O GRANDE TEATRO DA SERVIDÃO
- Carlos A. Buckmann
- 1 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

O GRANDE TEATRO DA SERVIDÃO VOLUNTÁRIA
Quando a Liberdade Vira Máscara da Tirania
Começo esta crônica observando o palco contemporâneo da grande liberdade de expressão que as redes sociais nos prometeram.
No alvorecer deste novo milênio digital, vislumbramos a utopia da Ágora universal, um espaço onde cada voz, antes abafada pelo cânone ou pela censura, encontraria ressonância. Era a promessa de um mundo menos opaco, mais horizontal. Contudo, como todo dom titânico, essa liberdade veio envolta em uma ambiguidade perturbadora, pois a liberdade sem o peso da responsabilidade mútua, desmorona.
O que assistimos hoje é o triunfo do anonimato valente. A ausência da presença física, essa capa invisível, incita a um desregramento onde a licenciosidade é travestida de direito. Onde a diferença entre expressar uma ideia e desferir uma agressão verbal se dissolve em meros caracteres digitais.
O indivíduo, protegido pelo ecrã, confunde a sua liberdade com a licença para ferir, transgredir e, em última instância, silenciar o outro pela violência do discurso. É como se estivéssemos em um teatro onde cada ator veste a máscara da liberdade, mas encena a peça da intolerância.
A frase lapidar do Grande Irmão de Orwell, "Liberdade é Escravidão", ressoa em minha mente, mas de forma controversa. No universo distópico de “1984”, o lema era um instrumento cínico de doutrinação: a negação coercitiva da liberdade, imposta pelo Estado onisciente, era o que garantia a "paz" e, portanto, a aceitação da servidão. Orwell previa um futuro em que a escravidão seria imposta por uma força externa e visível.
O paradoxo moderno, contudo, é que nos escravizamos a nós mesmos ao utilizar a nossa própria liberdade de forma destrutiva. O Grande Irmão não precisou nos roubar a voz; nós a entregamos ao ruído, à ira e ao fanatismo, trocando a construção de um diálogo pela destruição do contraditório.
O fanatismo das bolhas ideológicas é a nova prisão. A ausência de cultura, a recusa em confrontar o próprio pensamento com a complexidade do mundo, gera uma falsa liberdade: a liberdade de permanecer na ignorância autoimposta.
Essa "liberdade" de não pensar criticamente é o que, ironicamente, escraviza os seguidores aos ideais autoritários contemporâneos, sejam eles políticos, religiosos ou simplesmente tribais e identitários.
Essa servidão voluntária era uma ideia já explorada por Étienne de La Boétie no século XVI em sua obra “Discurso da Servidão Voluntária”. Ele questionava como uma multidão pode aceitar, e até desejar, a tirania de um só homem ou de um grupo de ideais. A liberdade, para La Boétie, era um instinto natural perdido pela habituação e pela cegueira.
O sociólogo Zygmunt Bauman, com sua reflexão sobre a "modernidade líquida", também acentua essa ideia, mostrando como a fragilidade dos laços sociais e a busca incessante por certezas e identificação imediata nos leva a nos refugiar em comunidades fechadas e dogmáticas nas redes.
Hannah Arendt já alertava, em “As Origens do Totalitarismo”, que o terreno fértil para regimes autoritários não é a tirania imposta, mas a atomização da sociedade, a perda do diálogo, a substituição do pensamento crítico por lealdades cegas. As redes sociais, em vez de fortalecerem o espaço público, cavaram trincheiras identitárias onde a verdade é relativa, mas a lealdade é absoluta.
E como bem escreveu Byung-Chul Han em “Psicopolítica”, não vivemos mais sob o regime da coerção, mas da autoexploração. Somos trabalhadores de nossa própria opressão, produtores de nosso próprio conformismo.
Vemos a excrecência dessa confusão cultural em manifestações atuais, onde a crença em teorias da conspiração absurdas (como o movimento antivacinas ou o terraplanismo) é defendida com um fervor que suplanta o argumento e a evidência científica. Eles se sentem livres por "desmascararem" a "verdade oficial", mas na realidade estão escravizados a uma narrativa que anula a razão e os submete à autoridade dogmática do guru da bolha.
Basta observar um comentário agressivo em uma rede social ou uma discussão truncada em grupos de WhatsApp: pequenas cenas cotidianas que revelam como a liberdade se convertem em espetáculo de intolerância.
O diálogo com esse tipo de pessoa é impossível. Vivem num mundo de realidade recortada, retirada do contexto histórico, como também do atual. Suas falas e seus escritos atropelam as regras da gramática, trocando "mas" por "mais", e construindo frases “gerundivas”.
A Liberdade não é um campo aberto para o mero desejo ou para a agressão. É uma praça pública onde o meu direito termina onde começa o do Outro. Quando a expressão se torna transgressão, quando a liberdade de dizer confunde-se com a licença para oprimir, ofender ou desumanizar, o que celebramos não é a democracia, mas o caos solipsista.
A confusão entre liberdade e transgressão é a negação do pacto civilizatório. A verdadeira libertas exige o exercício do discernimento, do respeito e da responsabilidade pela palavra. Se "Liberdade é Escravidão" na distopia, hoje, no nosso mundo, o lema se reescreve: "O Abuso da Liberdade é o Convite à Tirania."
Assim, no silêncio entre os ruídos, talvez seja hora de admitir: nunca estivemos tão conectados, e tão sozinhos em nossas prisões invisíveis.
Se não soubermos impor os limites éticos à nossa própria expressão, fatalmente, a força externa virá para nos impor o silêncio.
Beto Buckmann
Crônicas entre ideias e pólvora




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