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O MOINHO E A VOZ QUE AVISOU

  • Carlos A. Buckmann
  • 31 de mai.
  • 4 min de leitura

O MOINHO E A VOZ QUE AVISOU (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Angenor de Oliveira, o Cartola, nasceu no Estácio, em 1908, e aprendeu cedo que a vida não é um samba-enredo.

            Órfão de mãe aos oito, feirante, pedreiro, lavador de carros, mas sobretudo compositor. Fundou a Estação Primeira de Mangueira com um grupo de amigos, e ali, no morro que o viu crescer, criou uma obra que poucos eruditos ousariam desprezar. Morreu pobre, como vivera, mas deixando pérolas em forma de canção.

            O ambiente de Cartola era o morro carioca dos anos 1930, 1940. A boemia, o samba de terreiro, os pagodes na casa da Dona Neuma. Mas também o preconceito, a polícia, a fome. Ele viveu num Rio de Janeiro que ora exaltava o samba, ora o perseguia. Dessa tensão nasceu sua música: não uma fuga da realidade, mas um confronto lírico com ela. Aprendera com os velhos bambas que a poesia mora na simplicidade, e com a vida que a dor é matéria-prima da consciência.

            Cartola conseguia conjugar música e poesia num só canto de tecitura única porque não separava as coisas.

            Para ele, a melodia triste já trazia a palavra cortante; o violão não acompanhava o verso, conversava com ele.

            Há em "O Mundo É um Moinho" uma aspereza melódica que parece ranger como pedras. A poesia não é enfeite; é o esqueleto da canção. Diferente de tantos letristas que colavam poemas em melodias, Cartola pensava em música e letra como um corpo só.

            A MPB, aliás, é um dos mais notáveis repositórios de filosofia popular deste país. Não a filosofia de gabinete, mas a que nasce do suor.

            Cartola, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa, Adoniran Barbosa, todos eles, com seus sambas e valsas, nos oferecem ontologias, éticas e até epistemologias.

            Querem saber o que é o tempo? Ouçam "O Mundo É um Moinho". Querem saber o que é o amor? Ouçam Cartola. A academia explica; o samba mostra.

            “Ainda é cedo, amor / Mal começaste a conhecer a vida / Já anuncias a hora de partida / Sem saber mesmo o rumo que irás tomar”

            O poeta espanta-se com a pressa da juventude. A vida mal começou, e o jovem amor já quer partir.

            Heidegger escreveu sobre o ser-para-a-morte, a consciência de que o fim nos constitui. Mas aqui é o contrário: o fim é anunciado sem que o começo tenha sido vivido. É uma morte ainda não merecida. Cartola nos lembra que a pressa de desistir é também uma forma de arrogância: como saber que o caminho é ruim se você nem o trilhou?

            “Presta atenção, querida / Embora eu saiba que estás resolvida / Em cada esquina cai um pouco tua vida / Em pouco tempo não serás mais o que és”

            O tempo, para Bergson, é duração, acumulação criativa. Para Cartola, é perda. Em cada esquina, cada escolha, cada desencontro, a vida se esfarela.

            Não serás mais o que és: advertência terrível. O eu não é fixo; é um sedimento que se desfaz a cada vento. A filosofia estoica diria: prepara-te. Cartola diz: percebe. A diferença é que o estoico confia na virtude; Cartola confia apenas no aviso.

            “Ouça-me bem, amor / Preste atenção, o mundo é um moinho / Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho / Vai reduzir as ilusões a pó”

            Encontramos a metáfora central. O mundo como moinho, não como jardim, não como vale de lágrimas, mas como máquina trituradora.

            Schopenhauer falava da vontade de viver como uma força cega que nos lança de desejo em desejo, sempre insatisfeita.

            O moinho de Cartola é essa vontade anônima, mecânica, que não tem maldade, mas tem efeito devastador. "Tão mesquinho": o mundo não é grandioso em sua crueldade; é pequeno, ordinário, burocrático na destruição dos sonhos. Reduzir ilusões a pó: não apenas matar sonhos, mas reduzi-los a nada, a poeira insignificante.

            “De cada amor, tu herdarás só o cinismo / Quando notares, estás à beira do abismo / Abismo que cavaste com teus pés”

            A última estrofe é talvez a mais cruel. O amor, fonte de sentido, lega apenas cinismo. Não tristeza, não saudade; cinismo, que é a morte da crença. E então o abismo.

            Mas Cartola acrescenta um detalhe espantoso: o abismo foi cavado por você mesma. Não por ele, não pelo mundo, não pelo destino. Por seus próprios pés.

            Sartre diria: o homem está condenado a ser livre, e o inferno são os outros. Cartola corrige: o inferno é você mesma quando insiste em caminhar para o precipício. A responsabilidade é inteira. E isso é mais doloroso do que qualquer culpa externa.

            Cartola, o menino do Estácio que limpava carros para comer, soube mais de alma do que muitos doutores. Ele avisou. “Ainda é cedo, amor”, ele disse.          Mas o amor jovem, teimoso, não ouviu. E o moinho continua triturando sonhos, em cada esquina, em cada rádio que toca essa canção.

            Talvez a filosofia mais verdadeira não seja a que responde, mas a que adverte.

            Cartola advertiu.

            Cabe a nós, agora, decidir se vamos parar à beira do abismo ou se continuaremos cavando com nossos próprios pés.

            Eu, pelo menos, depois de ouvir esse samba, olho para o chão com mais cuidado.

(*) Assista o clipe no YouTube

 
 
 

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