O HERÓI DA INSIGNIFICÂNCIA
- Carlos A. Buckmann
- 5 de jun.
- 4 min de leitura

O HERÓI DA INSIGNIFICÂNCIA (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
A fartura de letras de Noel Rosa para uma análise filosófica é quase infinita. Poderíamos escrever um livro inteiro somente com os versos desse jovem de Vila Isabel, e cada capítulo seria uma canção.
Escolhi “João Ninguém” não por acaso, mas por sua atemporalidade. Passados quase cem anos, o mundo continua dividido entre os que ostentam luxo e os que, como João, apenas existem.
A filosofia da MPB está aqui: na coragem de cantar o anônimo.
“João Ninguém / Que não é velho nem moço / Come bastante no almoço / Pra se esquecer do jantar”
Volto a Heidegger que falava do “ser-para-a-morte”. João Ninguém é o “ser-para-o-jantar”, uma antecipação da falta. Comer muito no almoço não é gula; é estratégia ontológica. Ele não é velho nem moço porque a idade é um privilégio de quem tem futuro. João tem apenas o presente ampliado pela fome futura.
Eu já fiz essa mesma conta: almoçar como se não houvesse amanhã por que amanhã o dinheiro pode não dar. Noel capta a sabedoria do pobre: transformar a escassez em cálculo.
“Num vão de escada / Fez a sua moradia / Sem pensar na gritaria / Que vem do primeiro andar”
O vão de escada é o não-lugar tornado lugar. Foucault pensaria nos heterotopias, espaços outros, marginais.
João habita o interdito. A gritaria do primeiro andar é a voz dos que têm endereço fixo, dos que opinam, dos que brigam. Ele não pensa nela. Não por indiferença, mas por economia psíquica: pensar na gritaria seria desperdiçar a pouca paz que o vão lhe concede.
Espinosa diria que a alegria é o aumento da potência de agir. João aumenta sua potência ao ignorar o barulho alheio.
“João Ninguém / Não trabalha um só minuto / Mas joga sem ter vintém / E vive a fumar charuto”
Noel provoca o moralismo do trabalho. João não trabalha, mas joga. O jogo é a atividade improdutiva por excelência.
Baudrillard, ao analisar o simulacro, diria que João habita o reino do puro signo: aposta dinheiro que não tem, fuma charuto que não pode pagar. Não é irracionalidade; é uma forma de resistência ao princípio de utilidade. O charuto é o inútil sublime. Quantas vezes, eu mesmo, comprei um vinho com a “grana” do pão? Não é vício. É um pequeno salto fora da engrenagem.
“Este João nunca se expôs ao perigo / Nunca teve um inimigo / Nunca teve opinião”
Três negativas que parecem condenação, mas podem ser elogio.
Hanna Arendt, ao analisar a banalidade do mal, mostrou que ter opinião e inimigos pode levar ao horror. João, ao contrário, é a banalidade do bem, ou do neutro. Ele não se expõe ao perigo porque o perigo, no mundo dos que nada têm, é cotidiano demais.
Evitar inimigos é sobreviver.
Não ter opinião é, às vezes, sabedoria: pois as opiniões frequentemente servem à violência.
Sócrates tinha opiniões e bebeu cicuta. João Ninguém toma café no vão da escada.
“João Ninguém / Não tem ideal na vida / Além de casa e comida / Tem seus amores também”
Maslow, o psicólogo humanista, organizou uma pirâmide de necessidades. No topo, a autorrealização. João está na base: casa e comida.
Noel ousa dizer que isso já é suficiente. E acrescenta: “tem seus amores também”. Que ideal maior que esse?
O marxismo prometeu a superação da necessidade; João já a superou ao reduzi-la ao essencial. Ele não luta por um mundo novo porque este mundo, com seu vão de escada e seu charuto, já é o seu mundo. Confesso: invejo João. Pois minha cabeça está cheia de ideais vazios; a dele, de café e silêncio.
“E muita gente que ostenta luxo e vaidade / Não goza a felicidade / Que goza João Ninguém!”
Epicuro, há mais de dois mil anos, já ensinava: a felicidade não está nos prazeres raros e caros, mas na ausência de dor e na moderação dos desejos.
João Ninguém é um epicurista sem saber. O luxo e a vaidade geram ansiedade, competição, medo da perda. João não perde nada porque nada tem. E nesse nada, ele goza.
Espinosa completaria: a alegria ativa é superior à alegria passiva. João não depende de bens externos; sua felicidade é ato, não reação. Os que ostentam dependem do olhar alheio. João depende apenas do café e do charuto. Quem é mais livre?
A fartura de letras de Noel Rosa para análise filosófica é tão grande que daria um livro inteiro.
Mas escolhi “João Ninguém” porque, ao contrário das modas passageiras, ele nos confronta com uma pergunta atemporal: o que é uma vida bem vivida?
Não a do herói, não a do rico, não a do líder de opinião. Mas a do sujeito que come no almoço para esquecer o jantar, que mora no vão da escada, que joga sem ter vintém.
Ele não tem inimigos nem opiniões e, talvez por isso, não tenha angústia.
Nesta manhã em que escrevo, olho para os vizinhos que ostentam, para os que têm opiniões fortes e inimigos declarados, e me pergunto: onde está a felicidade que goza João Ninguém?
Talvez no gesto de acender um charuto barato. Talvez no silêncio de quem não precisa provar nada.
Eu, cronista das grandes perguntas, termino com uma resposta pequena:
João Ninguém sou eu.
É você. É qualquer um que, no fundo, só quer um vão de escada onde a gritaria do primeiro andar não chegue.
Noel Rosa, filósofo do anônimo, já sabia. Por isso sua obra não envelhece. João Ninguém é eterno porque é ninguém.
E ninguém, filosoficamente, pode ser qualquer um.
Inclusive quem lê isto agora.
(*) Veja o clipe no YouTube:




Comentários