O MEDO QUE NOS HABITA
- Carlos A. Buckmann
- 15 de out. de 2025
- 2 min de leitura

O MEDO QUE NOS HABITA
Há tempos venho me perguntando se existe uma ciência capaz de habitar o limiar entre o que sentimos e o que pensamos, entre o grito mudo do medo e o silêncio racional que tenta compreendê-lo.
Talvez essa ciência já exista, ainda que sem nome oficial nos manuais acadêmicos. Chamo-a, por ora, de “psicofilosofia”: um híbrido necessário, onde a psicologia escuta os sussurros do inconsciente e a filosofia traduz esses sussurros em perguntas que nos fazem mais humanos.
A psicologia, desde Freud até nossos dias, tem se debruçado sobre o medo como um dos pilares da condição humana. Freud, em sua genialidade sombria, via o medo não apenas como reação a ameaças externas, mas como resquício de conflitos internos, o medo do caos interno disfarçado de perigo externo.
Jung, por sua vez, falava da “sombra”, aquela parte de nós que recusamos reconhecer, e cuja simples aproximação nos lança em pânico.
Já os behavioristas, como Watson, reduziam o medo a condicionamentos, estímulos e respostas, como se o coração não tivesse memória própria.
Mas todos, de alguma forma, concordam: o medo não é um acidente. Ele habita em nós como um hóspede indesejado, mas familiar.
E é aí que a filosofia entra, não para curar, mas para iluminar.
Epicuro, há mais de dois mil anos, já dizia que o maior dos medos é o medo da morte, e que, portanto, compreender a morte como fim natural da vida seria o caminho para a serenidade.
Sêneca, estoico romano, ensinava que “não sofremos pelos fatos, mas pelas ideias que temos sobre os fatos”. O medo, então, não é o que está lá fora, mas o que construímos dentro.
Kierkegaard, o pai da angústia existencial, via no medo a vertigem da liberdade: tememos escolher, porque escolher é assumir a responsabilidade pelo que somos.
E Heidegger? Para ele, o “angst” (angústia) revela a autenticidade, só quando confrontados com o nada é que percebemos o valor do ser.
A psicofilosofia, portanto, surge como ponte. Não se contenta em apenas diagnosticar o medo como sintoma, nem em apenas contemplá-lo como enigma metafísico. Ela propõe um diálogo entre o grito e o pensamento, entre o corpo que treme e a mente que reflete.
Em tempos de ansiedade coletiva, medo do futuro, do outro, do próprio passado, essa abordagem se torna urgente. Não basta medicar o pânico; é preciso entender por que ele pulsa. Não basta negar o medo; é preciso habitá-lo com lucidez.
Vivemos numa era em que o medo foi transformado em mercadoria: vendido em noticiários, explorado em campanhas políticas, internalizado como norma. A psicofilosofia nos convida a desmontar essa lógica. A nos perguntar: “de que, afinal, tenho medo?” E mais: “esse medo me aproxima ou me afasta da vida que desejo viver?”
Esta crônica é apenas um esboço, um convite para mergulharmos mais fundo nessa ciência ainda por nomear.
Prometo voltar.
Voltarei para desfiar, com mais cuidado, os fios que ligam a alma ao pensamento, o trauma à ética, o medo à esperança.
Porque, no fim, talvez o único antídoto contra o medo que nos habita seja a coragem de entendê-lo, não como inimigo, mas como espelho.




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