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O INCONSCIENTE ESTRUTURADO

  • Carlos A. Buckmann
  • 16 de set. de 2025
  • 4 min de leitura

O INCONSCIENTE ESTRUTURADO

            Há dias em que o tempo parece dobrar sobre si mesmo.  Acho que até já escrevi isso uma outra vez.

            Ontem, ao entrar numa farmácia de bairro, aquela com o balcão de madeira desgastada e o cheiro eterno de álcool e ervas, (não se assuste, elas ainda existem - poucas – em extinção – mas existem) senti algo estranho.  Não era a primeira vez que estava ali. Mas foi como se fosse. 

            O movimento da atendente ao virar, o som do caixa abrindo, a luz fraca do teto piscando no mesmo ritmo… tudo me invadiu com uma sensação de já-visto tão intensa que parei no meio do corredor. Dejà vu.  Fiquei imóvel por três segundos.  Não pensei: “Ah, isso acontece.”  Pensei sim: "Já vivi isso. Mas como?" 

            Então entendi: não era memória.  Era estrutura.  Estrutura inconsciente.

            Nesse instante que lembrei de Jacques Lacan e sua frase, aparentemente enigmática, mas devastadora em sua verdade: 

            “O inconsciente é estruturado como uma linguagem.”

            Jacques Marie Émile Lacan (1901–1981) foi um psicanalista francês que ousou reler Freud à luz da linguística, da filosofia e da estruturação simbólica. Enquanto a psicanálise clássica buscava decifrar o inconsciente como um baú de traumas reprimidos, Lacan o transformou em um campo de linguagem, onde o desejo, o gozo, o eu e o outro são articulados não por imagens, mas por significantes.

            Para ele, não falamos o que pensamos, pensamos naquilo que falamos. O sujeito não precede a linguagem.  É constituído por ela. 

            E o inconsciente, longe de ser um poço escuro de impulsos, é uma rede de metáforas, lapsos, silêncios e sintomas, todos organizados como uma língua própria, com gramática, ambiguidade e sentido oculto.

            Lacan nos ensinou que nunca estamos sós com nós mesmos.  Desde o berço, somos atravessados pelo Outro, a mãe, o pai, a cultura, a lei, a palavra. 

É nesse campo do Outro que o sujeito nasce: dividido, falho, desejante.  Como dizia, “o desejo é o desejo do Outro”. 

            Não sabemos o que queremos, sabemos apenas que queremos ser queridos.

            O dejà vu que senti na farmácia não foi um erro da memória. Foi um fenômeno de reconhecimento simbólico. 

            Meu inconsciente, estruturado por milhares de interações anteriores, lojas familiares, figuras de autoridade, momentos de espera, ansiedade por solução, ativou um padrão linguístico pré-existente.  O cenário externo coincidiu com uma estrutura interna. 

            O resultado?  - A ilusão de recordar o que nunca havia sido lembrado.

            Isso revela algo crucial:  Os fatos não existem neutros.  São sempre interpretados, nomeados, articulados por uma trama inconsciente anterior à consciência. 

            Uma crítica no trabalho não é apenas uma crítica, pode ser o eco de uma reprovação paterna.  Um fracasso financeiro não é só um número vermelho, pode ser a realização de um destino inconsciente de punição.

            Na vida individual, ignorar essa estrutura é viver no automático. 

            Na sociedade, é repetir ciclos de conflito, exclusão, culpa e falha de comunicação. 

            Porque, como disse Slavoj Žižek, herdeiro de Lacan, “o que impede o encontro com o outro não é a diferença, é a ilusão de que falamos a mesma língua”.

            Traga isso para o universo do empreendedorismo, especialmente o pequeno negócio, onde o dono é, ao mesmo tempo, gestor, operador, contador e psicólogo emocional da equipe.

            Quantos empresários fecham uma farmácia porque “o mercado está difícil”, quando, na verdade, estão fugindo de um desejo inconsciente de punição por ter abandonado o emprego seguro? 

            Quantos evitam contratar um consultor porque “não confiam em estranhos”, mas, no fundo, reproduzem a desconfiança do pai que dizia: “ninguém vai te ajudar de graça”? 

            Quantos sabotam seu próprio crescimento com decisões irracionais, preços baixos demais, estoques exagerados, relações tóxicas com fornecedores, sem perceber que estão encenando um drama simbólico mais antigo que a própria empresa?

            O empreendedor não lida apenas com fluxo de caixa. Lida com fantasmas, Com narrativas ocultas.  Com palavras que nunca foram ditas, mas que governam suas escolhas.

            E se Lacan tem razão, e tem, então toda decisão de negócios é, antes de tudo, um ato de linguagem inconsciente. 

            Contratar, demitir, investir, recuar, inovar, tudo isso é dito em uma língua que o próprio sujeito não domina.

            Julia Kristeva fala do “processo simbólico” como condição de identidade:” sem linguagem, não há sujeito, não há projeto”. 

            Maurice Merleau-Ponty mostra que o corpo é um modo de linguagem, e o gesto do balconista, o olhar do dono, a postura da loja, tudo “fala” antes das palavras. 

            Erving Goffman, na sociologia dramatúrgica, prova que cada interação social é uma encenação, e o empreendedor é, constantemente, um ator em cena, guiado por roteiros internos.

            Todos convergem para a mesma ideia:  nada é puramente racional. Tudo é significado.  E o significado é inconsciente.

            Você acha que abre sua farmácia por liberdade?  Que toma decisões com base em dados?  Que controla seu destino?

            Ilusão.  Se você nunca escutou as vozes que falam dentro de você, as que dizem “não mereço crescer”, “vão me enganar”, “sou melhor sozinho”, “dinheiro é sujo”, então você não está empreendendo.  Está repetindo um roteiro escrito por fantasmas do passado.

            O mundo dos pequenos negócios está cheio de pessoas que fogem de si mesmas atrás do balcão.  Que projetam no cliente o pai autoritário, na equipe a família disfuncional, no lucro uma redenção impossível.

            Mas há esperança. 

            E ela começa com uma pergunta lacaniana: “O que meu sintoma está me dizendo?” Por que você trabalha 16 horas por dia?  Por que evita parcerias?  Por que tem medo de delegar?  Por que seu estoque vive alto, como se precisasse provar que “tem coisa”?

            Pare!... Escute!... Escreva!... Analise!

            Porque enquanto você não souber que seu inconsciente é uma linguagem, você será seu próprio obstáculo.  E a tragédia não será o fracasso.  Será o sucesso vazio, conquistado sem saber por quê.

            Mas se um dia você olhar para sua loja e perguntar:  Quem sou eu nessa história?  então, talvez, pela primeira vez, você comece a empreender não por compulsão, mas por escolha.

            E nesse momento, não será só o negócio que renasce. 

            Será você.

 
 
 

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