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O MEDO É UM LEÃO DE PAPEL

  • Carlos A. Buckmann
  • 11 de mai. de 2025
  • 3 min de leitura

O MEDO É UM LEÃO DE PAPEL

            “Nos perigos grandes, o temor é maior muitas vezes que o perigo.”Diz assim Camões, nosso vate maior, em um de seus versos mais memoráveis d'Os Lusíadas, obra que nasceu da pena ferida e genial do homem que sofreu, lutou, amou, perdeu e sonhou entre guerras, naufrágios e exílios.

            Luís Vaz de Camões, filho do século XVI, é exemplo vivo de que a genialidade, por vezes, é parida no ventre da dor. Expulso de Lisboa, envolvido em brigas, preso, cego de um olho em combate, sobreviveu a um naufrágio agarrado a uma tábua e ao manuscrito de sua epopeia. Publicou Os Lusíadas em 1572, depois de uma longa travessia — literal e literária — pedindo proteção régia para seu poema, que cantava as glórias de Portugal e a valentia de seus navegadores. O livro é mais que epopeia: é documento da alma humana frente ao mar imenso da incerteza.

            E é nesta alma, tormentosa e viva, que reside o medo — esse animal silencioso que nos habita e, como ele escreveu, tantas vezes é maior que o próprio perigo. Também já fui vítima dessa fera invisível. Mas quem nunca foi? - Medo de não dar certo, de tentar e fracassar, de me mostrar ridículo, de perder o que amo. Medos antigos, primitivos, que surgem do nada, mas que têm endereço certo: a amígdala cerebral, aquela pequena estrutura que herdamos de nossos ancestrais e que acende o alarme como se estivéssemos diante de um tigre, quando, na verdade, estamos só diante de um e-mail com a palavra "urgente".

            No tecido complexo da sociedade de massas, o medo se propaga como uma epidemia, muitas vezes instigado por narrativas simplistas e polarizadas. O receio do "outro", do desconhecido, do colapso de sistemas estabelecidos, pode levar a comportamentos gregários, à aceitação acrítica de soluções simplistas e à erosão do pensamento individual. A massa, imersa no temor coletivo, torna-se suscetível à manipulação, perdendo a capacidade de avaliar racionalmente os perigos reais e os imaginários.

            A história nos revela que o medo sempre foi ferramenta de sobrevivência. O homem das cavernas precisava temer o rugido da fera. O cidadão medieval, o exército inimigo. Hoje, porém, tememos o desemprego, o julgamento alheio, o fracasso nas redes sociais, os gráficos descendentes dos negócios. A massa teme em conjunto — e quando uma sociedade inteira teme, surge a histeria coletiva, o pânico financeiro, os boatos que derrubam empresas ou reputações. O medo se veste de múltiplas máscaras, sempre com a mesma intenção: nos fazer recuar.

            A psicologia moderna, com sua lupa sobre a mente, explica que esse temor exacerbado pode ser domado. Técnicas como a respiração controlada, a terapia cognitivo-comportamental, a exposição gradual ao objeto do medo e até a meditação comprovam que é possível, sim, domar o monstro. Como diz a neurociência, o medo é uma reação, não uma sentença. Podemos, com treino, ensinar nosso cérebro que o que ele vê como um dragão é, na verdade, só um ventilador fazendo barulho à noite.

            Na vida pessoal, nas relações humanas, nos negócios, quantas vezes deixamos de avançar por imaginar perigos que jamais se concretizariam? Quantas ideias brilhantes morreram na gaveta do "e se"? A coragem, ao contrário do que muitos pensam, não é ausência de medo. É ação apesar dele.

             A diferença entre um herói e um covarde é que o herói tem mais cicatrizes para mostrar, enquanto o covarde só tem desculpas engavetadas! Portanto, se o medo bater à sua porta, ofereça-lhe um café… mas diga que não tem açúcar — porque adoçar o medo é dar a ele mais poder do que merece. -   Se Camões salvou Os Lusíadas de um naufrágio com um braço só, o mínimo que posso fazer é salvar meu dia com um bom café… e um pouco menos de drama.

 

 
 
 

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