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O MONSTRO, O MÉDICO E O CANDIDATO

  • Carlos A. Buckmann
  • 12 de jul. de 2025
  • 4 min de leitura

O MONSTRO, O MÉDICO E O CANDIDATO

            Aos sete anos, ganhei dois tesouros que mudaram para sempre o rumo da minha infância. Lembro-me vividamente do cheiro do papel novo, da textura das páginas, do peso gentil em minhas mãos, dos dois primeiros presentes que meus pais, com sua sabedoria silenciosa, me ofertaram: A Ilha do Tesouro e O Médico e o Monstro. Não sei se meus pais tinham noção exata do que estavam fazendo quando me presentearam com essas histórias. Talvez tenham imaginado apenas que estariam incentivando um menino a ler. Mas não: estavam, na verdade, lançando uma âncora na minha alma e içando as velas de um navio que jamais ancoraria de novo. Desde então, nunca mais deixei de ler. De piratas a poetas, de monstros a metafísicos, a vida se me revelou como um livro que se escreve nas entrelinhas.

            O curioso é que, mesmo sem entender direito o que era bem ou mal, herói ou vilão, percebi que a linha entre um e outro era mais fina do que os adultos costumavam admitir. O Dr. Jekyll era também o Sr. Hyde. O caçador de tesouros era também, muitas vezes, um ladrão com código de honra. O mundo, entendi desde cedo, é feito de ambivalências. E a política, anos depois, se me revelou como a arte mais ambígua de todas.

            Hoje, com a barba branca e os olhos mais céticos, olho para a cena política mundial e vejo um espetáculo que oscila entre o drama e a farsa. Homens e mulheres que mal leram um livro, que tropeçam em conceitos básicos de ética e lógica, sentam-se em cadeiras de poder como se tivessem nascido para isso, ou pior: como se bastasse querer para merecer. É nesse contexto que lembro de uma frase do próprio autor dos livros da minha infância, Robert Louis Stevenson, um escocês brilhante do século XIX, escrita em seu ensaio "Talk and Talkers" de 1882. Essa observação, proferida por um homem que, embora padecendo de saúde frágil, viajou o mundo e desvendou a profundidade da condição humana em suas obras-primas, revela uma perspicácia atemporal.

            “A política é talvez a única profissão para a qual se pensa que não é preciso nenhuma preparação.”

            A frase está em um de seus ensaios menos conhecidos, mas permanece entre as mais citadas nas rodas de filosofia política, especialmente nos tempos atuais. Stevenson, nascido em 1850 e morto em 1894, foi mais do que um contador de histórias fantásticas, era também um pensador agudo e sensível, preocupado com os desvios da alma humana, tanto em sua dimensão individual quanto coletiva.

            O diagnóstico de Stevenson parece ter atravessado os séculos sem perder a validade. Slavoj Zizek, filósofo contemporâneo esloveno, já disse em tom de desabafo que “a política de hoje é o espaço do improviso sem vergonha e da ignorância eloquente”. Zygmunt Bauman, em sua crítica à modernidade líquida, já nos alertava sobre a efemeridade das instituições e a fragilidade dos compromissos, elementos que se manifestam de forma aguda na política atual, onde a improvisação muitas vezes substitui o planejamento estratégico e o carisma, a competência. E Yuval Harari, historiador israelense, alerta que nunca estivemos tão expostos aos perigos de líderes despreparados com acesso a tecnologias capazes de alterar o destino da humanidade.

            A política, que deveria ser um ofício refinado, exige o que todo ofício sério exige: estudo, preparo, escuta, ética. Mas não: parece bastar um bordão populista, um punhado de seguidores nas redes sociais e uma boa dose de cara de pau. É como se aceitássemos que o cirurgião cardíaco tivesse aprendido sua profissão vendo vídeos no TikTok.

            Se Platão ressuscitasse e lesse as manchetes de hoje, voltaria para a caverna por vontade própria.

            Mas eu não quero terminar esta crônica com a fleuma de um velho resmungão. Prefiro pensar que ainda há esperança, mesmo que tímida, nos que acreditam que política é arte nobre e não reality show. Que se estuda, sim, como se estuda medicina, engenharia ou literatura. Que não se entrega o leme do navio a quem confunde bússola com cronômetro.

            E, se tudo mais falhar, proponho um critério simples para a próxima eleição: só deveria poder se candidatar quem, aos sete anos, já tivesse lido A Ilha do Tesouro e O Médico e o Monstro. Afinal, quem desde pequeno entende que todo homem traz dentro de si um Hyde, talvez leve a sério a responsabilidade de governar outros homens. No entanto, persiste a esperança, ou quem sabe, a comédia. Talvez um dia, para ser candidato, seja preciso apresentar um diploma em "Compreensão Abrangente da Condição Humana com Ênfase em Ética para Governantes Desavisados" e uma tese sobre "A Logística da Distribuição de Bom Senso em Escala Global". Até lá, continuaremos a assistir, ora com apreensão, ora com um riso nervoso, à performance dos que, sem ensaio, sobem ao palco e, com uma orquestra desafinada, tentam reger a melodia do mundo. Afinal, como diria o próprio Stevenson, "a vida é apenas uma oportunidade para fazer o que se deseja". Que bom que ele não especificou "o que se deseja com um mínimo de preparo". Ou, no mínimo, saberá que esconder o tesouro é mais fácil do que achar a dignidade.

 

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora

 
 
 

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