O INSTANTE CRIANÇA A SER VIVIDO
- Carlos A. Buckmann
- 23 de out. de 2025
- 3 min de leitura

O INSTANTE CRIANÇA A SER VIVIDO.
Observo, da janela de meu quarto, uma criança brincando no quintal.
Não há pressa em seus gestos, nem ansiedade em seus olhos. Ela está inteira naquilo que faz: enterrando um brinquedo imaginário, conversando com o vento, rindo de algo que só ela entende. Nada a distrai do agora. Não há passado a lamentar, nem futuro a temer. Ela habita o instante com uma naturalidade que me parece quase divina, ou, talvez, profundamente humana, antes que o mundo a ensine a se dividir.
Se a psicologia clássica se debruçasse sobre essa cena, diria que a criança ainda não desenvolveu plenamente o ego, aquela instância freudiana que media desejos, realidade e moral.
Para Freud, a infância é o reino do id, do impulso imediato, da satisfação sem mediação.
Já a psiquiatria, mais pragmática e menos poética, poderia diagnosticar essa imersão no presente como ausência de funções executivas maduras, como se a plenitude fosse um déficit a ser corrigido.
Ambas, em suas linguagens técnicas, reduzem a magia da presença a um estágio evolutivo a ser superado, como se o tempo fosse uma linha reta rumo à maturidade, e não um círculo que nos convida a retornar ao essencial.
A filosofia, essa arte de habitar as perguntas, vê outra coisa.
Para Henri Bergson, a criança vive no tempo vivido, a “durée”, aquela experiência contínua e qualitativa do tempo, onde passado, presente e futuro se entrelaçam sem rigidez.
Já Gaston Bachelard, em sua poética da infância, escreveu que “a infância é o tempo em que o mundo ainda não foi nomeado”, e por isso tudo é descoberta, tudo é milagre.
Nietzsche, por sua vez, via na criança o terceiro estágio da metamorfose do espírito, após o camelo e o leão, aquele que “esquece” para poder “criar”, que brinca com o mundo como se fosse um novo começo. A infância, nessa perspectiva, não é imaturidade: é intensidade pura, é vida em estado bruto, antes da domesticação do tempo.
A psicofilosofia. É essa ciência híbrida que não se contenta em explicar, mas busca transformar.
Enquanto a psicologia nos diz como funcionamos e a filosofia nos pergunta porque existimos, a psicofilosofia nos convida a habitar melhor. Ela não quer curar a criança de sua presença; quer curar o adulto de sua ausência. Trata-se de uma prática que une a escuta clínica à meditação existencial, que lê os sintomas não apenas como disfunções, mas como chamados ontológicos. Quando um adulto sofre de ansiedade, a psicofilosofia não se limita a receitar ansiolíticos ou técnicas de respiração, ela pergunta: O que você perdeu do seu instante? Onde foi parar a criança que você foi?
Vivemos no mundo hiperconectado, acelerado, fragmentado em notificações e prazos, onde a psicofilosofia surge como um antídoto necessário. Não para nos devolver à infância, o que seria impossível e até ingênuo, mas para nos lembrar que o instante não é um recurso a ser gerenciado, mas um dom a ser habitado. Ela nos ensina que a atenção plena não é uma técnica de produtividade, mas um ato de resistência contra a tirania do tempo cronológico. Que a presença não é passividade, mas uma forma radical de liberdade.
Vivemos em uma era que confunde movimento com vida, informação com sabedoria, planejamento com existência.
Mas a criança no quintal, alheia a tudo isso, continua cavando seu buraco no chão como se estivesse plantando o mundo.
Talvez seja hora de parar de correr para o futuro e começar a escavar, com as mãos sujas de terra e o coração leve, o instante que já temos.
A psicofilosofia não promete respostas fáceis, mas oferece um convite urgente: volte ao agora. Não como quem regressa, mas como quem finalmente chega.




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