir, na incapacidade de perdoar ou na dependência tóxica de validação alheia, o Hyde que se alimenta do nosso status digital.

            A situação se agrava quando a cultura social incentiva a cisão. As redes sociais são o laboratório perfeito do Dr. Jekyll, onde só mostramos a "melhor versão" de nós mesmos, alimentando o monstro da hipocrisia e da dissimulação. Ao reprimir o natural, o autêntico, criamos uma pressão insustentável.

            O destino trágico de Jekyll e Hyde, que culmina no suicídio de ambos na tentativa desesperada de eliminar o mal, não precisa ser o nosso. O tratamento, a cura filosófica para essa cisão, começa com a aceitação.

            O primeiro passo é dar ouvidos à recomendação de Jung: integrar a Sombra.

            Não se trata de dar vazão aos impulsos destrutivos, mas sim de reconhecer que a agressividade, o ciúme, a raiva e a ambição são facetas inerentes ao ser humano. Ao reconhecê-las, tiramos delas o poder da surpresa e da erupção descontrolada. Transformamos o veneno em vacina.

            Temos recursos internos e coletivos:

            A Consciência Ética: A filosofia moral nos equipa para o dilema. A busca pelo "conhece-te a ti mesmo" socrático é o antídoto mais eficaz contra a irrupção do impulso cego.

            A Responsabilidade: Entender, como propôs o existencialismo de Jean-Paul Sartre, que "somos o que fazemos" e que somos responsáveis por cada escolha, inclusive a de alimentar o Jekyll ou o Hyde.

            A Empatia: O verdadeiro Superego não é apenas a regra social, mas a capacidade de sentir o outro. A solidariedade, a justiça e a compaixão são as paredes que contêm o monstro.

            Podemos reescrever o final da nossa própria história. O Doutor e o Monstro não precisam se autodestruir. Eles podem coexistir em um equilíbrio tenso, mas produtivo, onde a força bruta do Hyde é canalizada pela razão do Jekyll para a ação criativa e construtiva.

            A poção não nos transforma: ela apenas nos revela. E a revelação, ainda que dolorosa, é o primeiro ato de liberdade. O verdadeiro horror não é ter um Hyde dentro de nós. É fingir que não o temos.

            É nessa negação que ele ganha poder.

            Mas se ousarmos olhar para dentro, sem julgamento, com coragem e compaixão, descobriremos que o monstro e o médico não precisam se matar. Podem, quem sabe, aprender a caminhar juntos.

            E talvez, nessa aliança improvável, nasça algo mais humano do que qualquer um dos dois sozinho jamais seria.

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora

 

 

 
 
 

Comentários


CONTATO

Porto Alegre, RS 

​​

Tel: (51) 9 9259-6364

Skype: betobuckmann​

betobuckmann@yahoo.com.br

Nós recebemos a sua mensagem, aguarde contato.

  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

© 2023 por Hugin. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page