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O IMPREVISÍVEL ROTEIRISTA

  • Carlos A. Buckmann
  • 15 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

O IMPREVISÍVEL ROTEIRISTA

            Já tentei traçar a vida como quem desenha um mapa: régua na mão, coordenadas exatas, pontos de apoio, linhas retas rumo ao destino final. Imaginei que com planejamento suficiente, talvez até disciplina germânica, seria possível conter as reviravoltas, domesticar o caos e evitar surpresas. Tolice. O improvável, esse velho palhaço cósmico, não apenas fura o roteiro, como se diverte improvisando novas cenas no meio do espetáculo.

            Quantas vezes me sentei com planilhas, metas, cronogramas bem alinhados... apenas para, no dia seguinte, a realidade me puxar pela gola e dizer: “Vamos por aqui, que é mais emocionante”. A verdade é que dependemos do improvável, mesmo sem querer. Ele é como a margem de erro que insiste em virar manchete. Não importa o quanto calculemos, postulemos ou tramemos, como advertiu Henry Miller:

                         “Sempre existirão surpresas à sua frente. Conte com isso!”

            Miller sabia das coisas. Norte-americano, nasceu em 1891 e andou pelo mundo com olhos de cronista e alma de incendiário. Autor de obras como Trópico de Câncer e Trópico de Capricórnio, fez da literatura um campo minado de verdades viscerais, misturando autobiografia, filosofia e sensualidade com uma honestidade desconcertante. Seu olhar para o imprevisível era quase religioso, não como um devoto que teme, mas como um herege que reverencia a incerteza como fonte de autenticidade.

            Outros pensadores também dançaram com o inesperado. Nassim Nicholas Taleb, por exemplo, nos fala dos “Cisnes Negros”, aqueles eventos raros e imprevisíveis que mudam o curso da história. Heráclito, o obscuro de Éfeso, já nos sussurrava há milênios que não se entra duas vezes no mesmo rio, pois nem o rio, nem quem entra nele, será o mesmo. E Fernando Pessoa, ou um de seus heterônimos, concluiu que navegar é preciso, mas viver... ah, viver não é.

            O imponderável, portanto, não é o inimigo do plano. Ele é seu editor. Às vezes, cruel; noutras, generoso. Quantas inovações nasceram de erros? Quantos encontros transformadores surgiram de atrasos, desvios ou acidentes? O acaso, quando bem acolhido, pode ser pedagógico. Mas há de se ter cuidado com ele, como se tem com fogo ou com palavras ditas em voz alta em mesas de bar, podem aquecer, mas também podem incendiar.

            Lembro-me de um dia em que perdi um voo por três minutos. Irritei-me, amaldiçoei o relógio, quase tive um enfarte de indignação. Acabei indo a uma cafeteria, para matar o tempo, e ali conheci um senhor que me apresentou a um projeto que, anos depois, viraria um capítulo importante da minha vida. Se aquele avião tivesse decolado comigo, eu teria perdido o que só a espera me deu.

            No fundo, viver é um pouco isso: planejar com lápis e aceitar que a vida escreve de caneta. Podemos tentar apagar, corrigir ou até colar post-its, mas sempre haverá uma vírgula fora do lugar ou um parágrafo novo onde achávamos que havia um ponto final.

            Então, se posso deixar um conselho, meio filosófico, meio debochado, é este: compre uma boa agenda, faça seus planos... e depois rasgue a página com um sorriso no rosto quando tudo mudar. Quem sabe o improvável não está apenas tentando te levar para o endereço certo, aquele que nem você sabia que existia.

            Como diria o velho Miller, com um cigarro torto no canto da boca e os olhos cheios de desdém: “Trame, planeje, calcule, postule, o quanto quiser. Sempre existirão surpresas à sua frente. Conte com isso!”

            E se não quiser contar com isso... tudo bem. O improvável conta com você do mesmo jeito.

 

 
 
 

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