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O MESTRE E A HUMILDADE DE APRENDER

  • Carlos A. Buckmann
  • 23 de mai. de 2025
  • 3 min de leitura

O MESTRE E A HUMILDADE DE APRENDER

            Sempre tive para mim que ensinar era um ofício nobre, daqueles que se desenham com giz branco em lousas pretas e se eternizam nas palavras repetidas por gerações. Mas com o tempo, e com o tempo tudo se desnuda, fui percebendo que há uma sabedoria mais profunda, quase oculta, em aprender. Em um primeiro olhar, poder-se-ia arguir que a didática reside no mestre, naquele que detém o saber e o veicula ao discente, o recipiente ávido por assimilar novas verdades e metodologias.         Ensinar é oferecer o que se sabe; aprender, contudo, é acolher o que se ignora. E foi nessa fresta de lucidez que reencontrei Guimarães Rosa com sua frase luminosa: “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.”

            Essa máxima, tão singela quanto potente, encontra-se no monumental Grande Sertão: Veredas, obra em que o autor desenha com palavras a vastidão do sertão e da alma humana. Riobaldo, o narrador errante, nos guia por caminhos tortuosos onde o bem e o mal, o real e o fantástico, o vivido e o sonhado se entrelaçam. É nesse terreno árido e fecundo que Rosa finca suas ideias, oferecendo-nos, sob o disfarce do sertão, uma reflexão filosófica sobre a condição humana.

            João Guimarães Rosa (1908–1967), mineiro de Cordisburgo, foi médico, diplomata, poliglota e, sobretudo, um inventor da linguagem. Seus escritos fundem erudição e oralidade, criando uma língua própria, carregada de brasilidade e transcendência. Rosa sabia que a linguagem é também caminho,  vereda,  e por ela nos conduz a revelações inesperadas.

            E como essa frase ressoa em minha vida! Aprendi, por exemplo, com meu neto, quando tinha sete anos, que silêncio também é resposta. Aprendi com um funcionário de humildade invulgar que a gentileza é mais eficaz que qualquer reprimenda. Aprendi, em meu pequeno negócio, que às vezes é preciso escutar mais do que falar, observar mais do que agir.

            No microcosmo dos pequenos negócios, onde a figura do proprietário se desdobra em múltiplas funções: do vendedor ao administrador financeiro, do comprador ao gerente de recursos humanos, a máxima rosiana adquire uma relevância ainda mais premente. Imerso na dinâmica multifacetada do seu empreendimento, o dono é constantemente desafiado a aprender com os clientes, a adaptar-se às mudanças do mercado, a absorver o conhecimento tácito dos seus colaboradores. Aquele que se fecha na redoma da sua suposta expertise corre o risco de obsolescência e de perder oportunidades valiosas. A capacidade de aprender com os erros, de acolher o feedback e de incorporar novas ideias é crucial para a sobrevivência e o sucesso do negócio. O verdadeiro mestre nesse contexto é aquele que, paradoxalmente, se mantém um eterno aprendiz.

            No mundo dos pequenos empreendedores, e falo com o coração de quem já fez tudo, do estoque ao caixa, essa frase de Rosa é quase um lema de sobrevivência. O dono da loja precisa ser polivalente, mas, mais do que isso, precisa ser um eterno aprendiz. Aprende-se a lidar com fornecedores instáveis, com clientes imprevisíveis e com a alma de uma equipe que nem sempre é treinada, mas tem coração. Aprende-se a reconhecer os próprios limites e, não raro, aprende-se com um estagiário uma nova maneira de vender que a experiência ainda não tinha alcançado.

            Essa perspectiva encontra eco em diversos pensadores ao longo da história. Sêneca, em suas Epístolas Morais a Lucílio, já nos advertia: "Docendo discimus" (ao ensinar, aprendemos). A troca de conhecimento não é uma via de mão única; o ato de transmitir o saber muitas vezes cristaliza e aprofunda a compreensão daquele que ensina. Da mesma forma, o filósofo e educador Paulo Freire, em sua pedagogia libertadora, enfatizava a horizontalidade da relação entre educador e educando, onde ambos se constituem como sujeitos do processo de aprendizagem. "Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre", asseverava Freire, corroborando a ideia de que o aprender é um movimento contínuo e mútuo.

            No universo social, essa humildade do mestre que aprende é o antídoto contra a arrogância do poder. E na vida pessoal, é o segredo dos relacionamentos duradouros;  ouvir o outro é, quase sempre, mais valioso que ter razão.

            E se hoje, depois de tantas décadas entre livros e balcões, posso dar algum conselho, ele seria este: nunca confie num mestre que não se surpreende com um bom aluno. E nunca subestime a sabedoria que pode vir do frentista, da copeira ou do entregador de gás,  os verdadeiros mestres do cotidiano.

            No fim das contas, ser mestre é um pouco como tentar ensinar um gato a usar coleira: a gente ensina um tanto, mas aprende muito mais sobre a liberdade.

            Parafraseando um certo mineiro sagaz, só espero que a gente aprenda a estacionar direito antes que inventem o carro voador.

 

 
 
 

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