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O FRUTO, O PARAÍSO E O PREÇO DA CONSCIÊNCIA.

  • Carlos A. Buckmann
  • 4 de jul. de 2025
  • 4 min de leitura

O FRUTO, O PARAÍSO E O PREÇO DA CONSCIÊNCIA.

            Desde cedo, a curiosidade me perseguia como uma criança inquieta espreitando por trás das cortinas do mundo. Tive a sorte, ou o fardo, de me encantar por muitas coisas ao mesmo tempo: filosofia, política, psicologia, literatura, ciências naturais e até a metafísica dos sonhos. Descobri, com o tempo, que esse apetite voraz por saber tem nome de respeito: conhecimento polímata. Mas não se iluda com o termo elegante. Ser polímata é andar sempre com a mala pronta, porque a cada novo saber, você é gentilmente, ou violentamente, convidado a abandonar algum paraíso.

            Mas é um privilégio inestimável navegar pelos oceanos do saber, cruzando as fronteiras das disciplinas e desvendando as conexões intrínsecas que permeiam a existência. O conhecimento polímata, a busca por uma compreensão ampla e multifacetada do mundo, não é apenas um luxo intelectual; é a própria seiva que nutre o crescimento pessoal e a evolução da sociedade. Quando nos permitimos mergulhar na história, na ciência, na arte, na filosofia, na matemática, na literatura, e em tantos outros campos, expandimos nossa mente, aprimoramos nossa capacidade crítica e desenvolvemos uma visão mais holística e compassiva da realidade. É nesse entrelaçamento de saberes que nascem as inovações mais disruptivas, as soluções mais criativas para os desafios complexos que enfrentamos, e uma cidadania verdadeiramente engajada e consciente.

            A sociedade cresce quando seus indivíduos crescem. E os indivíduos crescem com o saber. Quanto mais múltipla e interligada for essa sabedoria, mais rica e complexa se torna a convivência humana. A cultura floresce, a economia se diversifica, a política se refina (ou deveria). Porém, aqui reside o desconforto das elites: um povo que pensa demais começa a fazer perguntas. E pergunta, como bem sabem os inquisidores de todos os tempos, é o início da heresia.

            A educação plena das classes trabalhadoras sempre foi malvista por aqueles que detêm o poder. Não por acaso. Um trabalhador que conhece história, filosofia e direito constitucional é menos maleável. Já dizia George Orwell: “A massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa.” E se a massa lesse Orwell, a massa se rebelaria contra o marketing, contra a ignorância induzida, e talvez até contra o espelho.

            O conhecimento é revolucionário. Cada livro lido, cada aula compreendida, cada conversa significativa nos distancia da inocência e da servidão, e nos aproxima do desconforto da lucidez.

            Foi então que me deparei com a frase de Melanie Klein:

“Quem come do fruto do conhecimento, é sempre expulso de algum paraíso.”

            Melanie, psicanalista austríaca radicada em Londres, ousou mapear as profundezas da mente infantil, desafiando os próprios cânones freudianos. Sua vida foi uma travessia entre guerras, exílios e salas de análise, e talvez por isso tenha compreendido tão bem a dor que o saber carrega. Klein sabia que o conhecimento não apenas ilumina, mas também exila. Exila da ignorância confortável, das certezas prontas, dos mitos reconfortantes. E o preço da consciência é justamente o desterro do paraíso da ignorância.

            Muitos outros pensadores ecoaram esse lamento lúcido. Sócrates, antes de beber a cicuta, já afirmava que “uma vida não examinada não vale a pena ser vivida.” Espinoza, excomungado pelos próprios judeus, sabia que pensar tem um preço: a exclusão. Simone Weil, lúcida até a agonia, dizia que “a inteligência é a luz na qual a verdade aparece.” Mas, como todo foco de luz em um sistema de sombras, ela cega os que preferem a penumbra.             Friedrich Nietzsche, em "Assim Falou Zaratustra", nos apresenta a figura do "Além-do-homem", aquele que transcende as limitações morais e intelectuais impostas pela sociedade, um verdadeiro rompimento com o "paraíso" das convenções. Ele afirmou: "O que não me mata me fortalece." O conhecimento, muitas vezes, nos confronta com verdades desconfortáveis, nos força a abandonar velhas crenças, e esse processo, embora doloroso, nos fortalece.

            A expulsão do paraíso é útil às elites porque mantém a lógica da escassez simbólica: quem detém o saber, detém o poder de nomear, de legitimar, de interpretar o mundo. E como os donos do paraíso são também os donos das maçãs, não há árvore do conhecimento que cresça sem ser cercada de vigilância. No fim das contas, abraçar o conhecimento é um ato de coragem. É aceitar que o conforto da ignorância é uma prisão, e que a verdadeira liberdade reside na capacidade de questionar, de aprender e de crescer. Pode até ser que a gente seja expulso de alguns paraísos no processo, mas, honestamente, quem é que precisa de um paraíso que não aguenta umas boas perguntas?

            Mas, talvez, no fundo, o verdadeiro paraíso nunca tenha existido fora da ignorância. Talvez o saber seja mesmo o nosso caminho de volta, não ao Éden, mas à dignidade. Porque, convenhamos, se paraíso é lugar onde ninguém pode fazer perguntas, eu prefiro o exílio.

            E como bom herege do pensamento, fecho esta crônica com um sorriso nos lábios e um aviso no olhar:

            Cuidado com o fruto do conhecimento, ele pode causar independência intelectual e reações alérgicas à manipulação.

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora

 

 
 
 

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