O HOMEM QUE VIROU TÚNEL
- Carlos A. Buckmann
- 4 de nov. de 2019
- 3 min de leitura

Retornando de um evento patrocinado pelo laboratório Sanofi na cidade de São Paulo, a van que nos conduzia entrou pelo túnel que dá acesso para o aeroporto de Congonhas. Como ainda era madrugada e o movimento era menos intenso, observando o trajeto, pela primeira vez a placa de identificação me chamou atenção: TÚNEL PAULO AUTRAN.
Ato reflexo, meu pensamento viajou no túnel do tempo, voltando a década de 70, mais precisamente por volta do ano de 1976, quando tive o prazer de conhecer e conviver por dois dias com essa extraordinária figura e grande ser humano que foi Paulo Autran, um dos maiores atores brasileiros de todos os tempos.
Na época, eu desempenhava o cargo de Secretário de Cultura e Turismo do município de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul. Meu colega subsecretario e meu professor de literatura no curso de letras, Crenólbe Mário Basso Simon, foi quem descobriu que durante aquele período de férias da televisão, janeiro e fevereiro, Autran excursionava pelo país, com um monólogo de sua produção e por um preço que nossos parcos recursos municipais nos permitiam contratá-lo.
O espetáculo ocorreu numa agradável noite de verão e no dia seguinte, a pedido do próprio Autran, nós o levamos a conhecer as ruínas do povoado de São Miguel, na localidade do mesmo nome, patrimônio histórico da humanidade por determinação da ONU e que na época era um distrito de Santo Ângelo, hoje é emancipado.
Nesse dia inteiro, visitando as velhas ruínas onde, não por coincidência, se realiza até o hoje o espetáculo de som e luz, e nas vozes gravadas com o texto histórico, estão entre outras, a dele, Autran e de Fernanda Montenegro, foi que conheci um pouco de sua história e sua paixão pelo teatro, que mesmo durante as férias o mantinha atuando e viajando pelo país, como forma de enriquecimento cultural e de se manter ativo em tempo integral.
Eu poderia escrever todo um tratado sobre esse dia, com centenas de páginas, relembrando suas histórias, de sua pousada em Parati, da amizade profunda com Tônia Carrero. Mas esse não é o foco do que quero registrar. O que me marcou e a todos que nos acompanhavam, minha esposa, meu subsecretário Mário Simon, o ator Leverdógil de Freitas, (Doitinho para os íntimos) e o cantor e compositor gaúcho Cenair Maicá, então ecônomo do restaurante do parque histórico, repito, marcou a todos, foi a garra e o amor pelo trabalho que Paulo Autran dedicava todos os dias de sua vida, até 2007, com 85 anos, quando ainda fazendo radioterapia e quimioterapia para tratar de um câncer de pulmão (ele fumava quatro maços de cigarro por dia), continuava no teatro com a peça O AVARENTO, de Molière.
Esses dois dias nunca serão pagados de minha memória, pois ficou a lição do amor e dedicação pelo trabalho, onde quem gosta do que faz, não precisa tirar férias, mas até pode e deve fazê-lo, dando um sentido para a própria vida e terminando seus dias com a mesma garra de um iniciante.
Quem se dedica ao trabalho como um artista, não se cansa nunca. Busca cada dia mais a perfeição, não importando em que área atue, comércio, indústria, serviços, artesanato... não importa. O que conta é o amor pelo trabalho, a busca pela perfeição, árdua, incansável, dioturnamente e que me faz levantar todos os dias às 4 horas da madrugada, para estudar e me aperfeiçoar nas atividades que exerço.
Hoje saio do túnel do tempo, lembrando que Paulo Autran é o patrono do teatro brasileiro e não apenas um túnel de acesso a Congonhas.
Pense nisso
e bom trabalho prá nós.




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