O KANT NOSSO DE CADA DIA.
- Carlos A. Buckmann
- 26 de abr. de 2025
- 4 min de leitura

O KANT NOSSO DE CADA DIA.
Immanuel Kant... Mergulhar na vastidão de seu pensamento assemelha-se a tentar abraçar a totalidade do firmamento estrelado numa noite sem lua. A profundidade de sua filosofia, confesso, por vezes me assalta com a mesma sensação vertiginosa de contemplar um abismo insondável. A vastidão do pensamento kantiano sempre me trouxe uma mescla de fascínio e intimidação. Mergulhar em suas ideias é como explorar um oceano profundo: a superfície reluz, mas nas profundezas escondem-se enigmas que testam não apenas a nossa compreensão, mas a essência de quem somos. Antes de abordar algumas máximas que me instigam, permita-me apresentar brevemente o homem por trás das ideias.
Nascido em Königsberg, na Prússia Oriental, em 1724, este gigante intelectual levou uma vida dedicada à reflexão e ao ensino. Sua existência metódica e reclusa, pontuada por passeios diários que, dizem, eram tão precisos que os habitantes da cidade ajustavam seus relógios por eles, contrastava com a revolução copernicana que promoveu no campo da filosofia. Entre suas obras magnas, resplandecem a "Crítica da Razão Pura" (1781), que empreendeu uma análise rigorosa dos limites e das capacidades da razão humana; a "Crítica da Razão Prática" (1788), que investigou os fundamentos da moralidade; e a "Crítica do Juízo" (1790), que explorou o domínio da estética e da teleologia. Estes três pilares sustentam um sistema filosófico que ecoa através dos séculos, desafiando nossas concepções mais arraigadas sobre o conhecimento, a moral e o belo.
Relendo suas obras, busquei algumas frases que sublinhei com marcador de texto amarelo vibrante, e que destacam sua filosofia. Debruçar-me sobre algumas de suas assertivas mais pungentes revela a perene atualidade de seu pensamento. Tomemos, por exemplo, a frase:
“O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele.”
A princípio, tal afirmação pode soar determinista, até mesmo redutora da complexidade intrínseca ao ser humano. Contudo, perscrutando suas entranhas, percebemos a ênfase kantiana no poder formativo da educação. Não se trata de negar as predisposições inatas, mas de sublinhar o papel crucial do cultivo da razão e do desenvolvimento moral na constituição do indivíduo. Em nossa vida, quantas vezes não testemunhamos o impacto transformador de um mestre inspirador, de um livro revelador, de uma experiência enriquecedora? Esta máxima é um reflexo cristalino da confiança de Kant no poder transformador da educação. Ele acreditava que a educação era a pedra angular do progresso humano, o que me leva a refletir: somos moldados pelo aprendizado, não apenas em escolas, mas em nossas interações cotidianas. Quantos de nós já não sentimos como nossas escolhas, valores e percepções evoluíram graças à troca de ideias ou a um mentor inspirador?
Na sociedade e nos negócios, a negligência com a educação invariavelmente redunda em indivíduos mais suscetíveis à manipulação, menos aptos ao exercício pleno da cidadania e, em última instância, em um tecido social mais frágil e desigual. isso nos provoca a questionar: como estamos educando as próximas gerações? Não apenas no âmbito acadêmico, mas sobre empatia, senso crítico e responsabilidade.
E quando nos confrontamos com a assertiva:
“A moral, propriamente dita, não é a doutrina que nos ensina como sermos felizes, mas como devemos tornar-nos dignos da felicidade.”
Aqui reside um dos pilares da ética kantiana: o primado do dever sobre a inclinação. Para Kant, a moralidade não se funda na busca egoísta pela felicidade, um conceito subjetivo e fugaz, mas no cumprimento do dever por puro respeito à lei moral universal. Agir moralmente, portanto, não garante a felicidade, mas nos torna merecedores dela. Em nossa jornada individual, quantas vezes somos tentados a trilhar o caminho mais fácil, o que nos proporciona prazer imediato, em detrimento do que é justo e correto? Na esfera social, a busca desenfreada pela felicidade individual, desvinculada de considerações éticas, pode levar a injustiças, exploração e à erosão dos laços comunitários. A dignidade da felicidade, para Kant, reside em conquistá-la através de ações moralmente válidas.
E quando nos exorta com:
“Sapere aude (Ouse saber); tenha coragem de fazer uso do seu próprio entendimento”
Isso ecoa como um chamado à autonomia intelectual, um dos pilares do Iluminismo, do qual Kant foi um fervoroso expoente. Este imperativo nos convida a abandonar a cômoda menoridade intelectual, a sacudir o jugo da autoridade dogmática e a exercer, com valentia e rigor, nossa própria capacidade de pensar. Em nossa vida pessoal, quantas vezes nos deixamos levar por opiniões alheias, por preconceitos arraigados, sem submetê-los ao crivo da nossa própria razão? Este chamado à autonomia intelectual é um grito de liberdade. Ousarmos pensar por conta própria, especialmente em tempos de desinformação e conformidade, é um ato de resistência. Pessoalmente, isso me inspira a questionar aquilo que aceitamos como verdade absoluta.
No âmbito social, o medo de questionar, a passividade intelectual e a aceitação acrítica de informações podem conduzir a sociedades manipuláveis e vulneráveis a ideologias perniciosas. Ousar saber é, portanto, um ato de coragem e um pressuposto fundamental para o progresso individual e coletivo. Na sociedade, essa coragem é a semente do progresso: cada avanço significativo, de movimentos por direitos civis a revoluções científicas, começou com indivíduos que ousaram questionar.
“O sábio pode mudar de opinião. O idiota nunca”
Aqui, nos revela uma profunda compreensão da natureza falível do conhecimento humano e da importância da humildade intelectual. O sábio, consciente das limitações da sua própria razão e aberto a novas evidências e argumentos, não se apega dogmaticamente às suas convicções. Pelo contrário, demonstra a grandeza de espírito de reconhecer seus erros e de modificar seu ponto de vista. O idiota, aprisionado na camisa de força da sua própria ignorância e imbuído de uma arrogância intelectual pueril, obstina-se em suas ideias, mesmo diante da mais contundente refutação. Em nossa vida, quantas vezes a teimosia e a recusa em admitir um erro nos impedem de aprender e de evoluir? Na sociedade, a polarização exacerbada e a incapacidade de dialogar e de reconhecer a legitimidade de diferentes perspectivas representam um sério obstáculo ao entendimento e à construção de um futuro mais justo e harmonioso.
Como diria o próprio Kant, embora a moralidade nos ensine a sermos dignos da felicidade, não há nada que nos impeça de dar uma boa gargalhada no processo, mesmo que seja ao tropeçar nos intrincados labirintos da razão pura!




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