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O GUERRILHEIRO DAS PALAVRAS

  • Carlos A. Buckmann
  • 26 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

O GUERRILHEIRO DAS PALAVRAS.

            Escrever é fácil, dizia ele, com ironia refinada e um sorriso quase cúmplice entre o verbo e a verdade. "Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias." Mas Neruda não escrevia apenas com ideias. Ele escrevia com o corpo inteiro, com a alma dilatada pelo vinho de sua terra, com os olhos embebidos nas dores de seu povo e com o coração salpicado de amor e revolução.

            Sempre admirei quem vive o que escreve ou, ao menos, tenta. Pablo Neruda não apenas tentou: ele foi coerente com sua palavra até o último suspiro. Poeta, diplomata, comunista, homem de amores intensos e utopias inflamadas, Neruda foi, sobretudo, um guerrilheiro da linguagem. Um combatente armado de metáforas e estrofes, que encontrou na poesia a sua trincheira.

            Nascido em Parral, Chile, em 1904, sob o nome de Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, adotou o pseudônimo Pablo Neruda em homenagem a Jan Neruda, poeta tcheco. Escrevia como quem respirava: por necessidade vital. Ainda jovem, já publicava versos que falavam de amor e solidão com a mesma leveza com que outros escrevem listas de compras. Mas foi também a revolução quem ocupou seus versos, inflamando-os de indignação e esperança.

            Foi senador da república chilena, ministro no governo socialista de Salvador Allende, e exilado político durante o regime opressor. Seus livros se espalham como sementes ao vento, mas é em “Canto Geral” que encontramos a floresta de sua consciência histórica. E em “Confesso que Vivi”, a autobiografia póstuma, o mapa de sua alma errante.

            Em “Confesso que Vivi”, Neruda revela, com comoção incontida, o impacto da morte brutal de Federico García Lorca, assassinado pelas forças franquistas no início da Guerra Civil Espanhola. “A Espanha me ensinou a amar um povo,” escreve ele, ao recordar a amizade que o unia a Lorca, cuja voz lírica foi calada por fuzis covardes. Neruda não esconde a dor, tampouco poupa palavras: denuncia o crime como uma ferida aberta na história e na alma da poesia. A morte de Lorca não foi apenas uma perda íntima, mas uma afronta à liberdade criadora, e Neruda, como guerrilheiro da palavra, transformou o luto em luta. “Mataram Federico por ser poeta,” afirma, “e por ser espanhol dos puros.” Ao escrever isso, Neruda não chora apenas um amigo, ele ergue um monumento em versos à resistência artística contra a barbárie.

            Eu o leio, às vezes, quando o cotidiano me pesa como pedra nos ombros. Porque Neruda tinha o dom raro de transformar o ordinário em poesia, e o impossível em faísca. “E a minha voz nascerá de novo, talvez noutro tempo sem dores, e nas alturas arderá de novo o meu coração ardente e estrelado.” Como não sentir, nestes versos, o consolo de que ainda vale sonhar, mesmo em meio ao caos?

            O cotidiano, este labirinto de compromissos, boletos e algoritmos, é nosso deserto. E nele, o amor, esse oásis que aparece sem mapa. Neruda sabia disso: “A vida não começa quando se nasce, começa quando se ama.” Quantas vezes nossa existência foi resgatada por um abraço, um olhar, um silêncio compartilhado?

            Nas filas de banco, no trânsito entorpecido, nos corredores das farmácias, parece que tudo é urgência. Mas Neruda, com seu jeito rebelde de sussurrar verdades, nos lembra: “Podes cortar todas as flores, mas não podes impedir a primavera de aparecer.” E a primavera, neste caso, pode ser um gesto de gentileza, um poema lido ao acaso, ou até uma lembrança boa que chega sem ser convidada.

            Vivemos tempos em que amar virou resistência. Quando tudo pede pressa, amar exige presença. “Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,” ele escreveu, “te amo diretamente sem problemas nem orgulho: assim te amo porque não sei amar de outra maneira.” E eu, confesso, invejo quem ama assim, sem manual, sem filtros, sem distrações.

            Claro, a liberdade de escolher nossos caminhos permanece. Mas, como advertia o velho Pablo, “você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências.” Talvez por isso, todo dia eu me pergunte: qual poesia estou escolhendo viver hoje? Porque viver, afinal, também é uma forma de escrever, só que sem borracha.

            E quando tudo parecer demais, lembro-me que até Neruda, em meio à dor, conseguia rir. Dizem que uma vez, ao ser acusado de ser um poeta panfletário, respondeu: “Se panfleto for palavra escrita com o coração, então me declaro culpado!”

            E eu também. Com orgulho. Porque, no fundo, todo cronista é um pouco Neruda: tenta fazer da rotina uma poesia. E como diria um amigo querido, que nunca leu Neruda, mas certamente o entenderia: “a vida pode até não rimar, mas com um bom vinho e um poema no bolso, já melhora muito.”

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora

 

 
 
 

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