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O INSTANTE HABITADO

  • Carlos A. Buckmann
  • 22 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

O INSTANTE HABITADO.

Entre Cronos, Kairós e o Sofrimento do Agora.

            Sentado à beira do meu próprio tempo, esse rio que corre sem pedir licença, lembro-me dos antigos gregos, que, com rara lucidez, dividiram o tempo em dois deuses: Cronos e Kairós. Cronos, o devorador, o tempo cronológico, linear, implacável, aquele que marca os dias no calendário, que envelhece corpos e apaga memórias. Kairós, por outro lado, é o deus do momento oportuno, do instante qualitativo, da brecha aberta no tecido do cotidiano em que algo verdadeiramente decisivo pode acontecer. Enquanto Cronos conta, Kairós escolhe. Um é a sucessão; o outro, a plenitude.

            Hoje, porém, vivemos sob o jugo quase exclusivo de Cronos. Nossos relógios não marcam encontros, mas prazos; nossos dias não são vividos, mas gerenciados.

            E é aí que a psicologia e a psiquiatria entram em cena, não como salvadoras, mas como testemunhas atentas do descompasso entre o tempo vivido e o tempo medido.

            William James, em sua genialidade, já falava do “tempo subjetivo”, daquela elasticidade interna em que uma hora de tédio se arrasta como um século, enquanto um minuto de paixão voa como um suspiro.

            Já Henri Bergson, com sua noção de “duração”, insistia que o tempo real não é o que o relógio registra, mas o fluxo contínuo da consciência, onde passado, presente e futuro se entrelaçam como fios de uma mesma trama.

            A psiquiatria contemporânea, por sua vez, diagnostica a ansiedade generalizada, a depressão e a insônia como sintomas de uma civilização que perdeu o contato com Kairós, que não sabe mais habitar o instante, apenas o atravessa.

            A filosofia vai além do diagnóstico: ela interroga o sofrimento social como expressão de uma alienação ontológica.

            Para Marx, o tempo do trabalhador alienado é tempo roubado, não vivido, mas vendido.

            Para Heidegger, o “ser-para-a-morte” nos convoca a assumir a finitude não como tragédia, mas como condição para a autenticidade.

            E Foucault nos lembra que o tempo moderno é disciplinar: escolas, fábricas, hospitais, todos cronometram a existência, moldando corpos dóceis e mentes fragmentadas.

             Diante disso, a filosofia não se contenta em interpretar o mundo; ela quer transformá-lo, como diria Marx ou, ao menos, reencantá-lo, como propõe Byung-Chul Han ao falar da “sociedade do cansaço”, onde o excesso de positividade nos impede de contemplar o silêncio do agora.

            É nesse entrelaçamento entre diagnóstico psicológico e crítica filosófica que surge, ou melhor, que se impõe, a psicofilosofia: uma ciência híbrida, ainda em gestação, mas já urgente.

            A psicofilosofia não se limita a curar sintomas nem a especular sobre o ser. Ela busca restituir ao indivíduo a capacidade de habitar o instante com plenitude ética e existencial. Trata o tempo não como recurso escasso, mas como dimensão da liberdade. Inspirada em Nietzsche, que nos convidou a viver como se quiséssemos repetir eternamente cada momento, e em Viktor Frankl, que descobriu sentido mesmo nos campos de concentração.

            A psicofilosofia propõe uma terapia do tempo: aprender a distinguir entre o que deve ser cronometrado e o que deve ser vivido; entre o que exige eficiência e o que exige presença.

            No mundo hiperconectado, acelerado e fragmentado em que vivemos, essa ciência híbrida não é um luxo intelectual, mas uma necessidade vital.

            Precisamos reaprender a esperar sem ansiedade, a agir sem pressa, a contemplar sem distração. Precisamos recuperar Kairós, não como nostalgia, mas como prática. A psicofilosofia, então, não apenas interpreta o sofrimento do tempo, mas oferece ferramentas para reencantá-lo: meditação filosófica, escrita de si, diálogo socrático, atenção plena aliada à reflexão crítica. Ela nos convida a sermos cronistas do nosso próprio instante, não espectadores passivos da história alheia, mas autores atentos da nossa duração.

            Diante do abismo do tempo que foge, não nos resta outra escolha senão mergulhar no agora, não como fuga, mas como resistência. Porque habitar o instante é, afinal, o único modo de não sermos devorados por Cronos.

            Talvez, nesse mergulho, encontremos não apenas paz, mas revolução: a revolução silenciosa de quem decide viver, de verdade, o tempo que lhe resta.

 
 
 

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